27 de dezembro de 2013

meu nome é KARINA (ALADA) BUHR

Depois que desliguei, só queria andar, andar por aí, sem rumo, sem destino. Só queria ir embora daquele vazio imenso. Da solidão que era não ter mais a esperança de tê-lo um dia pra mim. Andando, por motivo de força maior. Eu queria muito ir embora dali. A calçada era crespa, ríspida, crassa. Acelerei o passo para ver se esquecia mais rápido. Corri para ser mais rápido ainda. Tropecei. Caí. Me ralei toda. Me perdi toda na bolsa derramada. Será que bati a cabeça? Acho que perdi a memória. Já tinha me cortado e estava na calçada sem fazer ideia. Levantei por que não tinha jeito. Meio tonta, meio zonza. Sacudi a poeira da roupa. Não me lembrava direito por que corria tanto. Louca, pensei, um dia me machuco de verdade. Andei manca umas duas quadras, ainda inquieta com a memória gaga. Em flashes veio uma história colorida em sépia: ele, eu, nós, ele só, eu só, ele indo, eu ficando, nós nunca mais. Uma música insistente. Deu vontade de dançar. Uma pessoa passou apressada. Outra passou mais apressada. Percebi agora o grande movimento na calçada. Vou dançar assim mesmo, resolvi. Enquanto eu dançava, tinha um desenho do chão que corria. Bati forte a cabeça mesmo, mas não lembro do momento, pensei. E continuei dançando a música dentro de mim. Tudo de acontecer acontecia. As pessoas passavam e não me olhavam. Dançava por dentro. Dancei toda a música, sozinha, acompanhada. Com ele, dancei no bailinho dos 15, atrás do trio, no maracatu, na banda de ipanema, na praça de cuba, no caminito, no meio do coliseu, na rua da mangueira, no café cancun, na praia do espelho. Cansei. Sentei. E na calçada eu sentada vivia. E revivia. Sem fazer ideia. Como fui parar ali? Memória oca. Onde me cortei assim? Porque esse cansaço todo? Melhor voltar pra casa, começou a chover. Como vou fazer para não me molhar? Ai! Coceirinha nas costas. Preciso de uma quina. Toda vez que fazia essas observações bobas lembrava dele falando: E a falta de imaginação me fez lembrar de você. Ele. Foi por ele que caí. Por ele me cortei. Por ele dancei. Por ele. Lembrei. Está anoitecendo. De tarde, se anoitecer, tudo se acaba. Vou levantar daqui logo. Ai! A coceirinha continua... O que é isso? Asas? Ótimo! Agora é que vou me molhar pra valer! E aí crio asas. E aí elas querem voar. Já imagino pra onde vão querer me levar, essas asas enormes e lindas! Aqui é assim. Nesse papel virtual. O que a gente inventa a gente tem. E aí crio asas e aí elas querem voar.

25 de dezembro de 2013

meu nome é BOAS FESTAS

Minha árvore de Natal
É um galho seco no quintal
Fincado no meio do matagal
Da saudade que não tem final

Tem amigo pendurado
Cachorro, coelho e gato
Tem coração pra todo lado
Pisca-pisca de riscado

Vou começar pendurando os parentes
Depois os amigos carentes
Em seguida com os colegas aderentes
Findo com os conhecidos decorrentes

Vai ser lindo de ver o povo lá do Sudoeste e do Extremo Sul da Bahia
Do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste
Do Sul e do Sudeste e de Salvador
O meu graveto explodindo em magia

Do Peru (Martin), da Colômbia (Ana Maria)
Do Canadá (Lucas), da Espanha (Cleide e Tetê)
Dos Estados Unidos (Nêska, Chris e Tia Dulce)
Da Tailândia ou Portugal (onde o tuga estiver)

O mundo não segura a saudade
Desconfio que ele não tem braço por isso

http://youtu.be/AbwDjnWEDM4

meu nome é CLARICE FALCÃO

Para os leitores do bloguito que gostam de música como eu, ofereço, imersa de Clarice Falcão no dia de Natal, como um presente, a meiguice da voz dessa cantora dos olhos grandes e letras irreverentes, apresentada por minha mãe para mim. Essa é a trilha sonora que rola por aqui no meu canto de mundo:


 
Viva a música brasileiramente linda!
 

4 de dezembro de 2013

meu nome é SANTA BÁRBARA

A menina dos cabelos anelados olhava para a TV, hipnotizada com as comemorações do Dia de Santa Bárbara. A mãe passava por perto na hora, tentando escutar algo, mas só havia o barulho da TV. Qualquer coisa poderia sair daquela cabecinha. A menina de olhos grandes sempre tinha algo inesperado a dizer. Essa foi a confissão da mãe há alguns dias, não sabia mesmo como se comportar com aquela criança e suas colocações. Era uma mãe nova e a menina dos cabelos anelados não dava trégua na curiosidade e nas filosofias. Naquele quatro de dezembro, os olhos melancólicos dela continuaram na TV, enquanto a procissão passava. As bonecas espalhadas pelo chão perderam a graça, enquanto a imagem da Santa desfilava entre os fiés. A mãe não se lembra da narração do repórter, mas se lembra da frase que saiu da boquinha de três anos da filha: "Santa Bába, azudai pala o mundo ser feliz." E assim voltou a brincar, por que parecia que no fundo sabia que o mundo que a esperava adulta precisaria de muita ajuda e trabalho árduo. Aquele era o momento de ser criança e pedir ajuda aos mais velhos. Iansã entendeu o recado.

3 de dezembro de 2013

meu nome é CORINA

Certa vez tive a confirmação de que anjo existe. Havia uma senhora que sempre perambulava perto do meu colégio, ninguém chegava perto com medo dela fazer alguma coisa - a gente não sabia bem o quê, mas dava medo. Medo por que era velha. Seus cabelos brancos viviam despenteados. As roupas eram descombinadas, surradas pelo tempo. Vivia puxando conversa com quem encontrava, matando a solidão antes que ela a matasse. A gente não achava isso. Observava de longe e rotulava: sandices de gente que não tem o que fazer. Eu tinha 17, ela devia ter mais de 80. Mesmo assim conseguiu sentar no meio-fio, ao meu lado, e desfiar uma longa e lúcida história sobre sua vida, seus sonhos, amigos, amores, distraindo minhas tristezas adolescentes. Foi o mais marcante dos intervalos do colégio. Ganhou até do dia do beijo roubado. É que sempre fui romântica, mas a paixão pela humanidade sempre se impõe no final das contas.

27 de novembro de 2013

meu nome é TARSILA

Pacto cruel o de trancafiar o coração no pote de farinha. Tarsila pensou que assim seria mais fácil. Estaria guardado, protegido no fundo do armário. Chegou a esquecer por um tempo que ele estava lá. Deu atenção para o estômago, o fígado, os pés, mas o coração, endureceu no pote de farinha depois da terceira decepção. Ela sabia que não aguentaria uma outra, não criara anticorpos contra a dor. Preferiu ocultar no farelo a sede da alma. Ele não emergiu. Sufocou. Ressecou. Tarsila matou seu coração. Seco e duro, ele não batia. Sem coração, ela não vivia. Foi uma morte atrás da outra. Na intenção de proteger-se, Tarsila deu cabo ao órgão vital. O estômago continuou, fígado continuou, os pés continuaram. Tarsila secou em vida muitos anos de seu tempo. Até o dia em que o armário despencou.

*Dizem que no momento ela ouvia: Quem sabe (Los Hermanos) ou Amor (Secos e Molhados).

24 de novembro de 2013

meu nome é PISCA-PISCA

Então é (quase) Natal. Fonte: Google
Entrei no quarto, vejo uma luz indecisa refletida no armário. Por um momento a ideia de estar presenciando algo fantástico chegou a me ocorrer, um segundo depois destruída pelo reflexo do pisca-pisca de Natal da varanda do quinto andar.
A nostalgia dos pisca-piscas... Esse ano está me afetando bem menos. Não me aborreci tanto com os enfeites da rua, ou com o reflexo no quarto. Os anos anteriores foram maçantes com ornamentos bem mais singelos. Será por quê?
A saudade tem diminuído no peito, apesar da distância ter permanecido. Efeitos da maturidade, quem sabe, essa dona que vivo procurando alguém que me apresente oficialmente. Parece que quando a gente conhece a dita cuja, o mundo torna-se um local enfim para se morar. Não digo viver, resisto em pensar que isso é outra coisa.
A ansiedade também está menor. Para isso tenho explicação. Venho fazendo meditação guiada. Na internet. Não tenho tempo para muita coisa. Simplesmente me acomodo, procuro um assunto no YouTube e viajo. Essa é minha nova maneira de despressurizar.
A piscina tem sido meu refúgio de final de semana. É reconfortante mergulhar naquela água cristalina, ficar sem compromisso, sentindo o mundo líquido me transportando para além das buscas. E há o sol, sua força na pele com pouca roupa. Remonta meu quebra-cabeça interior com franqueza.
As culpas, senhoras de tantas dores de cabeça, estão sob controle. Uso várias ferramentas: conversas francas; diários imensos; alimentação mais cuidadosa; evito excessos; medicação até; orações; colchão novo.
Os desafios do trabalho mantém meu raciocínio vivo. Viciada nisso. Atualmente com mais liberdade, prazer, altruísmo. Segurança e liberdade, o conflito de Bauman não me intimida.
Os fantasmas que piscam no Natal, neste ano, não me assustaram. Esperneei demais sobre o túmulo do que não me agradava perder. Passou. Agora é renovar os votos de companheirismo comigo mesma, acender um pisca-pisca e enfeitar minha árvore da felicidade. Merecemos um tempo de paz.

21 de novembro de 2013

meu nome é TRANSPARÊNCIA

Processual, complexo, longo e inquietante. Fonte: Google

Se a gente quer uma sociedade limpa, justa, é pleonasmo dizer que temos que botar a mão na lama? Pois bem, divido minhas experiências aqui de luta por um mundo melhor. Participei hoje de uma iniciativa muito bacana, gostaria de compartilhar neste bloguinho, chama-se "Jogos Limpos", projeto do Instituto Ethos para ampliar a transparência e o controle social sobre os investimentos públicos na Copa 2014 e Olimpíadas 2016.

Esse projeto é na verdade um grande exercício, uma espécie de teste, tanto para a gestão pública como para nós cidadãos. O exercício do ser transparente, do trabalho acessível, da informação clara, da acessibilidade para todos, do fim da vantagem.

Contudo - e sempre há um porém entre a intenção e o realizado quando se trata do universo sociopolítico - o que vi lá foram representantes públicos reativos, outros insípidos; cidadãos omissos; poucos movimentos sociais representados; alguns intelectuais de peso.

Vi que crescem as tecnologias de controle social no Brasil, maduras, inovadoras e criativas. Permanecem os discursos do governo, culpando o passivo, o governo anterior, a má gestão passada. Enfim, um cenário em desequilíbrio.

Há que ter paciência. Temos que conviver com esse desequilíbrio na balança, é um processo complexo, porém sem volta.

Para quem ficou interessado:

www.artigo19.org
A ARTIGO 19 trabalha para que todos e todas, em qualquer lugar, possam se expressar de forma livre, acessar informação e desfrutar de liberdade de imprensa.

https://www.facebook.com/transparencia.hacker#!/transparencia.hacker?fref=ts
Indivíduos dos mais diferentes perfis propoem e articulam ideias e projetos, utilizando tecnologias da informação para fins de interesse social.

http://www.jogoslimpos.org.br/transparencias/
O nível de transparência  da gestão pública municipal é hoje considerada "muito baixa" e a estadual tem nível "médio", lembrando que esses indicadores medem a realização dos megaeventos esportivos, contudo são indicadores de como há uma clara dificuldade cultural no poder público para lidar com a transparência.

http://www.cms.ba.gov.br/acesso_informacao.aspx
Portal da Câmara Municipal de Salvador na página da Ouvidoria, disponibiliza o SIC (Serviço de Informação ao Cidadão) e mantém comissão interna de implementação da Lei de Acesso à Informação (LAI).

meu nome é BAUTMAN


Bauman esperando meu abraço. Que doce! Meu Batman das palavras!
Sou tiete declarada de muita gente, pago micos incontáveis para estar perto de meus ídolos, alguns micos contados aqui nesse parque de diversão das palavras. Certo mesmo é que daria um tufo de cabelo para dar um abraço em Bauman. Esse sociólogo polonês me emociona a cada escrito, a cada construção de ideia, a cada introdução de livro... Dito isso, e para não perder minha necessidade de fazer desse espaço um confessionário, falo logo que nunca fui além da introdução dos livros dele. São muito densos! Me destroem! Fico dilacerada e impregnada com umas coisas que ele fala que levo horas, dias, meses digerindo o óbvio. A delícia da dor, alguém já experimentou? É cruel, mas necessária para libertação da alma.

Na introdução de “Tempos Líquidos”, ele fala do conflito dos dois únicos valores possíveis na atualidade: a segurança e a liberdade. E esses dois únicos valores existentes são conflitantes entre si. Por exemplo: se você quer morar em uma casa sem muros para ver a paisagem, você perde a segurança; se erguer altos muros perde a liberdade de ver a paisagem. Outro: se você estabelecer um compromisso pode perder a liberdade e ganhar segurança, se não estabelecer pode ser o contrário. O fato é que parece incompatível ter um e outro ao mesmo tempo e é essa a nossa busca, fonte de infinita ansiedade, de valores que andam paralelos porém nunca se cruzarão.

Olho para Bauman, o futuro dono do meu tufinho de cabelo, vejo quanto tempo ele levou para matutar uma ideia dessas, que até parece simples explicada do meu jeito senso comum, mas que fala tanto do que somos; ideia que pode provocar transformações sociais e pode inspirar ideias revolucionárias e alegres, um senhor que já era professor reconhecido no ano em que nasci, que merece tantos abraços.

Olho para ele e penso que sempre serei a revoltada contra as injustiças sociais. Nunca vou compreender, assim como Ariano Suassuna não compreendeu um jornalista que endeusou a Banda Calipso, como podemos endeusar a opinião de articulistas, cronistas, radialistas tão despreparados sem antes buscar raízes mais profundas do conhecimento humano para pautar nossas verdades. É mais fácil, eu sei. A busca é dolorosa, eu sei também – estou há dois meses na página vinte um de “Vidas Desperdiçadas”. Também sei que é preciso e é uma riqueza sem fim.

Acrescento que Bauman é uma opinião, há outras anteriores, contemporâneas, virão outras mais instigantes. Afinal essa é a dinâmica do mundo e assim somos nós, só não quero ficar na introdução.

18 de novembro de 2013

meu nome é TINDER

Testando, un, deux, trois... Foto: Google :}

Sempre flertei com as novas tecnologias. No caso deste texto, considere "novas" sinônimo de "do momento". Nasci no tempo da máquina de datilografia, mas vi nascer o Atari e o VHS, o toca-fitas auto reverse e o Betamax, o Macintosh e o iBook.

Muitas dessas tecnologias passaram apenas por meus olhos curiosos nas vitrines, mas outras foram mesmo testadas, como se fosse uma especialista, com direito a resenha para os amigos com ar de visionária:
- Considero o Beta com melhor qualidade de som e imagem, mas o futuro está no VHS – falou a garota de doze anos e franja cobrindo os óculos.

Assim prossegui com os softwares e recentemente, aderindo à moda dos “i”, estou fominha de “APPs”. Instalo e desinstalo, só de farra. O que estou testando recentemente chama-se Tinder, promessa para os corações solitários. Só um parêntese para explicar o uso, a ferramenta mapeia pretendentes a uma distância que você determina, basicamente pensando no esforço que fará para se deslocar por amor. Clique em um xis ou um coração e abra as portas da esperança.

No dia do teste, empolgação total, todas as mulheres saltitando para ver o que o radar captava e eis que aparece para mim um cara de óculos, cara de intelectual, livro embaixo do braço. Já gostei. Cliquei no coração. Ele me curtiu também. Opa! Abriu o chat. “Oi”. “Olá”. “Tudo bem?”. “Tudo legal”. “Bem, estou aprendendo a usar essa ferramenta, você já está aqui há muito tempo?”. “Eu não falar português. Você falar grego?”. “Ôxe, eu não.” Melhor checar a distância que coloquei.

Tentativa número dois. Vejo um, não agrada, xis nele. Outro, hum, também não gostei muito, xis. Desse gostei. “Meninas, olhem esse aqui, é interessante”. “Credo! Esse é o ex da colega da minha amiga que te contei o caso na semana passada! O que ele está fazendo aí? Descarado!”. “Aff! Esquece, encosto dos brabos."

Tentativa número três. O radar gira, gira, a expectativa aumenta, aparece na tela um homem... com uma galinha preta no colo. Socorro! Fim de linha pra mim.

Desinstalando o Tinder. Quem quiser tentar, boa sorte. Para mim essa ferramenta não tem futuro algum.

3 de novembro de 2013

meu nome é ENTREVISTA



Sim, imagem linda capturada do Google Imagens. Não, não sei quem é o autor.

Sim, sou uma contadora de histórias. Não, não sou uma blogueira. Sim, sou uma apaixonada por gente. Não, não estou apaixonada especialmente, ou talvez esteja mas tenha medo de admitir. Sim, amo o mar. Não, ultimamente não tenho ido a praia. Sim, meu mundo interior é tempestuoso. Não, ainda não sei se é isso que provoca minhas dores de cabeça. Sim, os olhos. Não, as mãos. Sim, estou ansiosa por 2014. Não, ainda não bati todas as metas do caderninho de 2013. Sim, sinto saudades de muita gente. Não, não gosto de telefone. Sim, hoje estou especialmente feliz por meu sobrinho ter andado de bicicleta sem rodinha. Não, ele caiu só uma vez. Sim, adoro acompanhar seus aprendizados. Não, não preciso ter filhos para provar o gosto de ser responsável por alguém. Sim, isso mesmo, cresci achando que sou responsável pelo mundo. Não, nunca consegui me afastar desse pensamento. Sim, meus trabalhos sempre tiveram essa vertente humanista. Não, não gosto de chuchu. Sim, gosto de rasgar papéis e limpar a mente. Não, o lixo não passou hoje. Sim, é azul minha cor preferida. Não, não gosto muito desse tipo de música. Sim, adoro poesia. Não, nem todas. Sim, esse cara me fez muito bem. Não, esse não está na lista de meus preferidos. Sim, a simplicidade é sempre mais amorosa. Não, continuo alérgica aos ácaros. Sim, prefiro os sapatos baixos. Não, nada contra os saltos. Sim, sinto-me bonita quando meu cabelo está "de bem" comigo. Não, ele às vezes não está. Sim, bichos fazem parte de minha vida. Não, estou sem nenhum no momento. Sim, verdade, um morcego tem visitado a cozinha. Não, não tenho mais esse medo. Sim, converso sozinha. Não, não acredito que estou só. Sim, tenho crenças e muita fé. Não, prefiro ler sobre temas introspectivos. Sim, Clarice está entre meus autores preferidos. Não, nada contra Paulo Coelho. Sim, ouço música frequentemente. Não, axé music só atrás do trio elétrico. Sim, nasci em Salvador. Não, não sou negra. Não, não sou parente de ACM. Não, não sei fazer acarajé. Sim, podemos mudar de assunto, por favor. Não, não tenho planos de me mudar para Marte. Sim, tenho um lindo plano ainda embrionário. Não, não posso contar. Sim, todos vão gostar. Não, acho que todos precisamos de nossos segredos para viver. Sim, faz parte da vida o não-contar. Não, não sou anti-facebook. Sim, conto quando for possível. Não, você será o primeiro. Sim, não esqueço dessa promessa, prometo.

27 de outubro de 2013

meu nome é 0124356789

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Em 1971, Clarice Lispector publicou a crônica "Amor não tem número" no Jornal do Brasil na qual fazia uma apelo: "vamos ser gente, por favor", em detrimento ao numerário que nos tornamos no sistema social. Quarenta e dois anos depois, essa frase, todo o texto, continua a fazer sentido: vamos ser GENTE, por favor!

Mesmo que a estatística seja indiscutivelmente necessária para a boa gestão, as metas e métricas preciosas ferramentas de trabalho para a administração de resultados, gente não é número, é gente. Gente não é senha, é gente. Gente não é crachá, é gente. Gente não é refugo, é gente.

Meus pêsames aos que se escondem por trás de processos burocráticos para desculpar sua miopia social, sua fraqueza e egoísmo. Um olhar além da zona de conforto é imprescindível. Você nasceu gente que pensa prá quê? Dançar quadradinho de oito?

Boa leitura abaixo, pois essa sim foi uma mulher que usou o cérebro para produzir textos primorosos, com sensibilidade e profundo senso crítico:

Amor não Tem Número

Se você não tomar cuidado vira número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista, tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento — tudo é número.
Se é dos que abrem crediário, para eles você é um número. Se tem propriedade, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem o número da cadeira.
É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas de Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.
Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.
Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. E claro que você é um número no recenseamento. Se é católico recebe número de batismo. No registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando a gente morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também.
Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número.
Uma amiga minha contou que no Alto Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pôde ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.
Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.
Nós vamos lutar contra isso. Cada um é um, sem número. O si-mesmo é apenas o si-mesmo.
E Deus não é número.
Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco exposto ao sol. Meu número íntimo é 9. Só. 8. Só. 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em novecentos e oitenta e sete. Estou me classificando com um número? Não, a intimidade não deixa. Vejam, tentei várias vezes na vida não ter número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que amor não tem número. Ou tem?

Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1971)'


10 de outubro de 2013

meu nome é RECORD

Cai não! Fonte: Google Imagens fantásticas

Três livros lidos em cinco dias é meu record. Cinco crises de enxaqueca em dois meses também é meu record. Duas horas parada no trânsito a menos de um quilômetro do meu destino, puro record. Estou numa fase competitiva.

1 de outubro de 2013

meu nome é COTIDIANO

Acordei pensando que esse homem acha que todo dia eu faço tudo sempre igual. Não tenho direito de ficar nem mais um minuto na cama, tenho que me levantar às 6 horas da manhã por que senão ele não levanta. Dissimulei um sorriso. Organizei-me no banheiro e voltei para beijá-lo, quem sabe ganho um carinho? Nada. Ele reclamou do gosto da pasta de hortelã e acordou mal humorado como sempre.

Às vezes me sinto mãe do homem com o qual me casei. Corri para preparar o café; ele tomou sem nem me olhar. Ignorou meus cuidados e reclamou novamente do meu beijo. Agora tem gosto de café.

Não sei o que se passa no dia dele de trabalho. Talvez seja um bom funcionário, talvez seja mais um na multidão, talvez trabalhe esperando a hora do almoço, talvez reclame de meu feijão. Meu sonho de marido era diferente. Minhas amigas dizem para me contentar por que arrumar marido está difícil. Pensei nisso toda a tarde, voltei no tempo, agora estou arrependida de não ter arriscado e ido atrás do grande amor.

A fim de me penitenciar, corri para esperá-lo no portão. Apertei o pescoço dele num abraço, com medo dos meus medos. E o beijei com paixão, lembrando do passado que perdi. Na cama, implorei para ele não se afastar. Constatei que é só isso que tenho. Até jurei amor eterno, apertada nele, e ele acreditou. Quase sufocada, entre a culpa e a insatisfação, mordi forte. Dói nele, mas dói mais em mim.

Chico, é em você que penso.

29 de setembro de 2013

meu nome é DENTRO


Não me ame tanto - Karina Buhr (minha versão preferida é a do Tropicanalha Feat | Jaloo Remix)

Não me ame tanto
Eu tenho algum problema com amor demais
Eu jogo tudo no lixo

Sempre

Não me ame tanto
Não posso suportar um amor que é mais do que
O que eu sinto por dentro
Penso


Desapego corretamente
Ou incorretamente
Um sentimento mesquinho
Que eu sinto por dentro
Tenso

Por isso não me ame
Não me ame tanto

Não me ame tanto

Não me ame tanto
Eu tenho algum problema com amor demais
Eu jogo tudo no lixo

Sempre

Não me ame tanto
Não posso suportar um amor que é mais do que
O que eu sinto por dentro
Penso


Desapego corretamente
Ou incorretamente
Um sentimento mesquinho
Que eu sinto por dentro
Tenso


Por isso não me ame
Não me ame tanto

Não me ame tanto

Pego tudo
O meu e o seu amor
Faço um bolo de amor
E jogo fora


Ou como e gozo
Dentro

26 de setembro de 2013

meu nome é CONGESTIONAMENTO

Todos presos e a imaginação voando. Fonte: Google

Ainda bem que não faço deste espaço um diário. Seria um tédio a narração de minha vida. Acordar cedo, pegar trânsito, trabalhar muito, pegar mais trânsito, casa, dormir exausta. Nos intervalos, penso na vida. O meu universo mais rico e interessante para dividir com o leitor é o interior, aquele onde moram os porquês. Não são porquês juntos e sem acento das respostas, são porquês separados e sem acento das perguntas, a junção da preposição "por" com o pronome indefinido "que".

São milhares, milhões de interrogações, filosóficas na maioria, sociopolíticas e sobre a alma humana. Inquieta-me perceber a pobreza de espírito de alguns, a vulgaridade de gostos de outros, a inclinação para a dissimulação do ser humano, a necessidade de holofote de certos, a miopia proposital de muitos, a ausência de caridade e humildade de tantos, e a clássica falta de noção de grande parte. Com isso gasto muita energia.

Enquanto vivo a vida prática, o trabalho ocupa minha cabeça; nos cursos e livros tento acalmar minha curiosidade, mas o trânsito tem me deixado louca. Tenho passado nele três horas por dia em média. O que isso significa? Um festival de concatenações. Ultimamente estou montando uma teoria sobre os arquétipos do motorista que circulam na Avenida Paralela, uma das maiores avenidas soteropolitanas. O do herói é o que mais gosto. Quero pertencer a ele para me sentir uma batalhadora na guerra do trânsito, mas nem forçando a barra.

Ai se tivesse asas...

11 de setembro de 2013

meu nome é HERMENÊUTICA

Ainda que nem tudo possa ser dito. Fonte: Google
 
Ainda que dormisse toda a noite
Ainda que a noite fosse mais curta
Ainda que o dia amanhecesse mais tarde
Ainda que o relógio não despertasse
Ainda que me permitisse dormir um pouco além
 
Ainda que me levantasse com energia
Ainda que o banho tivesse me despertado
Ainda que o cabelo fizesse as pazes comigo
Ainda que a roupa fosse nova
Ainda que o sapato fosse de cristal
Ainda que o café estivesse mais forte
Ainda que o elevador não demorasse tanto
 
Ainda que o caminho estivesse livre
Ainda que o trânsito desse uma trégua
Ainda que o viva-voz permitisse ver-o-outro
Ainda que as motos fossem menos perigosas
Ainda que o túnel fosse mais claro
Ainda que encontrasse logo onde estacionar
Ainda que as escadas tivessem dois degraus
 
Ainda que em cima da mesa tivesse uma xícara de café
Ainda que encontrasse tudo como deixei
Ainda que os problemas não existissem
Ainda que minha intuição parasse de gritar
Ainda que o tempo da confiança retornasse
Ainda que chaves fossem seguras
 
Ainda que as pernas não doessem
Ainda que o dia tivesse menos horas
Ainda que não anoitecesse tão rápido
Ainda que chegasse logo a hora da novela
Ainda que pudesse falar um palavrão
 
Ainda que a piscina estivesse mais quentinha
Ainda que o vizinho parasse de fazer barulho
Ainda que esse texto fosse inteligível para todos
Ainda que meu cansaço faça parte do tempo da mudança
 
Ainda assim não perco essa batalha por nada
Ainda assim desejo que o tempo não pare agora
Ainda assim fico feliz em momentos apertados entre o desafio e a nobreza
Ainda assim ouço música e leio poesia
 
Ainda assim meu desejo me traz aqui
Para desabafar o que me oprime o grito

29 de agosto de 2013

meu nome é MOÇA

Eu acredito! Fonte: paraquedismoskycompany

Ei, moça, por onde anda aquele seu sonho? Aquele de mudar o mundo, pular de paraquedas, desenhar um coração na parede? Moça, por onde anda aquela vontade de ter uma mochila rosa, um sapato azul, uma calça sem bainha? Por onde anda mesmo o desejo de morar num jardim, de viajar de trem, de perder o fôlego? Ei, moça, onde você se perdeu? Naquela curva fechada, no fim da ladeira, no beco escuro? Foi nessa rua sem saída aí que tem nome estranho, cul-de-sac, quase palavrão, só pra falar bonito, só pra parecer que sabe onde acaba um caminho? Ei, moça, e as chances que perdeu, hein? E aquelas que aproveitou e se arrependeu? Por onde anda o brilho nos olhos, o pé doído de dançar, a respiração ofegante, o peito movido de coração acelerado? Moça, você deixou morrer seu sonho? Pergunto se não regou, se não acolheu, se não acreditou. Foi isso, moça, isso que aconteceu? Lembra que sonho é bicho sinistro, não morre, fica escondido, só sacudir a toalha e olha ele saltando pra fora, de trás do baú da memória, com o paraquedas nas costas, pronto pra o salto. Ei, moça, acredita que ele volta. Acredita nele, moça, que ele acredita em você.

24 de agosto de 2013

meu nome é CONSELHO



Inaugurando um novo marcador de texto (#dissetudo), com música "Conselho", composição inspirada de Almir Guineto, interpretada no vídeo pela Orquestra Imperial:

Deixe de lado esse baixo astral,
Erga a cabeça enfrente o mal,
Que agindo assim será vital
Para o seu coração.
É que em cada experiência
Se aprende uma lição.
Eu já sofri por amar assim,
Me dediquei, mas foi tudo em vão.
Pra que se lamentar
Se em sua vida pode encontrar
Quem te ame com toda força e ardor?
Assim sucumbirá a dor (tem que lutar).
Tem que lutar, não se abater
E só se entregar a quem te merecer.
Não estou dando nem vendendo,
Como o ditado diz.
O meu conselho é pra te ver feliz.

11 de agosto de 2013

meu nome é MOVIMENTO

Movimento Parado - Velox
Paralisia Movimentada - As Sessões

Quero contar uma história que começou em 1995 na primeira vez que ouvi falar da Cia de Balé Débora Colker e de seu inusitado espetáculo Velox. Para a época, era surreal ver bailarinos pendurados na parede enquanto se apresentavam. Comprei os ingressos como se estivesse indo para um ritual. Ingressos caros para mim na época, mas não me importei de cortar algumas coisas para entrar no êxtase da arte por uma hora. Resultado, esquecemos o convite em casa e perdi a vez.
Ontem realizei o sonho de ver a montagem do mesmo espetáculo aqui em Salvador. Guardei os convites como se guarda algo sagrado. Fui sozinha, saí mais de uma hora antes de casa para não dar brecha para o destino me frustrar novamente. Resultado, me senti remexida por dentro a cada movimento. Entre encantada e libertada, viajei na força daquelas pessoas, no equilíbrio, na transformação de gente de carne e osso em seres articulados. Mesmo Nó e Casa, espetáculos lindos, nenhum tem a força da bola vermelha de Velox.
Mas ainda não é tudo o que quero dizer. Se ontem experimentei tantas emoções pela arte da dança no teatro, hoje fui sacodida pelo cinema. O filme chama-se "As Sessões". Resumindo, um homem com músculos que não suportam o peso de seu corpo, mas com uma cabeça cheia de ideias e poesia, descobre o sexo com uma terapeuta que trabalha com consciência corporal. É um filme que vale a pena. Para mim ficou a busca pela interseção dos bailarinos - loucos, pongados naquela parede com uma bola de fogo desenhada, um cenário nipônico, forte, viril, intenso - com o homem que era emoção também, forte, viril, intenso, mas sem a possibilidade de expandir sua alma além da palavra. Ah, a palavra! Quanto resgate que ela produz! O movimento falado, o movimento mudo. Tudo misturado em minha cabeça.
Mas ainda tenho mais o que dizer. Quero falar sobre o incômodo de minha cidade estar tão mal cuidada; do medo de ser assaltada entre o lugar que estaciono o carro até chegar ao teatro; da mulher que dá as costas deixando a torneira aberta no banheiro feminino e quando a gente vai fechar olha com aquela cara de ovo pochê; das pessoas que acham que ir ao teatro é privilégio e não direito; dos estereótipos comportamentais que se destacam na multidão e meus olhos captam com facilidade, por mais que tente desviar.
Mas ainda não é tudo o que quero dizer. Um dia consigo organizar todo esse fluxo de pensamentos que brotam a cada estímulo. Por enquanto só quero deixar fluir, sem compromisso. Como nos sonhos. Sem consciência, sem perdão.

8 de agosto de 2013

*JV e a negociação

Negociar com um homem de sete anos é um perigo. Meu sobrinho conseguiu que eu, com mais de vinte anos trabalhando com gente grande, cedesse aos seus argumentos de um metro e dez de altura. Carente de sobrinho por perto, sempre quero ligar, falar que amo, perguntar sobre sua vida e ele nunca me dá muita bola. Tudo o que quero é ouvir sua vozinha, então criei uma estratégia infalível: negociar - ele ama isso.
A proposta inicial era conversarmos por telefone (já que o sujeito mora em São Paulo e eu na Bahia) uma vez na semana por tempo indeterminado. Ele queria uma vez no mês, mas convenci de que desse jeito ele nem saberia quem era a própria dinda se passasse por ela na rua - ficou meio apavorado, imagino, e teve pena de mim. Aceitou falar no último dia da semana, sendo que este sábado não pois meu crédito foi antecipado para hoje. Quanto ao tempo, só cedeu 3 minutos de sua preciosa atenção para eu matar saudades e dizer que o amo muito, muito, muito etc.
Segundo ele, se precisar comer banana para ser jogador de futebol, vai abrir mão desse sonho e virar engenheiro mesmo, pois prefere matemática do que comer a pobre da fruta. Mas, depois da conversa de hoje, acho que será advogado, Trabalhista!

4 de agosto de 2013

meu nome é IMAGINAÇÃO

 
Liniers já disse tudo o que gostaria. Gosto desse cara.

28 de julho de 2013

meu nome é VIDA

"Tão bom viver dia a dia... A vida assim, jamais cansa..." Foto: Google que tudo sabe
O caminho era um pouco mais acidentado do que imaginava. Seguia assim mesmo descalça. As pedrinhas incomodavam menos no início do que nesse momento. Sentada para descansar, olhava para cima, respirando melhor, sentindo uma brisa mais fria no rosto. Aquele não era bem o lugar que sonhou pertencer quando a vida pedia consciência e decisão. Mas diante das concessões que fez para seguir tranquila, era o melhor que havia conseguido. Os pássaros pareciam menores, as árvores maiores, os medos imensos. Ouvia a água correr longe. Barulhinho bom como música. O som era reconfortante, tornando suave a sensação de rigidez da pedra na qual sentara. Olhou para os pés com ternura. Companheiros maltratados, porém pés firmes. Ensaiou um carinho nas pernas cansadas também, sujas de lama e riscadas pelo mato alto que venceram. Nesse momento percebeu a aspereza das mãos, pouco forçadas na caminhada, muito exigidas nos momentos da labuta. Levou-as ao rosto. Boa sensação de tato com cheiro de folha. As árvores emprestaram seu frescor a elas. De olhos fechados o mundo parece um lugar seguro. Chegou o momento de seguir. Levantou-se. Bastava agora decidir o caminho...

Canção do dia de sempre
Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
 
(Obrigada Mário Quintana!)

17 de julho de 2013

meu nome é MOVIMENTOS POPULARES 2013

Teias e redes, animadas e humanamente criadas. Fonte: Google
As pautas sociais são as minhas preferidas, especialmente depois dos recentes movimentos populares de rua. Todos os jornais, redes sociais, explodindo de notícia, opiniões, especulações sobre os jovens que sairam da frente das telas para viver a vida real (parentese para dizer que acho que o conceito de vida real precisa de revisão também). Sociedade sem educação, educação sem emprego, emprego sem saúde, saúde sem qualidade de vida, qualidade de vida sem ócio criativo, ócio criativo não custa 20 centavos. Mas não foi por 20 centavos. Ops, empolguei!

Li textos maravilhosos sobre essa pauta, não vou repeti-los aqui, mesmo por que o assunto anda misturado com as notícias sobre a vinda do Papa Francisco ao Brasil. Mais uma pauta social, mostrando jovens festivos e cheios de fé (parenteses para chamar atenção de que dos jovens continuam na pauta).

Algumas das matérias que li tinham um tom que me incomodava. Parecia rivalidade, quase ciúmes, inveja talvez. Depois de uma aula sobre gerações, conclui que o ponto nevrálgico era esse: conflito de gerações. O estranhamento dos comentaristas em geral está descrito em várias das notícias, inclusive com a irritante necessidade de explicar que os movimentos eram PACÍFICOS, o inapropriado comportamento de VÂNDALOS. Para me livrar de virar uma escrevinhadora carrancuda como muitos desses diplomados em jornalismo ou não, tenho minha receita: acompanhar de perto essa geração e a próxima, ouvi-las e saborear suas diferenças com relação a minhas próprias expectativas.

O que aprendi na convivência com jovens? Tanta coisa, tão pouco ainda! Aí me apodero da frase de Clarice, que ouvi citada por Maria Bethânia, para me fazer entender melhor: "eu sei muito pouco, mas tenho a meu favor tudo o que não sei". Sei que eles estão com pensamentos mais pragmáticos, a www parece tornar tudo instantâneo. Estudos apontam jovens com sinapses neurológicas diferentes das gerações anteriores em virtude dos estímulos digitais reais que são vivenciados rotineiramente hoje em dia.

A ciência fala até do fim da saudade. Ouvi isso pela primeira vez de uma criança nos quatro ou cinco anos completos. Numa vozinha sábia, meu sobrinho respondia a nossa insistente pergunta se sente saudades da dinda e da vovó, "não sinto saudade, só falta". Chega de nostalgia! Chega de saudade! Poesias e boa música a parte, não há como ver tudo isso com preconceito, precisamos deixar para trás a infame mania de considerar ruim o que nos é diferente. A democracia real pode estar sendo construída agora, finalmente. Oxalá!

2 de julho de 2013

meu nome é GRÉGOIRE

Sugestão de leitura de Mariana Soledade, muito bem vinda!
Enquanto o mundo realiza, minha cabeça pensa, especialmente num livro, um instigante livro que fala do que pensa um homem enquanto a realidade acontece do lado de fora de sua cabeça, enquanto reflete sobre um amor perdido, ou ainda não perdido, intervalo entre um ex e um futuro amor. Assim, entre muitas vírgulas, escreve Grégoire Bouillier em "O Convidado Surpresa", livro que não me deixa dormir direito há duas longas noites. De fato estou impressionada com o estilo e com a entrega do escritor. Nunca li nada parecido. Ele torna público todo o seu mundo interior, pior do que tirar a roupa em frente a câmeras de site de fofoca, pior do que esquecer o diário adolescente aberto na cama dos pais, pior do que olhar no olho de quem lhe decepcionou. Grégoire abre sua alma para mostrar como se destruiu por uma mulher, em uma noite. Um homem que se destrói (e reconstrói) em uma noite, entre vírgulas. Depois desse livro houve uma carta para Sophie Calle [artista plástica francesa], um rompimento de relação, sua fama de homem cachorro cresceu entre as mulheres, mas não lhe percebo assim, nem consigo chegar perto da dimensão que é a exposição desse cara no livro. Não é uma biografia no sentido literal, é quase uma inscrição em lápide. É um livro pequeno, pronto para ser lido e relido. Se há confusão na cabeça da gente provocada pela confusão da cabeça do outro, isso foi para mim ler Bouillier. No fim do livro, quando se reencontram, Sophie diz que se casou com um americano chamado Greg, ele brincando diz que ela não se atreva nunca a separar-lhe do "goire" do seu nome, brincando também com as construções no texto e todo o resto que está além da leitura em si. Um dia escrevo sobre a carta para Sophie, por hoje ele me preenche sem brechas. Desacostumei de ouvir a verdade dos homens, isso é irresistível, muito charmoso, e me provocou uma ressaca feroz.

26 de junho de 2013

meu nome é SÃO JOÃO


Essa história vai iniciar
Nas Alagoas Maceió do lindo mar
Onde mora um povo inventivo pra danar
De tatuagem a pessoas costumam inventar
Com a imaginação voam a brincar
Vivem contando causos sem sufocar
Até gente invisível eles costumam criar
Um tal Jorjão merece aplausos de mão queimar

E outro dia tá chegando!

Depois de uma noite danada
Lá vamos nós para a estrada
Três almas cheias de conversa enfiada
Registrando tudo na jornada
Junho ficou foi pequeno pra tanta lombada

Olha a cidade à frente!

Caruaru o primeiro rumo
Balões e bandeirolas a prumo
Interrogadas no hotel como se tivéssemos fumo
Conseguimos enfim um quarto de um desistente póstumo
Pobre diabo que não resistiu ao desarrumo
Desse mundo suprassumo

Deixa isso pra lá!

Arrumamos o cabelo caprichado
Roupa bonita, calçado civilizado
Rumamos para o terreiro atarracado
De forró, bode e povo animado
Santanna, o cantador requintado
Fez o show mais bonito de todo o povoado
E a gente se divertiu foi muito na chuva, tudo registrado
Armaria, deu tempo até pra mobilizar com o grupo excitado
Aqueles jovens que estão mudando o rumo do Brasil acomodado
Foi lindo de ver o sorriso rasgado
E o canto de força entoado
Do povo de Caruaru atulhado
Na fila de gente pelo centro da cidade, tá aprovado!

#fomosprarua!

Campina Grande foi o próximo destino
Do trio que encontrou outro povo peregrino
Acolhidas por Cecília e marido que Ariano pagou o ensino
Amigas resgatadas da estrada por Damião moço menino
Jogo vencido - nós 4, Itália 2 -, almoço fino
Enfim, fomos pra rua forrozear com Gil, presente divino
Emocionante ouvir Elba e o hino
Em Campina Grande vimos a lua grande no grande céu cristalino

Xote, baião é Saõ João!

Tanque cheio, alma lavada, artesanato na bolsa, um sucesso
E pegamos a estrada de regresso
Na mala e na memória um universo
De imagens dançantes que confesso
Deram pra minha imaginação o progresso
Para meu coração no pescoço um impresso
E no pulso um professo
Que agora carrego para sempre no escolhido caminho avesso
Pacto de amizade de travesso

Olha a cobra!

Redescobri que festa de São João
Acontece é no coração
De gente que tem afeto e medo não
Família faz a direção
Amigos a rotação
E no bloguinho a redação
De mais uma aventurança na criação

16 de junho de 2013

meu nome é DINDA

Era uma vez uma notícia, agora é um menino de sete anos. Quando minha irmã disse que estava grávida, eu me livrei em transe de um engarrafamento, doida para espalhar a notícia para os queridos, e, no entanto, mantive um silêncio agudo para que a novidade fosse privilégio da nave.
Chorei muito, pensando que finalmente chegara a renovação da vida, meu pedido de de todas as orações. Virou minha motivação. Virou meu melhor livro de histórias.
Para quem decidiu não ser mãe, ser tia é uma benção de Deus. É como um acordo com o divino: não exercerás a maternidade, mas a "tiaridade".
Estabeleci ali, na notícia, o compromisso de exercitar o amor incondicional desde o início de uma vida. Essa vida que vive longe fisicamente de mim e ao mesmo tempo nunca perco um minuto de seu convívio.
Somos ligados pelo cordão do amor, desde a notícia, desde o choro que não contive e não contenho.
Mesmo com todos os meus erros, meus defeitos, minhas pequenezas, minhas faltas graves, é nesse amor que me resgato e me perdoo. A esperança existe, mora em Santos e completa hoje sete anos.

"Geração X chamando Geração Z, câmbio!"

13 de junho de 2013

meu nome é ATONIO

Hoje é dia de Santo Antônio, o franciscano casamenteiro. Também é o aniversário de uma querida amiga. Ela homenageou o santo no nome do filho. E homenageou o filho fazendo uma tatuagem. Eis aí a questão. O tatuador mais famoso de Recife marca a história dessa história em um detalhe, pequeno, mas essencial:

Agora entendem que não errei no título.

10 de junho de 2013

meu nome é VOLTA?

Pode ser... Sinto saudades desse espaço. Hoje completa um mês de silêncio. Os acessos continuaram. Eu não acessei na certeza de que era mesmo um livro fechado. Nesse tempo fiz tantas coisas! Vivi muitas coisas. Elas me faziam lembrar daqui, da minha caixa de palavras soltas. Tantas informações que gostaria ainda de compartilhar! E por que não voltar atrás? E por que não dizer que estou de volta?
Pode ser... Os insights nos filmes sobre o personagem Renato Russo precisam de relatos! A viagem a Maceió, os novos amigos, a conexão Pernambuco, Geração X e demais pré e pós. Tantas coisas aconteceram em um mês! Mudanças, nascimentos, mortes, resignificações.
Pode ser... O medo do novo está dissolvendo...

9 de maio de 2013

meu nome é ÚLTIMA POSTAGEM

É com a poesia de Leminski que me despeço dos leitores deste bloguinho, agradecendo a acolhida, os comentários e acessos:

Já me matei faz muito tempo
Me matei quando o tempo era escasso
E o que havia entre o tempo e o espaço
Era o de sempre Nunca mesmo o sempre passo

Morrer faz bem a vista e ao baço
Melhora o ritmo do pulso
E clareia a alma

Morrer de vez em quando
É a única coisa que me acalma
 
 

23 de abril de 2013

meu nome é TCHAU


Peço licença aos leitores não incluídos no grupo abaixo. Esta despedida tem que estar neste bloguito, pois foi nesta cidade que tudo começou...
 
Tchauzinho, amigos de Mucuri!
 
Saindo de mansinho como às vezes fiz, espero encontrá-los aqui, ali, acolá. Vou seguir, reinventando Ariana em outros lugares!
Este livro foi fechado, contudo está morando juntinho de outros livros queridos, aqueles que abro sempre só para sentir o cheiro das páginas, sentir a textura da capa, ler uma frase grifada. Com cuidado, ele estará na prateleira, na altura dos meus olhos, para lembrar o quanto aprendi neste lugar insólito e fiz amigos para toda vida.
Sentirei saudades...

16 de abril de 2013

meu nome é CARAVANA


Não vejo a hora de abrir as caixas... Fonte: Google

Desde o final do ano passado tem sido difícil lidar com a saudade. Viajei muito para estar fisicamente perto dos que amo com uma frequência cansativa. Pensei em mil e uma estratégias de como fazer pra ajustar minha vida com meus desejos e enfim o universo me empurra no abismo e ouço-o dizendo: mexa-se!

É o que estou fazendo e pensando, não sou filha de cigano nem de militar, mas mudei muito. Conto 15 casas, 13 colégios, 11 trabalhos, 4 cidades. Julgo que esse processo faz parte de meu coração inquieto e desesperado. Até eu me surpreendo (suspirando).

Bem, no meu caso atual, sair do emprego que me fez morar na mesma cidade e na mesma casa por cinco ótimos anos significa também mudar de casa e de cidade. Agora estou aqui ouvindo meus CDs, que nem lembrava mais que tinha, enquanto arrumo a mudança. Sim, Geraldo Azevedo, “a vida é cigana”, e sim mundo, lá vou eu!

Entre papéis, nos encontros com “minhas outras vidas”, achei um texto que escrevi no processo seletivo para a empresa que agora me despeço. Quero compartilhar com vocês minhas convicções de cinco anos atrás, mais por serem elas, em grande parte, ainda integrantes de mim:
“Tive o privilégio de assistir em 2007 uma palestra o Prof. Bernardo Toro, educador colombiano com vasta experiência na área de mobilização social. Na ocasião ele dissertou sobre os eixos de trabalho que, integrados, são primordiais para conquistas de transformação social efetiva: a razão, a comunicação e a paixão.
‘Assim compreendo o trabalho na área de responsabilidade social, como uma área que mobiliza vontades corporativas e sociais, com planejamento, comunicando através de canais adequados, motivando os envolvidos. Reunidos esses fatores, o desenvolvimento sustentável que hoje é foco nos três setores (governo, empresa e sociedade civil organizada) parece sair das teorias acadêmicas para se tornar realidade.
‘Somos todos protagonistas no processo de crescimento do país; por isso quando penso em aliar os valores que acredito com a possibilidade de suporte corporativo de uma empresa que não vê os seres humanos como obstáculos ao progresso, ganho força e reforço minhas escolhas éticas.”

Foi muito bom. Agora é fechar esse livro em Mucuri e começar a escrever outro. Pegando a Caravana novamente, serenamente, só um pouco resfriada.

Corra não pare não pense demais
Repare essas velas no cais
Que a vida é cigana
É caravana
Degelou teus olhos tão sós
Num mar de água clara

31 de março de 2013

meu nome é IDA SEM VINDA

O Tempo. Por: Google
Já se passaram 12 anos. Mesmo assim a memória volta sempre para aquela estrada escura, o aperto no peito, o balanço do carro, minha mãe segurando minha mão e o celular tocando. O nome que aparece é "Pai" e, no entanto, nunca mais será ele. Demorei para atender, era meu primo, ligando para saber quanto tempo faltava para chegarmos. O tempo...  "O bom caminho é haver volta, para ida sem vinda basta o tempo." Hoje completam 12 anos daquele dia e o tempo não me poupa o mesmo aperto no peito.

Horário do Fim

morre-se nada 
quando chega a vez 
é só um solavanco 
na estrada por onde já não vamos 
morre-se tudo 
quando não é o justo momento 
e não é nunca 
esse momento


P.S.: A citação e a poesia são de Mia Couto, escritor moçambicano que me ajudou na catarse de hoje.

30 de março de 2013

meu nome é @NORAMAHA

Descobri hoje a Nora Ann-Francis Martin-Hall no Instagram, sem muitos detalhes de biografia, a não ser que ela nasceu no mesmo dia de meu sobrinho, tem 24 aninhos e vive na Califórnia.

O nome é massa, a arte melhor ainda. Mas por que ela está no nosso bloguinho na véspera de Páscoa? Ela desenha coelhos! E mesmo com a piada rodando minha cabeça do menininho que pergunta ao pai por que não é "galinha da Páscoa", resolvi prestigiar o bicho orelhudo, já que convivo com um e sei que eles são mesmo esteticamente os mais fofos dos fofos.

A cara de Zero3, meu coelho. Por: @noramaha (Instagram)

Coelhinho da Páscoa
Que trazes pra mim?
Um ovo, dois ovos e
Um capacete protetor de pensamento!

Coelhinho da Páscoa
Que cor eles têm?
Azul, amarelo e
Invisível também!

22 de março de 2013

meu nome é REQUEBRA

"Tudo fica mais bonito você estando perto"

Sabe uma sexta-feira daquelas que a gente pensa que vai dormir após a novela das sete, pois a semana já sugou toda a sua energia? Pensei que esta fosse uma dessas, mas eis que começo a ouvir música... 

Cheguei com coragem apenas para o banho e um cafezinho rápido. Sentei no sofá e comecei a pesquisar umas músicas na internet e chego a um som bem conhecido. Um ritmo que dá vontade de se mexer os ombros, os quadris, e os braços abrem como asas. Acontece então que o som penetra pelo ouvido e inunda tudo por dentro com lembranças e desejos. Como é boa essa sensação que a música traz na gente...

Nem quero pensar muito na sucessão de palavras e frases escritas aqui, só embalada pela música...

Vamos fazer uma brincadeira? Veja se sabe o que estou escutando com as pistas abaixo:

1. é da Bahia
2. é lindo de ver e de ouvir
3. é música que ultrapassou nosso continente
4. é representante de tudo o que há de mais belo na cultura baiana
5. é de antes e de agora, igualmente

Sabia que diriam OLODUM!

Para meus queridos soteropolitanos, ou não, que dividiram comigo tantos momentos maravilhosos numa Salvador de saudades, "TODOS CANTANDO FELIZES DE BEM COM A VIDA"!

Aos que nunca foram, estão convidados para conhecer o melhor dos melhores carnavais do mundo! O mais musical, dançante, divertido e contagiante carnaval! Mais que festa, é pura delícia!

12 de março de 2013

meu nome é JAVAN e JOVANE

Das variações de nomes, essas foram as mais diferentes que vi nos últimos tempos. Seria Javan uma variação de Djavan? E Jovane o abrasileiramento de Giovanni? É bom viver num mundo de pessoas criativas! Percebo que, mesmo que às vezes a gente pense que existe um “erro” na certidão, no fundo o que existe são desejos de exclusividade.

5 de março de 2013

meu nome é CABRA

A cabrita até que é bonitinha... Mas não vou me render! Fonte: Google
Pronto, a coragem apareceu. No próximo período espero que ela esteja ao meu lado, inspirando-me ações rápidas e eficazes em prol de minhas buscas. O discurso está lacônico; é intencional. Realmente não pretendo abrir o livro de minha vida aqui, vocês não suportariam tantas insatisfações contidas em uma única pessoa.
E por falar em insatisfação, melhor desabafar logo algumas aqui antes que exploda. Estou irada com a Globo. A próxima novela das seis trará uma personagem com nome Ariana. Quem é a atriz? Uma cabra! Sim, uma cabrita, bicho, toda enfeitada e mansa. Nada contra as cabras, mas isso não vai ser nada bom de conviver nos próximos anos. A homenagem a Ariano Suassuna vai me custar caro. Prevendo embates sérios com piadistas de plantão. Dai-me bom humor!
Se só esse fosse o motivo da insatisfação seria fácil, mesmo por que sei que ainda vou rir muito com essa história da cabra. Às vezes detona a bomba da indignação em meu peito e vou remanchando, remoendo, revivendo, até tudo escorrer pelo ralo do "não-posso-fazer-nada-a-respeito". Saltito quando há um desvio pelo rodo do "sim-posso-agir"! Como é boa a sensação de ação nesses momentos, quando tudo o que me incomoda perde a importância.
Esse é meu conceito de perdão. Sem gracinha, ainda não te perdoo, Globo!

25 de fevereiro de 2013

meu nome é CORAGEM

Em 1962, Vinícius de Moraes publica "O Haver". Em 2013, é sobre o que me inquieta:

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.


Pequena grande coragem, apresente-se! Fonte: Google


15 de fevereiro de 2013

meu nome é TPN


Pobre ALC com TPN... Fonte: Google Imagens
Quero dividir com vocês a minha primeira busca frustrante no Google. Começou assim: uma amiga comenta seu abalado estado emocional por conta dos preparativos pré-nupciais. Eu, solidária e curiosa, vou pesquisar textos bacanas na ferramenta pop para baixar a ansiedade dela. Encontro sites brancos, com buquês pra todo lado, informando que os preparativos (!) para o rito de passagem deixam todas as noivas estressadas. As dicas são: boa alimentação, exercício físico e dormir 8 horas à noite.

Juro que busquei dicas do tipo: Como Não Matar O Noivo Na Noite Anterior Ao Casamento; Qual A Rota De Fuga Mais Próxima Do Altar; Quais Os Calmantes Que Não Se Pode Tomar Para Não Sair Com Cara Feia Nas Fotos; Como Compreender Que Casamento E Cadeia Não São A Mesma Coisa; e enfim, Sim, Posso Me Separar Um Dia Sem Culpa. Esperei que as revistas eletrônicas confirmassem meu pensamento de que “felizes para sempre” não é uma condenação, é uma escolha, e como toda escolha é difícil.

Enquanto minha amiga falava comigo, a imagem que me veio à cabeça foi a de uma ponte e a frase de “Comer, Rezar e Amar”: atravessiamo. Um livro lindo, amoroso e filosófico. Dica de boa leitura. A história da mulher que acaba um casamento, encontra um amor, e decide enfim “atravessar” seus temores, ansiedades, desgostos, convencendo a gente que o melhor da história é a passagem da mulher medrosa para a mulher aguerrida.

Também veio o desejo de voltar aos papos com Helena, papo esses culpados por eu escrever esse blog há quase cinco anos. Ela teria uma reflexão sábia para fazer para minha amiga aquietar a ansiedade. Eu não. No assunto matrimônio tenho oito anos de experiência muito particular e não me lembro de ter tido TPN – tensão pré-nupcial.

Criei então minha própria lista de dicas para a noiva. Os leitores podem participar nos comentários se quiserem:

1. Relaxe, trocar seu RG por uma certidão de casamento não dói.
2. Acalme-se, festa de casamento acaba uma hora.
3. Serene, os planos de futuro em comum resgatam sempre a vontade.
4. Suavize, sempre há um sofá em casa.

No mais, estou torcendo para que sempre haja espaço para os sorrisos felizes e cúmplices entre eles.

24 de janeiro de 2013

meu nome é DEVANEIO



não, eu não sofro além do necessário

Falta de assunto é doença grave? Estou absolutamente sem assunto. Falando muito, pensando pouco, procurando soluções, isso tudo cansa.

Melhor contar uma história.

Esses dias, conversando com um grupo de amigos no WhatsApp - nova mania de comunicação do mundo virtual - passei meu atestado de vida sem glamour. Enquanto as amigas mostravam unhas  pintadas de cores com nomes atrevidos, os amigos mostravam saídas nas baladas, músculos e copos. Eu, por minha vez, mostrei meu chuveiro, um alfinete e o trabalhão que daria desentupir buraquinho a buraquinho daquele aparelho.

Depois disso, leio um texto do Carpinejar dizendo que "homem ainda tem medo da mulher com autonomia". Lástima! Para mim autonomia sempre foi a melhor coisa que a mulher conquistou; só não associei ao fato de que, por causa disso, ficarei gata borralheira para sempre! Ou até encontrar algum príncipe corajoso. Será?

Um príncipe pode ter me visitado esses dias: a casa tá cheia de rãs e sapinhos em geral. Não beijei nenhum. Segundo o sábio Carpinejar, homem tem medo também  da "mulher que faz piadas, e não somente ri das piadas dele". Pronto aí me enforquei totalmente! Reparando bem, até o sapo parecia que estava com medo de mim: sabia que faria uma piada daquela situação.

Para piorar o cenário que o texto traça, abordando o medo dos homens, e que me deu pavor de ler, homem tem medo de "mulher exigente, que não aceitará cantada com erro de português". Danou-se! Melhor procurar um gringo, desses que a gente perdoa os "poblemas" com a língua portuguesa, não vai entender que estou contando piada, já está acostumado à autonomia feminina, e até gosta.

Vale a pena ler algo muito mais divertido do que minha falta de assunto:

MULHER SEM VÍRGULA - Fabrício Carpinejar


Tenho amigas lindas, inteligentes, divertidas e independentes sem namorado. E sabe por que elas estão sem namorado?
Porque são lindas, inteligentes, divertidas e independentes.
O homem ainda tem medo da mulher com autonomia. Da mulher que não dependa dele financeiramente.
Da mulher que faz piada, e não somente ri das piadas dele.
Da mulher que fala abertamente de sexo.
Da mulher que precisa de sexo e gosta de sexo.
Da mulher que se veste bem e tem ideologia.
Da mulher exigente, que não aceitará cantada com erros de português.
Da mulher educada, que não leva desaforo para casa.
Da mulher resolvida, mãe, viajada, informada, leal aos amigos.
Homem tem medo de alguém que vai desafiá-lo socialmente, intelectualmente, profissionalmente.
Tem medo de perder na conversa (mas amor é perder mesmo, de qualquer jeito).
Homem tem medo de mulher com opinião, que discorde dele na frente dos amigos, na frente da família.
Homem tem medo de ser passado para trás e daí não anda para frente.
Homem ainda deseja Amélia, a figura submissa, obediente, que se esconde no romantismo e dentro de um casamento.
Até quando?

10 de janeiro de 2013

meu nome é CONTARDO CALLIGARIS


Então, é esse! - In: Revista Trip
Queria escrever sobre minhas férias, meus amigos que tanto amo, minha família maravilhosa e divertida, só que meu eu-romântico pede para responder à pergunta de Contardo Calligaris no texto publicado na Folha hoje, “Então, é isso?”

Digo sim, é isso, meu caro italiano, psicanalista, doutor em psicologia clínica e escritor. O mundo não muda muito dos sete aos 56 anos, pelo menos o mundo óbvio. Falo após 41 anos de reflexões diárias sobre a vida e nossas buscas.

A nossa expectativa é que as mudanças do outro, e mesmo nossas, sejam visíveis: esse é o conceito do ter, não do ser. No seu texto, o tempo é visto pela lente de um cineasta que entrevista crianças de sete anos e, a cada sete anos repete-se o encontro com a câmera. Isso vai mostrar a passagem física, as conquistas materiais das pessoas, opiniões talvez. O íntimo, como? O íntimo é meu, é seu, lido aqui e ali por pessoas sensíveis, treinadas, mas nunca tocado. Ele arde.

No cinema nunca espero ver além de cenas quadro a quadro - não esqueça nunca que para o cinema há edição. O que ele suscita está além do que é visível. Entrevista, olhar do diretor, interpretação dos atores, tantos filtros. O cinema é como a fé: escuridão e luz.

Imaginei sua cara de intelectual frustrado com a fatalíssima finitude dos acontecimentos da vida. “Então, é isso?” foi a melhor questão que podia sair de sua cabeça reflexiva, treinada, conhecedora de teorias, acadêmica, teórica, preparada para dar respostas? Que lindo! Mesmo assim, depois de tanto caminhar, você ainda faz perguntas maravilhosas, parabéns!

É isso, homem do nome estranho, até o momento é só e tudo isso o que pude constatar. Ao mesmo tempo, pergunto quantos milagres não aconteceram em nossas vidas nesse mundo de meu Deus? Quantas escolhas, oportunidades, conveniências? Quantas estratégias formuladas para sobreviver? Quantas conquistas e quantas perdas? Quando “orgulho e preconceito”? E sim, é isso, e é muito.

Para mim, nem foi o filme que lhe emocionou tanto, foi a “blue note”. Como o cinema, a música é fagulha em capim da alma. Se você tivesse assistido a esse filme na terra que moro, sairia do cinema, ouviria a Timbalada tocando, e sua pergunta poderia ser outra: ó paí ó?