25 de dezembro de 2009

meu nome é EDMUNDO

Para completar a lenda de minha família, estava faltando falar sobre o nome de meu pai. A ideia deve ter partido de meu avô ou meu bisavô de batizar a criança loirinha de Edmundo, referência a Edmond Dantes, personagem do livro de Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo. Entre Jequié e a Paris existe um óbvio abismo sociocultural; ainda bem que para a imaginação provocada na literatura não há separação. Sei é que meu pai nasceu Edmundo, forte e sério como o nome.
Falar dele desperta em mim várias emoções. Meu pai já não está aqui há mais de 8 anos. Perdê-lo foi a combinação de sentimentos mais estranha que já tive, criadora de uma ferida que toda vez que é tocada me destrói um pouco. Deve ser a coragem de me assumir triste no Natal que me fez ter vontade de escrever sobre seu nome.
Edmundo Magalhães, nome e sobrenome que forjaram meu caminho, minha personalidade. Tudo nesse nome me lembra um homem com voz de trovão, de olhar astuto, humor cáustico, dono de inteligência adquirida na vida e não em cadeira acadêmica. Meu pai fez até a 3ª série do ensino fundamental, mas tinha o português mais correto e a letra mais linda que já vi.
Conta a lenda da família que ele, aos 16 anos, saiu de casa e ganhou o mundo, deixando Zéza (a tia) cega instantaneamente quando o viu entrar pela porta, após anos, homem feito que pensavam todos estar morto.
Meu pai perdeu a mãe aos 4 anos e o pai aos 50. Era criança briguenta e feroz, cresceu orgulhoso, soberbo e machista, envelheceu com todas essas características pulsando nas veias, mas com mais sutileza.
Em mim, marcada por seus genes, está impresso o seu olho e olhar, a austeridade no trabalho, o gosto pela política no desejo por um mundo melhor, a preferência por estar sozinha perdida em meus pensamentos. Vai ser difícil olhar no espelho hoje.

(...)
Eh! Vida boa vai no tempo vai
Ai mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar

Espelho (João Nogueira / Diogo Nogueira)

12 de dezembro de 2009

meu nome é WALDISNEY

Essa pérola veio por e-mail, de minha prima Tina. Acho que a história começa assim: um assistente de enfermagem, chamando os pacientes para exames, procura por Waldisney que não se apresenta. E ele insiste a cada chamada e nada de Waldisney. Quando a sala estava quase vazia, percebe uma mulher e uma criança sentadas. Olha para a lista e vê que apenas o Waldisney não se apresentou nos chamados. Vira então para a mulher e pergunta se o menino é o Waldisney e ela se levanta, com cabeça erguida, em atitude de orgulho: você chamou errado. O nome dele não é /valdisnei/, é /uau disnei/.
É uma história parecida com Letísgo (Lets Go) e confirma como nós brasileiros somos criativos e influenciáveis pelos estrangeirismos na escolha dos nomes de nossos filhotes. O Dionatan que o diga. Lembrei de minha mãe falando dos filmes com /jérri lévis/, assistidos no cinema de Poções em sua adolescência e eu nunca identificava esse ator nos meus conhecimentos de metida-a-cinéfila, até zapear um canal com filmes antigos e ela dizer: olha o /jérri lévis/! Era Jerry Lewis.
Pronúncia, escrita, tudo uma mistura só na cabeça do povo. Dureza são os Istarlone da vida. No interior de Ju, minha amiga Jusciney, moram parentes dos Kennedy – pelo menos no registro. Em Teixeira tem uma prima de Ayrton Senna – não comprovado o laço sanguíneo. E em Poções, as inspirações do cinema americano emprestaram nome para John Wayne N. dos Santos, meu ex-cunhado, que a gente chama de Vane pra facilitar o processo. Só famoso.

11 de dezembro de 2009

meu nome é DIONATAN

Eu e minhas descobertas no Extremo Sul da Bahia. Eis que aqui me aparece um rapaz chamado Dionatan. E a pronúncia é americana mesmo, como Jhonatan. Depois de ficar parada, olhando para ele e para o crachá, com cara de quem descobre mais uma pérola do cartório de registros, lembrei do nome de meu amigo Jonatan que pronuncia Dionatan e começou a comichão para escrever sobre isso antes da rotina embaçar minha memória.
Em cócegas com essa descoberta fui fuçar o significado de Jhonatan. Achei num site que a origem do nome é inglesa, uma variante de Jônatas. A pessoa batizada com esse nome gosta de manter-se em igualdade com qualquer pessoa numa disputa. É uma pessoa de mente aberta (meu amigo é) e não gosta de ficar parado em função da agilidade mental e física (bem, o cara é baiano). Gosta de ler, viajar, estudar e “possui uma paixão invejável pela vida”.
Nem tudo são flores. O site fala também que os registrados com esse nome não tem muita diplomacia quando querem falar verdades. Esse não é o caso de meu amigo Jonatan. Ele é um gentleman, um lord no tratamento com as pessoas. Pensando bem, ele me chamou de baleia uma vez... Enfim, isso eu me acerto com ele depois.
O fato é que tudo isso acabou resolvendo um problema insolúvel até o momento. Chamo Jonatan por um apelido que é a cara dele, mas não decido nunca qual é a escrita: Jhonny, Jhonie, Jony, Jhony, Jhonniye, vixe, uma complicação!
Agora resolvi tudo. Posso abrasileirar o apelido e passar a chamá-lo simplesmente de Dione - não Diône. Escrever como pronuncia não tem tanto charme; tira o direito de meu amigo do glamour do estrangeirismo no nick, mas facilita muito minha vida. Estou só imaginando o comentário dele tipo “meu nome não é Dione”.

8 de dezembro de 2009

meu nome é BEDECILDA

Será que nome de mãe quando é complexo deixa marcas nos filhos? Será que isso pode ser um primeiro contato criativo com o mundo? A filha de D. Bedecilda pode ter se inspirado na mãe para se tornar o que é (e se for em 2004). Na minha concepção, uma das maiores poetas que já li, e olha que foi batizada com nome comum, apesar de ser totalmente única: Hilda (Hilst).

"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.

Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."

6 de dezembro de 2009

meu nome é DULCINÉIA

E Cervantes, na Espanha, cria Dom Quixote. E Dom Quixote conhece sua musa chamada Dulcinéia. E meu avô registra em Rubim - MG minha tia de olhos de gato com esse doce nome. Assim conto porque não sei dizer de onde veio a inspiração desse batismo.
Nunca li Dom Quixote de La Mancha, mas gosto das imagens que retratam ele e Sancho Pança. Também gosto do adjetivo quixotismo: “pessoa que vive em histórias fantasiosas de romances e fazem da vida uma verdadeira novela” Essa é minha tia. As histórias fantasiosas de minha tia enchem qualquer Blog. Aqueles olhos verdes e espertos, de quem vai aprontar uma a qualquer momento, deixam a gente em estado de alerta.
Cresci não só ouvindo as histórias sobre o que aprontou na infância, como sofri na pele suas travessuras. Tinha um senhor que fazia o transporte escolar, Seu Rufino, e quando chegava a hora dele me buscar rezava para minha tia não estar por perto. Ela gritava: Ariana, seu namorado chegou! Queria cair dura, mortinha. Ao mesmo tempo tinha as casas de boneca que montava pra mim, com caixas vazias de sabonete e de pasta de dente; as mais lindas que já tive.
Estou aqui selecionando na memória a melhor história dela para contar, mas não dá, todas são demais. Tia Néa já pintou as unhas de meus tios de vermelho enquanto dormiam para perturbar uma caçada, ameaçou mostrar a calçola furada de minha vó para uma visita, gritou na igreja denunciando o beliscão que minha vó lhe deu após alguma traquinagem, imitou uma gaga no telefone durante semanas quase deixando D. Matilde doida. Essa é minha tia Xane, onde ela está não tem tristeza, só sorriso e de dar dor na barriga.

29 de novembro de 2009

meu nome é XERLÉIAS

Essa tenho que contar. Em minhas andanças pelo extremo sul do estado, eis que encontro uma das histórias sobre nomes mais divertidas que ouvi. Conversando com uma professora fiquei curiosa (novidade) para saber o porquê de seu nome: Xerléias. Ela contou que seu pai foi registrá-la com um nome simples, fácil, possível, mas mudou de ideia quando chegou ao cartório – olha a ação do pai novamente.
O simpático é que não contou para a mãe da menina que Márcia virou Xerléias e nem ela se interessou em conferir o registro (cuidado com isso - uma dica de interesse público deste Blog).
Creia, a situação só foi descoberta na escola quando a professora não encontrava o nome de Márcia na chamada, nem a tal da Xerléias aparecia. Conferindo os fatos, descobriu-se como pode ser fértil a imaginação de um papai.
Como se não bastasse essa história, no mesmo dia ouvi outra tão interessante quanto. Um senhor, também da região, foi registrar seu filho com o sugestivo nome de "Adevogado de Deus". O oficial do cartório foi contra, ufa, mas o pai se revoltou: então registra com qualquer nome, pois ele vai ser chamado de "Adevogado" (fala-se ê) de qualquer maneira. E hoje ninguém conhece o homem com o nome de batismo – que também esqueci agora. Só me lembro do apelido: Dêva. A-dêva-gado, sacou?
A hipocrisia do brasileiro é assustadora. Se chinês coloca nome de filho de “@” porque o senhor de Posto da Mata não pode registrar "Deva" e virar notícia também? Só Agenor gritando mesmo pra o Brasil mostrar sua cara (e eu peço que me mostre seus nomes).

16 de novembro de 2009

meu nome é CLAUCIRLEI

Buscando inspiração para novos textos, resolvi sair um pouco do eixo amigos-família e me aventurar nos nomes artísticos. O filhote americano de São Longuinho, o Google, me apresentou um rol imenso de títulos. Tendo como base essa pesquisa, cheguei ao nome-título desse post: Claucirlei. Deve ter sido fácil dizer para Buchecha que como Claucirlei Jovêncio de Souza ele não tinha futuro na música funk carioca.
Viajei no casamento de Bernadete Dinorah e Pedro Anibal - seus cabelos coloridos devem ser reflexo da rebeldia pelos nomes de batismo. Baby Consuelo e Pepeu Gomes mandaram muito bem nos codinomes. Puxa vida, só não entendo porque, depois da gente reconhecer os artistas pelos nomes artísticos, eles resolvem mudar tudo. Bernadete Dinorah deve ter se cansado de ser Consuelo e agora é do Brasil. Aí gosto da rigidez do sistema de registro de nascimento do país – não seria tão fácil assim para minha irmã Saiene virar Patrícia ou Mariana.
Outra pérola é Demetria Gene Guynes. Lendo o nome pensei em uma mulher carrancuda, sem dente e com canelas de siriema. Mas Demi Moore, definitivamente, não é isso. Também não me imagino suspirando pelo impronunciável Farrokh Bommi Bulsara cantando Love of My Life: ai, ai, Freddie Mercury...
Os brasileiros são mais divertidos. Tem Agenor, Cledivan, Nilcedes, José Eugênio e Emival Etero, respectivamente Cazuza, Chimbinha, Glória Menezes, Jô Soares e Leonardo (da dupla). Mas o meu preferido é Maria Odete. Imagino o anúncio de que ela está entrando no palco. Tudo escuro. Acendem-se luzes vermelhas e roxas, em seguida a luz negra para dar o clima sensual. Entra Maria Odete, rebolando, com roupa minúscula, vermelha e preta. Cabelos jogados de um lado para o outro. A pioneira da “Bunda Music” começa a cantar em inglês, com voz engasgada, “Conga La Conga, Conga, Conga, Conga”. Dá-lhe Maria Odete! Freak Le Boom Boom, Gretchen!

15 de novembro de 2009

meu nome é ARCHIMIMO

Pronuncia-se “Arkimimo”. O nome de meu amigo é uma exótica homenagem ao seu avô. Fico pensativa sobre heranças como essa. Coisa que não se gasta, não se troca, marca sua vida toda e pode definir o que você é para sempre.
Bom, pra mim ele é Mimo ou Miminho quando quero pedir ajuda no Photoshop. Mimo é um artista, um Design talentoso. E tem um nome sugestivo, tipo artista mesmo. Gosto também de chamá-lo de Arc Costa: faz pressão. Aliás, todas as pessoas que têm nomes pouco comerciais precisam de um apelido. Os meus dão um blog a parte. Já pensou um menininho sendo chamado de Archimimo? Tem que ser Mimo e pronto.
Quando falei que escreveria sobre um amigo meu chamado Archimimo o povo daqui fez uma careta: “você tem uns amigos com nomes estranhos, hein?”. Só rindo.
Não escolho meus amigos pelos nomes, mas, pensando bem, algumas pessoas queridas que passaram por minha vida ou ainda mantenho contato, são material bom para esses escritos, tipo Carla Cinderela, Cleópatra Cátia, Zimaldo e Archimimo. O ex-pároco de Mucuri chama-se Cecifran. Parece que alguns pais se inspiram colando letras na sopa de letrinhas.
Voltando a Mimo, sei que ele deve ter histórias divertidas sobre esse nome. Essas histórias devem estar guardadas juntas de outras contadas por ele e que já nos renderam muitas e boas risadas. Miminho é o melhor companheiro de viagem que já tive. Na Chapada a gente não era nem Ariana, nem Archimimo, éramos só energia. Mimo também foi o único que topou esperar três horas numa fila para eu pegar um autógrafo de Zeca (Baleiro). Um mimo de amigo, um arqui-companheiro.

7 de novembro de 2009

meu nome é SIGISMUNDO

Mas podem chamá-lo de Sérgio. Esse recurso que meu tio usou para simplificar as apresentações é clássico. Acabou trocando o nome diferente por um fácil de memorizar e resolveu todos os seus problemas.
Bem, Sigismundo foi ideia de meu avô, leitor, que quis homenagear Freud num filho. O menino devia se chamar Sigmund, mas o abrasileiramento do nome de Freud no cartório de Rubim (MG) deu em Sigismundo que virou Sigis que virou Seges que virou Sérgio. Entendeu? Ainda bem que quando nasceu seu filho homem deram o nome de Sérgio e para nós é Serginho, como se fosse Júnior.
Não imagino como era na escola, em sua época de criança. Pelas fotos vejo um rapazinho das pernas magrelas, com olhar de homem, pronto para desafiar, possivelmente, quem quisesse brincar com ele por causa do nome. Cresceu e virou um homem com olho de criança travessa e pronto para rir junto com quem quiser tirar sarro de qualquer coisa da vida, até de seu nome.
Esse tio é muito querido. Quando eu era criança o chamava de tio Xége, muito mais fácil que tio Sigismundo. Aliás só minha mãe o chama por um apelido que lembra o nome de registro: Mundo. Ele deve ter muitas histórias para contar sobre o nome, mas agora são essas que me lembro. Sobre ele as histórias se multiplicam e com trilha sonora de Martinho da Vila – “vem logo vem curar seu nêgo que chegou de porre lá da boemia...” – cantada com um sorriso largo e uma alegria que vem de dentro. Freud explica.

5 de novembro de 2009

meu nome é MARIANA

Tenho que me render a esse nome não complexo, mas bem popular em minha vida. Esses dias fui telefonar para Mariana e enlouqueci com minha agenda. Tinha “Mari MU”, “Mariana SSA”, “Mari” e “Mariana”. Como pude fazer isso comigo?
Nomes fáceis de gravar podem virar um problema. Hoje minhas quatro amigas Mariana precisam de sobrenomes para serem identificadas. Isso acontece muito em escola, quando a gente é criança. Eu mesma tinha duas colegas Gabriela. Uma era Gabriela Bicalho e a outra Gabriela Andrade, eu acho. Bem, na época eu sabia.
É muito bonitinho ver as crianças chamando os colegas por nome e sobrenome. João Victor tem duas colegas Andressa. Ele diz que uma é “Dedê” e a outra é “Outra Dedê”. Com três anos a gente facilita as coisas.
Então, eu e minhas amigas Mariana. Consegui enfim identificar minha agenda, usando o recurso pré-escolar. Agora preciso encontrar um jeito de escrever e-mails. Mandei um para Mariana Scaldini com cópia para Mariana Andreatta. E devo ter confundido as duas pois chamei uma de Mari e a outra de Mari também. Pedi a Mari para organizar um café e para Mari para ajudar Mari. Triste.
Quando estão próximas, chamo uma de Mari e a outra de Mari Mari. Quando tiverem três, vai ser dose: Mari, Mari Mari e Mari ao cubo? Isso me confunde bastante. Pra completar, Mariana é um nome único, normalmente, porque conheço uma Roberta Mariana (a indecisão...), mas essa a gente chama de Ló – ufa!
Mariana é um lindo nome, muito mais fácil de gravar que o meu e ainda tem música feita por Seu Jorge em homenagem a sua mulher Mariana (ouça; é linda). Confesso que desejei um dia ter esse nome - ia ganhar uma música de brinde. Tudo bem, não soaria bem na escolinha: Mariana Magalhães. Parece eco. Mas poderia me identificar mais facilmente com personagens de novela ou de livro.
Encontrei um livro de Fernanda Young que tinha uma personagem chamada Ariana. Pulei muito! Chama-se “A sombra de vossos pés”, ou algo assim. Comprei o livro e devorei cada página achando que ia me encontrar ali, nome-personagem-ego tudo junto. Qual nada, a mulher era muito doida, teve experiências que me fazia arrepiar os cabelos e falava palavrão. Um lástima.
Minhas amigas Mariana, minhas primas Mariana, desculpem-me mas serão para mim sempre Mari quando separadas ou juntas porque acho esse apelido um doce, parecido com vocês. Desculpem-me também por dedicar esse texto a Mariana Soledade que me pediu para fazer um texto sobre seu nome "sem graça"....rs

3 de novembro de 2009

meu nome é CLAUDIO GILSON

Agora que mexi na caixinha de memória das cidades que passei, vai ser difícil conter os tantos nomes que ressurgiram e talvez tenha que produzir textos em série. No anterior falei de Poções, agora tenho que falar de Dias D’Ávila.
Na proporção correta, cada uma dessas cidades é um divisor de águas em minha vida. Uma por carregar meus genes, minhas heranças; a outra por ter sido palco de minha adolescência. Palco não é jeito de falar, é como me lembro dessa época. Vejo-me sempre com uns tênis de cano longo coloridos, uma calça com um dragão desenhado e uma blusa estampada com uma foto de Billy Idol com pose punk e um alvo nas costas (não me lembro de uma música desse cara, mas do nome não esqueci nunca). Isso porque não bloqueei a lembrança de meus cabelos.
Bem, essa figura teve um primeiro amor, e um primeiro beijo, e um primeiro fora, e o nome do cara é Claudio Gilson, irmão gêmeo de Gilson Claudio. Escrevi esse nome muitas vezes em meus diários, que rasguei assim que voltei a morar em Salvador, para esquecer da frustração da história meio Romeu e Julieta, proibida por meu pai. Fazia um coração e escrevia dentro C&A – sem merchandising. Nunca pensei em escrever CG&A, mas nunca consegui desvencilhar um nome do outro na minha cabeça.
Gilson é o nome do pai e Claudio era o nome que ele teria se nascesse apenas um. Mas foram dois e Tia Vera foi bem democrática, a meu ver. Preferiu não abrir mão de nenhuma das opções e transformou dois nomes em outros dois.
O interessante é que devo ter cristalizado algo no livro de minha vida porque sempre que conheço alguém pode crer que o sujeito tem nome composto. Já pergunto, quase rindo, e é fatal que tenha um José, um Antônio, um João misturado com outro nome, ou algo mais exótico como dois nomes nada a ver, juntos só por indecisão dos pais no momento da escolha.
Enfim, já me acostumei com essa sina inaugurada em Dias D’Ávila. Mas agora acabo de me lembrar que houve um antes de Claudio. O primeiro dos primeiros, quando tinha seis anos mais ou menos, chamava-se Ronderlon. Meu destino podia ser pior...

2 de novembro de 2009

meu nome é PAULINA

As histórias da cidade natal de meus pais rondam meu imaginário desde criança. Poções é o protótipo de cidade de interior da Bahia. Tem igreja, praça, festa de padroeiro, desfile de 7 de setembro movimentando a cidade, jardim com flores, primos casando com primos e, claro, muitos nomes interessantes, incluindo os de minha família.
Escolher um para puxar esse texto é que foi difícil. Comecei pensando em minha vó, Altamira, e em sua penquinha de filhotes com nomes diversos. Só que essa história é tão cheia de outras histórias que prefiro escrevê-la aos poucos.
Aí vieram outros parentes, por parte de mãe e pai, amigos de infância, pessoas ilustres da cidade, até que me lembrei de um nome que está gravado em minhas memórias. Se esse nome não marcou aquela mulher, me marcou definitivamente a ponto de achar que Paulina é nome de doida.
Diz à lenda que Paulina ficou doida após ser abandonada no altar. Vivia na rua, com um saco jogado nas costas, cheio de coisas catadas aqui e ali, e tinha um chapéu na cabeça. A lembrança é de um ser marrom. Tudo nela era dessa cor: pele, roupa, cabelo, dente. Eu morria de medo de cruzar com ela e me escondia quando a via batendo à porta da casa de minha vó, pedindo algo pra comer.
Em Poções, Paulina era a doida e Isaulino era o doido (esse é sinônimo de doido só pra minha mãe pois foi anterior a mim). Esse ciscava como galinha e segurando as calças. Tinha um que se chamava Jipe, mas acho que era apelido porque o doido era ele e não quem o registrou. Apesar de que, se começar a fazer uma relação dos nomes dos nativos da cidade, talvez a gente comece a desconfiar da pessoa do cartório.

31 de outubro de 2009

meu nome é LETISGO

Escrever um blog é mesmo melhor que escrever um livro. Aqui a gente tem o registro do leitor, com contribuições tão interessantes que acabam provocando outras construções de texto. Agradeço logo a Juba, Mimo, Patty, Sassy, Tia Lola, Loly, Claudinha e quem leu e não comentou também.
Já deu para perceber que cada um de nós conhece histórias maravilhosas sobre nomes próprios. A criatividade parece não ter limites. Me imagino num daqueles cartórios de registro no interior, com livros imensos no colo, folhas A3 amareladas e escritas com letra de caligrafia. Deve ser um delírio.
Viagens a parte, volto para a era do computador e vejo que nada mudou. A internet, em especial, trouxe uma quebra de limites de tempo e espaço que fez com que a criatividade explodisse. Hoje tem gente batizando filho de Raj do Espírito Santo.
Uma amiga me contou uma história divertida sobre a influência de estrangeirismos nos nomes populares. Dia desses a irmã dela, médica, chama um paciente: “Letísgo!” Não houve resposta. Novamente tenta: “Letísgo!” Nada. Após mais duas tentativas, ia desistir quando um rapaz se levanta e fala: “É Letisgô, doutora”.
Vamos Lá, Lets Go! Com estrangeirismos/estranhissísmos ou não, inspirados pela internet ou pelas línguas que romperam fronteiras com ela, o que vale é ser original nesse mundo, onde a gente busca customizar nossa passagem pela vida.

29 de outubro de 2009

meu nome é JUSCINEY

Esse nome cobriria folhas e folhas de história. Só nesse instante que comecei a escrever, já me passou pela cabeça um milhão delas, contadas e compartilhadas com essa amiga-irmã que conheço há mais de 8 anos.
Jusciney é Ju para quase todos. Ju é uma espécie de nome artístico. Sabe Fernanda Montenegro? O nome verdadeiro dela é Arlete. Entenderam o espírito da coisa? Não adianta forçar a barra quando se pode simplificar. Só que esse apelido de Ju gera uma série de confusões. Por causa dele, ela já passou por Juliana muitas vezes. E quando descobrem que Ju vem de um nome, como falarei isso, incomum, fazem nosso velho conhecido “ah...”.
Alguém chuta quem deu esse nome a um bebê? O pai. Sempre ele. Jusciney era o nome de uma Miss de-não-sei-onde e virou o nome de minha amiga. Eu a chamo de Juba, minha querida Juba dos olhos verde azeitona.
Acho interessante como ela vira pra gente, com aquele olhar penetrante, e diz seu nome. Logo em seguida pergunta nosso signo e começa a calcular o ascendente. Com isso ninguém valoriza muito se é Jusciney, Juscinéia, Jusciléa, Juscineide ou Juscilene – chamo-a de tudo isso quando meu Cosminho perturbado baixa em mim.
Um dia a gente estava viajando e entramos em um lugar que vendia coisas de fazenda, na estrada. Procurei uma cachaça para levar de presente e encontrei uma cachaça chamada “Ariana”. Fiquei empolgadíssima, mostrando a todos. Ela começou a fuçar a prateleira e gritou para o vendedor: tem cachaça Jusciney? Essa é minha amiga, original como uma Jujuba Verde.

meu nome é JOÃO VICTOR

Até tentei sair da inspiração da família, mas meu sobrinho me pediu para contar a história do nome dele e eu não resisto a um pedido daquele toco de gente. Ele é meu primeiro e único sobrinho, o amor de minha vida. Com sua imaginação de 3 anos, desenhando cobras chupando picolé, sendo tão positivo em suas posições sobre o mundo, convém dizer que foi ele quem escolheu o próprio nome.
Minha irmã estava grávida, naquele período gostoso de escolha do nome perfeito para o filho, a gente foi dando pitacos de todo jeito. Só me lembro de que João Victor poderia ter se chamado Vinícius, como o Moraes, ou Guilherme, como o Arantes. Também deliramos em nomes exóticos tipo Branderley Cláudio – desconfio que ele não gostaria de ter esse nome...
Numa manhã, minha irmã acorda dizendo que sonhou com um nome e meu cunhado completou dizendo também pensou em um. Falaram quase ao mesmo tempo: João Victor. A gente desconfia que ele tenha soprado na orelha dos pais a pista desse nome que virou sinônimo de amor pra gente.
Antes ele falava que se chamava Dom Ditor, daí o apelido de Dom. Hoje ele já acerta falar o nome completo, João Victor Magalhães Botelho (Aguiar). O parêntese é de um sobrenome que não está em seu registro, mas ele diz que é dele.
Nome normal, nada complexo, a cara dele. Veio quebrando as regras criativas e impondo seu ponto de vista. O nome combina em tudo com ele e a gente confirma com frase dele: temos certeza “ablesoluta”.

28 de outubro de 2009

meu nome é ATENINHA

Contei as histórias de meu nome, da minha mãe e da minha irmã. Para fechar esse núcleo familiar feminino falta minha cachorrinha. Famosa que só, ela é conhecida em todos os lugares pelos quais passamos, mas ninguém pega o nome dela de primeira. Ela é Anteninha, Atena, Teninha, nunca Ateninha. Mal de família.
Ganhei esse totó poucos dias após o falecimento de meu pai pra me “distrair”, foi o que Bruno falou quando me deu. E a bichinha cumpriu com seu propósito, ou melhor, cumpre até hoje.
Pense que para escolher um nome a gente precisa de inspiração. Não é de repente que você olha para um cachorro e diz que o nome dele será X ou Y. Se bem que a quantidade de cães chamados Xuxa, Sacha, Maya, Raj, são de supor que foram soluços e não escolhas.
Fiquei uns dois dias no dilema de fazer com que aquele ser vivo continuasse vivo – não suportaria outra perda – e, lógico, escolher um nome que carregaria por toda a sua vida de cachorro.
Tentei vários até chegar a Ateninha – diminutivo de Atena, minha outra cadela que já desencarnara há tempos. Ela tinha cara mesmo de Ateninha, tão pequenina e sapeca que merecia um nome gostosinho como ela. Além disso, estava num período de tristeza, com pouca criatividade. Justificativas tolas, por que o nome combina em tudo com essa sapeca marrom e branca.
Quando perguntam a raça de Toca (seu nick), minha mãe se empomba pra dizer “SRD”. Quem não manja nada de cachorro faz aquele conhecido “ah...”. A pergunta seguinte é óbvia: “qual o nome dela?”. Falamos “A-te-ni-nha”, pausadamente para entenderem e surge outro “ah...”. No fim dão tchau para “o cachorrinho”, sem entender nada do nosso orgulho de ter um vira-lata tão fofo sob nossa guarda e com nome quase indizível.

25 de outubro de 2009

meu nome é SAIENE

Minha família, minha inspiração. Desde criança que escuto as histórias de como os avós de minha vó tinham nomes tão normais como Rodrigo e Clara e seus descendentes resolveram inovar nos cartórios, registrando Laurinda, Deusdinéia, Altair, Sigismundo, Sigisfredo ou Enéias. Anos depois, meus tios batizam seus filhos com nomes nada complexos a não ser por uma ou outra criação... Daí nasce o nome de minha irmã, Saiene.
Minha mãe estava grávida, sem saber o sexo da criança, escolheu Elga para ser o nome de minha irmãzinha. Meu pai não gostou muito e colocou na cabeça de minha mãe, e em minha boca de 6 anos, o perigo de chamarem a criancinha de égua.
Foi a conta para minha mãe não acertar falar o nome da menina e ter que, no hospital, catar algo criativo. Deve ter colocado a lista telefônica no colo, observado as identificações das enfermeiras e médicos, caçado na memória todos os amigos de infância, até que resolveu colocar os nomes dos tios de trás pra frente. Saiu Adnirual, Aienidsued, Riatla, Odnumsigis, Oderfsi... e Saiene (!). Foi.
Minha irmã sempre quis se chamar Patrícia. Todas as brincadeiras ela era Patrícia. Sem chance. Saiene virou Sai, Sassai, Dona Sai, Tia Sai, e, se fosse ela, ergueria as mãos para o céu por seu nome não ser uma variação parecida com Oded. Viva a criatividade!

23 de outubro de 2009

meu nome é ALTAIR

É uma benção ter tantos amigos que compartilham comigo certo desconforto com o fato de ter que explicar durante toda a vida a mesma coisa (vide posts). Apesar de ter me inspirado para esse blog em Maurinézia Henriqueta (história para futuro), resolvi começar por mim e continuar na família – acho que, por enquanto, é mais seguro.
O nome agora é Altair, só que não é meu pai, é minha mãe. Lá se vai mais um batismo escolhido pelo chefe da família de gosto duvidoso.
Sempre penso que carregar um nome é uma responsabilidade imensa e meio que define nossa personalidade. Minha mãe é forte e decidida, tudo a ver com o fato de ter que justificar sempre que não é “o” Altair, mas muito mulher.
Um dia um cliente do supermercado que trabalhava entrou na sala procurando “senhor Altair”. Ela levantou-se e se apresentou: pois não, Altair sou eu. O infeliz comenta: a senhora é o senhor Altair?! Minha mãe prontamente respondeu que já é difícil carregar esse conflito e ele ainda piora, mesmo sendo testemunha ocular do feminino nela. Não dá pra ter paciência o tempo todo...
Como meu avô chegou a esse nome? Não sei bem. Fui perguntar pra ela, mas o Globo Repórter deve estar chato demais que a fez dormir. Pode ter a ver com o nome de minha avó, Altamira (é, é mal de família...). Pode ter sido uma inspiração astronômica: Altair é o nome de uma estrela, a mais brilhante da constelação de Áquila, oito vezes mais luminosa que o sol. Bem, não importa como nunca importa quando a gente ama muito.

18 de outubro de 2009

meu nome é ARIANA

Todo mundo que conheço me pergunta: "por que seu nome é Ariana?". Antes mesmo que responda, já emendam: "você é de áries?"; respondo: 'não, sou de libra'. Normalmente isso mata a conversa. Mas têm aqueles que acham que pegaram o gancho para altos papos e dão continuidade a investigação.
Sem precisar de ferramentas de pesquisa muito elaboradas, tenho certeza de que essa é a rotina dos que foram registrados, batizados e abençoados com nomes, digamos, pouco comuns para o contexto. Começo logo por mim pra você compreender por que resolvi criar esse blog - um presente nas vésperas de meu aniversário, por ter que responder essa pergunta já faz 38 anos.
Ariana foi ideia de meu pai ao me ver no berçário, primeira filha, branca como a neve, com olhos azuis como o céu - a perfeição, a raça pura, a 'ariana' da vida dele. Claro que ele não era simpatizante do nazismo, só gostava de ler sobre a história do mundo. Só que ficou chato no dia que, em um curso de memorização, tive que associar meu nome a algo fácil de recordar. Chutei: nazismo+acm = Ariana Magalhães. Todo mundo lembra até hoje; muito constrangedor.
Inventei outras explicações, adequadas a meu estilo politicamente correto: meu pai amava uma ariana (minha mãe é de áries); "Ariana" é nome de uma antiga casta indiana (explicação boa para a época de "Caminho das Índias"); "Ari" era meu padrinho e "Ana" minha tia (só q essa é meio mentira); "Ariana, a mulher" é uma bela poesia Vinícius de Moaraes (essa eu adoro).
Enfim, gosto de meu nome. Marcou minha vida, meu jeito de ser na contra-mão. Já habituada de ter que me aproximar e dizer: é Arianaaaaaaaa, sem o 'd', por favor.