25 de dezembro de 2009

meu nome é EDMUNDO

Para completar a lenda de minha família, estava faltando falar sobre o nome de meu pai. A ideia deve ter partido de meu avô ou meu bisavô de batizar a criança loirinha de Edmundo, referência a Edmond Dantes, personagem do livro de Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo. Entre Jequié e a Paris existe um óbvio abismo sociocultural; ainda bem que para a imaginação provocada na literatura não há separação. Sei é que meu pai nasceu Edmundo, forte e sério como o nome.
Falar dele desperta em mim várias emoções. Meu pai já não está aqui há mais de 8 anos. Perdê-lo foi a combinação de sentimentos mais estranha que já tive, criadora de uma ferida que toda vez que é tocada me destrói um pouco. Deve ser a coragem de me assumir triste no Natal que me fez ter vontade de escrever sobre seu nome.
Edmundo Magalhães, nome e sobrenome que forjaram meu caminho, minha personalidade. Tudo nesse nome me lembra um homem com voz de trovão, de olhar astuto, humor cáustico, dono de inteligência adquirida na vida e não em cadeira acadêmica. Meu pai fez até a 3ª série do ensino fundamental, mas tinha o português mais correto e a letra mais linda que já vi.
Conta a lenda da família que ele, aos 16 anos, saiu de casa e ganhou o mundo, deixando Zéza (a tia) cega instantaneamente quando o viu entrar pela porta, após anos, homem feito que pensavam todos estar morto.
Meu pai perdeu a mãe aos 4 anos e o pai aos 50. Era criança briguenta e feroz, cresceu orgulhoso, soberbo e machista, envelheceu com todas essas características pulsando nas veias, mas com mais sutileza.
Em mim, marcada por seus genes, está impresso o seu olho e olhar, a austeridade no trabalho, o gosto pela política no desejo por um mundo melhor, a preferência por estar sozinha perdida em meus pensamentos. Vai ser difícil olhar no espelho hoje.

(...)
Eh! Vida boa vai no tempo vai
Ai mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar

Espelho (João Nogueira / Diogo Nogueira)

12 de dezembro de 2009

meu nome é WALDISNEY

Essa pérola veio por e-mail, de minha prima Tina. Acho que a história começa assim: um assistente de enfermagem, chamando os pacientes para exames, procura por Waldisney que não se apresenta. E ele insiste a cada chamada e nada de Waldisney. Quando a sala estava quase vazia, percebe uma mulher e uma criança sentadas. Olha para a lista e vê que apenas o Waldisney não se apresentou nos chamados. Vira então para a mulher e pergunta se o menino é o Waldisney e ela se levanta, com cabeça erguida, em atitude de orgulho: você chamou errado. O nome dele não é /valdisnei/, é /uau disnei/.
É uma história parecida com Letísgo (Lets Go) e confirma como nós brasileiros somos criativos e influenciáveis pelos estrangeirismos na escolha dos nomes de nossos filhotes. O Dionatan que o diga. Lembrei de minha mãe falando dos filmes com /jérri lévis/, assistidos no cinema de Poções em sua adolescência e eu nunca identificava esse ator nos meus conhecimentos de metida-a-cinéfila, até zapear um canal com filmes antigos e ela dizer: olha o /jérri lévis/! Era Jerry Lewis.
Pronúncia, escrita, tudo uma mistura só na cabeça do povo. Dureza são os Istarlone da vida. No interior de Ju, minha amiga Jusciney, moram parentes dos Kennedy – pelo menos no registro. Em Teixeira tem uma prima de Ayrton Senna – não comprovado o laço sanguíneo. E em Poções, as inspirações do cinema americano emprestaram nome para John Wayne N. dos Santos, meu ex-cunhado, que a gente chama de Vane pra facilitar o processo. Só famoso.

11 de dezembro de 2009

meu nome é DIONATAN

Eu e minhas descobertas no Extremo Sul da Bahia. Eis que aqui me aparece um rapaz chamado Dionatan. E a pronúncia é americana mesmo, como Jhonatan. Depois de ficar parada, olhando para ele e para o crachá, com cara de quem descobre mais uma pérola do cartório de registros, lembrei do nome de meu amigo Jonatan que pronuncia Dionatan e começou a comichão para escrever sobre isso antes da rotina embaçar minha memória.
Em cócegas com essa descoberta fui fuçar o significado de Jhonatan. Achei num site que a origem do nome é inglesa, uma variante de Jônatas. A pessoa batizada com esse nome gosta de manter-se em igualdade com qualquer pessoa numa disputa. É uma pessoa de mente aberta (meu amigo é) e não gosta de ficar parado em função da agilidade mental e física (bem, o cara é baiano). Gosta de ler, viajar, estudar e “possui uma paixão invejável pela vida”.
Nem tudo são flores. O site fala também que os registrados com esse nome não tem muita diplomacia quando querem falar verdades. Esse não é o caso de meu amigo Jonatan. Ele é um gentleman, um lord no tratamento com as pessoas. Pensando bem, ele me chamou de baleia uma vez... Enfim, isso eu me acerto com ele depois.
O fato é que tudo isso acabou resolvendo um problema insolúvel até o momento. Chamo Jonatan por um apelido que é a cara dele, mas não decido nunca qual é a escrita: Jhonny, Jhonie, Jony, Jhony, Jhonniye, vixe, uma complicação!
Agora resolvi tudo. Posso abrasileirar o apelido e passar a chamá-lo simplesmente de Dione - não Diône. Escrever como pronuncia não tem tanto charme; tira o direito de meu amigo do glamour do estrangeirismo no nick, mas facilita muito minha vida. Estou só imaginando o comentário dele tipo “meu nome não é Dione”.

8 de dezembro de 2009

meu nome é BEDECILDA

Será que nome de mãe quando é complexo deixa marcas nos filhos? Será que isso pode ser um primeiro contato criativo com o mundo? A filha de D. Bedecilda pode ter se inspirado na mãe para se tornar o que é (e se for em 2004). Na minha concepção, uma das maiores poetas que já li, e olha que foi batizada com nome comum, apesar de ser totalmente única: Hilda (Hilst).

"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.

Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."

6 de dezembro de 2009

meu nome é DULCINÉIA

E Cervantes, na Espanha, cria Dom Quixote. E Dom Quixote conhece sua musa chamada Dulcinéia. E meu avô registra em Rubim - MG minha tia de olhos de gato com esse doce nome. Assim conto porque não sei dizer de onde veio a inspiração desse batismo.
Nunca li Dom Quixote de La Mancha, mas gosto das imagens que retratam ele e Sancho Pança. Também gosto do adjetivo quixotismo: “pessoa que vive em histórias fantasiosas de romances e fazem da vida uma verdadeira novela” Essa é minha tia. As histórias fantasiosas de minha tia enchem qualquer Blog. Aqueles olhos verdes e espertos, de quem vai aprontar uma a qualquer momento, deixam a gente em estado de alerta.
Cresci não só ouvindo as histórias sobre o que aprontou na infância, como sofri na pele suas travessuras. Tinha um senhor que fazia o transporte escolar, Seu Rufino, e quando chegava a hora dele me buscar rezava para minha tia não estar por perto. Ela gritava: Ariana, seu namorado chegou! Queria cair dura, mortinha. Ao mesmo tempo tinha as casas de boneca que montava pra mim, com caixas vazias de sabonete e de pasta de dente; as mais lindas que já tive.
Estou aqui selecionando na memória a melhor história dela para contar, mas não dá, todas são demais. Tia Néa já pintou as unhas de meus tios de vermelho enquanto dormiam para perturbar uma caçada, ameaçou mostrar a calçola furada de minha vó para uma visita, gritou na igreja denunciando o beliscão que minha vó lhe deu após alguma traquinagem, imitou uma gaga no telefone durante semanas quase deixando D. Matilde doida. Essa é minha tia Xane, onde ela está não tem tristeza, só sorriso e de dar dor na barriga.