| cuy disfarçado para não ser reconhecido pelos gaviões... pode dar certo |
Era uma vez dois fofos porquinhos da índia que foram adotados por um paulista lindo e loiro segundo ele mesmo se descreve. A adoção foi motivada pela vontade de fazer parte da comunidade dos donos de pet, a qual se engajaram todos os seus amigos. Acontece que, por pura falta de habilidade com animais de estimação, ou por total irracionalidade que lhe é peculiar, o homem de bom coração resolve que os animais devem ser livres, voltar as raízes de seus ancestrais, vida selvagem, caçar para comer e cavar a procura de água. Daí solta os dois porquinhos da índia, que nasceram em cativeiro, no quintal da casa com meio metro de mato acima da cabeça de cada um. Moral da história, só deu tempo de batizar um deles de "Carniça", por que "Sem Nome" foi devorado por um gavião num voo rasante após o primeiro dia de liberdade no quadrado perigoso que pode representar um despretensioso quintal.
Posso escrever textos fantásticas com base nessa fábula real, no estilo Platão a Martha Medeiros, dando uma passadinha por Casseta e Planeta. Acreditem, sou capaz disso. É por essa razão, e tão só por ela, que as dores de cabeça me visitam constantemente. Tenho que dar vazão a inquietude de meus pensamentos e conexões mentais senão a tomografia vai começar a dar indícios de "pensamentite aguda" e lá vou eu me aposentar pelo INSS e ficar sem dinheiro para ter segurança e liberdade, os únicos valores possíveis atualmente, e vem a tristeza, a depressão, a solidão, a internação, a morte do coração e a ressurreição... será? Muita ansiedade faz com que construa textos com muitas vírgulas, me perdoem por isso também.
Estou feliz, não reclamo de uma segunda-feira com jeito de sábado, entre um domingo e um feriado. Dou graças por isso. Há sol. Tempinho de ajeitar a casa, ouvindo meus CDs - fora de moda isso? - ler um pouco, ver um programinha na Globo que nunca vejo por causa do trabalho, fazer umas aulas extra de inglês, francês e italiano (resolvi começar meu projeto Poliglota até 2014), jogar conversa fora com os amigos etecetera e tal. Crise normal para quem sofre de pensamentite aguda. Ontem assisti o Café Filosófico, tive insônia, acordei lendo outro texto de filosofia sobre a "eugenia", claro que hoje a pauta tinha que ser o desejo de ir além de mim, ou extramundo ou inter-mundo.
Acontece que me solidarizo com "Sem Nome", metaforizo sua vida com a minha. Solto num quintal de 300m², doidinho por causa do mato grande que o impedia de ver além; sem água, num solo seco; sem comida a não ser o pé de boldo. Como a personagem de "A Paixão Segundo G.H.", me coloco no lugar dele. Menos mal ser um porquinho da índia que uma barata (leiam mais Clarice Lispector). De ontem pra hoje já me senti livre, completa, feliz, feliz demais, satisfeita, nostálgica, ansiosa, tensa, com raiva, com medo, com dor, solitária, sozinha, calma, firme, racional e reciclada. Agora vou colocar o pé no chão e sobreviver mais um dia, tipo o porquinho "Carniça", afinal há sol lá fora e um dia lindo tem que ser vivido plenamente. Por via das dúvidas hoje no máximo mexo nas plantas do jardim, nem vou olhar para o quintal.