27 de junho de 2012

meu nome é PARIS

Quem já realizou algum sonho, sonhado com muito afinco, vai entender esse texto, que pensando bem não é um texto que possa ser meramente lido, é um texto para ser experienciado. Por isso vou descrever uma situação e preciso de concentração do leitor para compartilhar comigo o que vivi nos últimos dias. Vamos ao exercício? Primeiro espero que esteja vestido de forma confortável. Imagine que está num lugar aconchegante, sentado numa cadeira com forro de linho listrado, olhando para frente, flores frescas e coloridas compondo livremente o ambiente. Também preciso que tenha uma caneca com algo gostoso ao seu lado. Prefiro chá de limão. O cheiro no ar é bem agradável, leve, um pouco doce. Há música, essa que compartilhei aí. Se puder colocá-la enquanto lê o texto, entrará mais na viagem. O volume sempre baixo, ou em fones, aí o volume bem alto. Ao lado sempre haverá uma companhia, de um amante ou de um cachorro ou de um livro ou de alguns amigos. Você está na platéia de um café parisiense. Passa a frente uma moto vespa preta com motorista sério. Uma senhora com cabelos brancos brilhantes e um grande lenço vermelho no pescoço caminha no passeio com muita classe. Um turista chinês, aliás dez turistas chineses sorriem, meio histéricos, e tiram foto da placa do estacionamento, acelerando o passo para o próximo clic. Uma jovem, usando um vestido de "lurex" preto e azul, com meia calça de renda, uma charmosa boina e uma bolsa grande transpassada, atravessa a rua. E é dia, às oito horas da "tarde". Desfilam outros atores: um muçulmano e uma indiana; a mãe que, para não perder o filho, o mantém refém em um carrinho de bebê, mesmo que seu tamanho não mais comporte esse mimo; um padre de batina longa. Pedestres enfim passam, você olha, eles lhe olham. Você vê um grupo, turistas claro, mas não são orientais. Vestem-se com roupa mais colorida, descombinada; têm sacolas de loja de perfume e souvenir nas mãos. Alguém lhe olha. São olhos curiosos, ávidos. Está acostumado a ver e ser visto, mas esses olhos... São olhos de fome. Não fome de comida. Fome de outra coisa que ainda não sabe identificar. Os olhos estão caminhando, olham para o outro lado da pista agora - um carro de polícia passa perto; olha para cima - a rua tem mesmo prédios muito bonitos e antigos; olha para onde alcança a vista na rua em perspectiva - essa paisagem também lhe surpreende sempre. O olhar ansioso não está mais em você. Pena. Queria saber o que ficou de você nesses olhos... De repente não pensa mais nisso, apenas ouve a música, sente o odor agradável, sorve o líquido e começa a brincar também de olhar. O Sena, a Torre, a Ponte. Tudo está ali como deveria estar, para sempre.