28 de julho de 2013

meu nome é VIDA

"Tão bom viver dia a dia... A vida assim, jamais cansa..." Foto: Google que tudo sabe
O caminho era um pouco mais acidentado do que imaginava. Seguia assim mesmo descalça. As pedrinhas incomodavam menos no início do que nesse momento. Sentada para descansar, olhava para cima, respirando melhor, sentindo uma brisa mais fria no rosto. Aquele não era bem o lugar que sonhou pertencer quando a vida pedia consciência e decisão. Mas diante das concessões que fez para seguir tranquila, era o melhor que havia conseguido. Os pássaros pareciam menores, as árvores maiores, os medos imensos. Ouvia a água correr longe. Barulhinho bom como música. O som era reconfortante, tornando suave a sensação de rigidez da pedra na qual sentara. Olhou para os pés com ternura. Companheiros maltratados, porém pés firmes. Ensaiou um carinho nas pernas cansadas também, sujas de lama e riscadas pelo mato alto que venceram. Nesse momento percebeu a aspereza das mãos, pouco forçadas na caminhada, muito exigidas nos momentos da labuta. Levou-as ao rosto. Boa sensação de tato com cheiro de folha. As árvores emprestaram seu frescor a elas. De olhos fechados o mundo parece um lugar seguro. Chegou o momento de seguir. Levantou-se. Bastava agora decidir o caminho...

Canção do dia de sempre
Tão bom viver dia a dia...
A vida assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas...
 
(Obrigada Mário Quintana!)

17 de julho de 2013

meu nome é MOVIMENTOS POPULARES 2013

Teias e redes, animadas e humanamente criadas. Fonte: Google
As pautas sociais são as minhas preferidas, especialmente depois dos recentes movimentos populares de rua. Todos os jornais, redes sociais, explodindo de notícia, opiniões, especulações sobre os jovens que sairam da frente das telas para viver a vida real (parentese para dizer que acho que o conceito de vida real precisa de revisão também). Sociedade sem educação, educação sem emprego, emprego sem saúde, saúde sem qualidade de vida, qualidade de vida sem ócio criativo, ócio criativo não custa 20 centavos. Mas não foi por 20 centavos. Ops, empolguei!

Li textos maravilhosos sobre essa pauta, não vou repeti-los aqui, mesmo por que o assunto anda misturado com as notícias sobre a vinda do Papa Francisco ao Brasil. Mais uma pauta social, mostrando jovens festivos e cheios de fé (parenteses para chamar atenção de que dos jovens continuam na pauta).

Algumas das matérias que li tinham um tom que me incomodava. Parecia rivalidade, quase ciúmes, inveja talvez. Depois de uma aula sobre gerações, conclui que o ponto nevrálgico era esse: conflito de gerações. O estranhamento dos comentaristas em geral está descrito em várias das notícias, inclusive com a irritante necessidade de explicar que os movimentos eram PACÍFICOS, o inapropriado comportamento de VÂNDALOS. Para me livrar de virar uma escrevinhadora carrancuda como muitos desses diplomados em jornalismo ou não, tenho minha receita: acompanhar de perto essa geração e a próxima, ouvi-las e saborear suas diferenças com relação a minhas próprias expectativas.

O que aprendi na convivência com jovens? Tanta coisa, tão pouco ainda! Aí me apodero da frase de Clarice, que ouvi citada por Maria Bethânia, para me fazer entender melhor: "eu sei muito pouco, mas tenho a meu favor tudo o que não sei". Sei que eles estão com pensamentos mais pragmáticos, a www parece tornar tudo instantâneo. Estudos apontam jovens com sinapses neurológicas diferentes das gerações anteriores em virtude dos estímulos digitais reais que são vivenciados rotineiramente hoje em dia.

A ciência fala até do fim da saudade. Ouvi isso pela primeira vez de uma criança nos quatro ou cinco anos completos. Numa vozinha sábia, meu sobrinho respondia a nossa insistente pergunta se sente saudades da dinda e da vovó, "não sinto saudade, só falta". Chega de nostalgia! Chega de saudade! Poesias e boa música a parte, não há como ver tudo isso com preconceito, precisamos deixar para trás a infame mania de considerar ruim o que nos é diferente. A democracia real pode estar sendo construída agora, finalmente. Oxalá!

2 de julho de 2013

meu nome é GRÉGOIRE

Sugestão de leitura de Mariana Soledade, muito bem vinda!
Enquanto o mundo realiza, minha cabeça pensa, especialmente num livro, um instigante livro que fala do que pensa um homem enquanto a realidade acontece do lado de fora de sua cabeça, enquanto reflete sobre um amor perdido, ou ainda não perdido, intervalo entre um ex e um futuro amor. Assim, entre muitas vírgulas, escreve Grégoire Bouillier em "O Convidado Surpresa", livro que não me deixa dormir direito há duas longas noites. De fato estou impressionada com o estilo e com a entrega do escritor. Nunca li nada parecido. Ele torna público todo o seu mundo interior, pior do que tirar a roupa em frente a câmeras de site de fofoca, pior do que esquecer o diário adolescente aberto na cama dos pais, pior do que olhar no olho de quem lhe decepcionou. Grégoire abre sua alma para mostrar como se destruiu por uma mulher, em uma noite. Um homem que se destrói (e reconstrói) em uma noite, entre vírgulas. Depois desse livro houve uma carta para Sophie Calle [artista plástica francesa], um rompimento de relação, sua fama de homem cachorro cresceu entre as mulheres, mas não lhe percebo assim, nem consigo chegar perto da dimensão que é a exposição desse cara no livro. Não é uma biografia no sentido literal, é quase uma inscrição em lápide. É um livro pequeno, pronto para ser lido e relido. Se há confusão na cabeça da gente provocada pela confusão da cabeça do outro, isso foi para mim ler Bouillier. No fim do livro, quando se reencontram, Sophie diz que se casou com um americano chamado Greg, ele brincando diz que ela não se atreva nunca a separar-lhe do "goire" do seu nome, brincando também com as construções no texto e todo o resto que está além da leitura em si. Um dia escrevo sobre a carta para Sophie, por hoje ele me preenche sem brechas. Desacostumei de ouvir a verdade dos homens, isso é irresistível, muito charmoso, e me provocou uma ressaca feroz.