28 de março de 2012

meu nome é MILLÔR

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Millôr nasceu Milton, o problema foi a caligrafia rebuscada do escrivão do cartório. O dito cujo desenhou tanto o nome do menino que, onde deveria estar um "ton", lia-se "lôr". No dia seguinte do registro, a família já tinha esquecido que o nome escolhido para o rebento era Milton e já o chamavam com intimidade de Millôr.
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"Com a internet, cada um tem seu blog, e quando há um volume muito grande de gente praticando tudo se abastarda.
Quando se deliberou que não haveria mais métrica e rima na poesia, toda senhora de cinquenta anos começou a fazer poesia."


Concordo plenamente com Millôr. A internet democratizou a escrita, a expressão, de um jeito que nenhum movimento político jamais conseguiu resultado nem semelhante. Hoje a gente escreve para milhões, todas as besteiras que vêm a cabeça, com erros de concordância, de gramática mesmo, de maneira pretensiosa como se fosse obra de arte comerciável ou só de farra. A comunicação e expressão não precisa de diploma mais. Houve perdas e ganhos.
A maior das perdas de hoje foi mesmo sua partida para outras esferas. A morte de um pensador é a pior coisa que pode acontecer nesse mundo e no Brasil então nem se fala. Morre junto com Millôr ideias que alavancam o senso crítico, que incitam novos pensamentos, que concretizam revoluções mesmo interiores. Ficou a saudade da família, a reverência pública de alguns e minha nostalgia relendo suas frases desenhadas com minha letra adolescente em velhos cadernos.
Cresci sendo alimentada por pensadores, nos livros, revistas e discursos lá em casa. Na prateleira, sempre me encantou as enciclopédia e os dicionários. Encadernações pomposas onde eu podia ter acesso a todas as informações do mundo - papel da www hoje. Na mesinha de canto eram os livros, emprestados, esquecidos, lidos, relidos, ainda hoje tenho esse hábito. "Zen e a arte da manutenção de motocicletas" está lá, junto com "Senzala" que Soares me emprestou e "É sustentabilidade sustentável?" que possui uma linda dedicatória do autor para mim (sobre ele, só um outro post).
Os discursos eram políticos, basicamente de meu pai conversando com amigos ou meus tios. Sobre a alma humana quem sempre falou foi minha mãe, relatando histórias de família e do dia-a-dia. Com meus pais aprendi palavras lindas: liberdade, atitude, justiça, amor, ajuda, certeza, ética, firmeza, caráter. Me enxergo aprendendo ainda, dada a mão a minha irmã, só que agora não tem mais meu pai, a figura masculina é João Victor, meu sobrinho com seu sábio olhar dos 5 anos.
Sim, e haviam revistas, e nelas havia Millôr, Henfil, Diretas Já, movimentos sindicais no ABC paulista, a Cuba socialista, isso tudo na cabeça de uma garota de 11 ou 12 anos era demais. Definitivamente marcante. Por isso esse post é importantíssimo para mim. É um resgate da menina que aprendeu a ver a vida por meio das opiniões de pessoas como Millôr, desencarnado hoje. Podem encarar como minha homenagem ao ídolo de infância. Alguns tiveram Xuxa, eu tive Millôr Fernandes:

Millôr (1924-2012)

26 de março de 2012

meu nome é MENTIRA

Para inaugurar o novo layout do bloguinho, a peça "meu nome é mentira", de Luiz Mafuz - desde os tempos de faculdade uma referência no teatro baiano:


Coincidência ou não, seu título é igual a todos os nossos títulos, então, por isso também, merece ser conferida. Para quem está perto do teatro, o que não é meu caso... meu nome é mentira...

14 de março de 2012

meu nome é RISONILDO

Chorar de tanto rir sempre foi a coisa que mais gostei de fazer na vida, e tendo a família e os amigos que tenho, é também a mais provável acontecer. Começa tudo por uma frase ou uma diálogo truncado. Não é a toa que adoro os "kkk" e os "rs" para finalizar frases virtuais no FB ou nos e-mails particulares (claro). Imaginem eu mandando um e-mail bem formal, documentando um compromisso qualquer, escrevendo: Cordialmente...kkk... No mínimo vão desconfiar que caí desmaiada no teclado com o dedo em cima da tecla "k".
Hoje tive dois diálogos onde chorei de rir, e muito! Um deles contando para minha irmã a saga com o ortopedista; o outro foi uma conversa "inbox" a oito mãos com amigas no Facebook. Ri tanto que agora não consigo relaxar para dormir. Confere: o riso é fonte de adrenalina mesmo.
As histórias deste bloguinho, contadas com o máximo de humor possível, dificilmente arrancariam gargalhadas como as compartilhadas hoje. Não sou boa assim na redação. Agora, tem um sentimento que faz as histórias parecerem bem mais legais do que são de verdade que tem um nominho porreta: cumplicidade. Você só ri de chorar com quem lhe é querido, já percebeu? Se não, qual graça tem?
Talvez já tenhamos, eu e você leitor, cumplicidade bastante para ler alguma dessas minhas viagens e rir, mas de chorar não creio... Rir de chorar é ato de extroversão máxima; compartilhar isso com outras pessoas é ato de entrega.  Pode ser histeria também - nunca devemos descartar um provável diagnóstico psiquiátrico. Para ter certeza em que critério o curioso leitor está enquadrado, faça um teste: depois de rir muito até chorar pare de repente. Se continuar rindo, provavelmente é patológico, mas se engolir o riso e chorar sem parar é só felicidade armazenada...rs
Para homenagear nossas gargalhadas, joguei o nome Risonildo no FB, encontrei até dois parentes: além de Risonildo, Magalhães...kkkkk

10 de março de 2012

meu nome é SELMA

E o da filha é Amles. Ai, os contrários! Há mães criativas por toda parte... A minha mãe homenageou meu tio Enéias e por conseguinte minha irmãzinha é Saiene. Tem a Airam por causa da vó Maria. Tem o Oded que acho que não perceberam ser dedo ao contrário. Os contrários se combinam mesmo? Então minha próxima viagem é para Roma, quem sabe lá encontro o Amor...

8 de março de 2012

meu nome é MARIA DA PENHA


ABAIXO A OMISSÃO!

A Lei 11.340 é uma das conquistas mais emocionantes da luta da mulher brasileira por... respeito? Imagine, essa lei só foi sancionada após a tecnologia levar o homem a lua, levar a informação para todos via WWW, levar a conectividade 100% por meio dos celulares. A ciência deu saltos imensos nos últimos 50 anos antes dessa lei ser sancionada; descobriu o controle para o vírus HIV, deu esperança a pessoas com câncer, promoveu inseminação artificial e mudanças genéticas só imaginadas em livros de ficção científica. A lei foi sancionada depois da queda do muro de Berlim, da eleição de um ex-operário para presidência da república. Os avanços acontecem em todas as frentes, porém, socialmente somos tão infantes...
Ouvi hoje no jornal que agora os índices de denúncia estão aumentando, sinal de que as mulheres estão perdendo o medo. Sim, a mulher ainda vive com medo de sofrer violência doméstica dentro de sua própria casa, por companheiros encolerizados.
Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Que tal vestir sua roupa preferida, usar seus perfume preferido, sentar em seu cantinho preferido da casa e ler/ouvir/assistir algo que lhe motive a ser ativa na mudança do mundo? Minha dica: Lei Maria da Penha


3 de março de 2012

meu nome é TEMPO

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...


A novela das 6 reprisou o último capítulo hoje; rendo-me a pauta levantada por ela, o Tempo. A novelinha em horário despretensioso serviu para mim como terapia. Chegava em casa, com as situações de trabalho rodando na cabeça, sentava em frente a TV e alienava com prazer. Os diálogos foram razão principal de minha atração. Nem gosto tanto de novela, na maioria cheia de clichês e terrorismo. As pessoas más são homicidas ou loucas, as boas são cândidas e angelicais, coisa irritante para mim, sempre com o Yin Yang na cabeça. Pois bem, mesmo que ela não tenha se livrado 100% dos clichês , afinal é novela, afinal é Globo, serviu para mim como válvula de escape nesses meses que acompanhei.
Foi encantador acompanhar cada frase de D. Iná (Nicete Bruno), cada argumentação neurótica de Eva (Ana Beatriz Nogueira), cada lição do Prof. Lourenço (Leonardo Medeiros), a doce loucura de Nanda (Maria Eduarda). O enredo da novela era insignificante, só me interessava o que era dito sobre as relações humanas, suas nuances. Nem sempre assisti os capítulos desde o início, ou assisti a novela todos os dias da semana, mas quando perdia alguma parte fazia muita diferença na minha noite, não pelo fato de ter perdido parte de uma história, mas pelo fato de ter perdido a chance de refletir um pouco mais sobre o sentido do Tempo na vida da gente sob a ótica dos personagens.
Registro logo que, por puro ciúme, não gostei da versão de Maria Gadú da música "Oração ao Tempo" de Caetano. Amo a versão original e a cantada por Maria Bethânia; enfim, não deu pra me emocionar. E foi o Tempo o enredo que acompanhei na novelinha, sem pressa, o dono de minha vida, a força que reverencio e admiro observando seu efeito no desenvolvimento de meu sobrinho desde quando saiu da barriga - e eu vi isso acontecer. O Tempo que está riscando meu rosto com suas marcas foi o personagem principal no final da história, como sempre será, e por esse efeito definitivo em mim, devoto a ele meu respeito e total redenção.
Não vou conseguir reproduzir os diálogos, nunca me interessei em pegar uma caneta e escrevê-los, apesar de hoje me arrepender de não tê-lo feito. De uma passagem lembro bem, quando Nanda fala para Manu que ela sente falta do namorado que morreu prematuramente, sente vontade de "se exibir" e mostrar para ele"como cresceu", mas ele não está mais lá, culpa do Tempo. Outra passagem foi a aula de Lourenço sobre Heráclito de Éfeso, onde se lia num quadro ao fundo "panta rei" ou "tudo flui". Esse filósofo sustentava que nada podia permanecer estático, tudo é devir, todas as coisas estão sujeitas ao tempo e se transformam numa luta de forças opostas. Tempo, culpado ou inocente?
No momento da fala de Nanda, meu pai estava em minha cabeça. Como eu gostaria de me exibir para ele, mostrando que consegui coisas importantes, consegui me manter no jogo da vida até agora de cabeça erguida, mas não há Tempo... O momento da fala de Lourenço, percebi claramente como panta rei é tudo o que acredito. A mudança que quero ver no outro, torna-se guerra em mim, luto, destruo, reconstruo e sigo, há Tempo para isso... ainda....
No final foi apenas uma novela, um enredo construído, interpretações de artistas conhecidos com um forte conteúdo que poderia ter pautado muitas matérias legais. Isso não aconteceu, pena. Mais interessante para o grande público de novela parece ser a doentia relação de duas mulheres se engalfinhando na novela das 9; do marido que bate na esposa; da eterna briga de poder e sedução. Perdão, com isso não perco meu Tempo.