27 de outubro de 2013

meu nome é 0124356789

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Em 1971, Clarice Lispector publicou a crônica "Amor não tem número" no Jornal do Brasil na qual fazia uma apelo: "vamos ser gente, por favor", em detrimento ao numerário que nos tornamos no sistema social. Quarenta e dois anos depois, essa frase, todo o texto, continua a fazer sentido: vamos ser GENTE, por favor!

Mesmo que a estatística seja indiscutivelmente necessária para a boa gestão, as metas e métricas preciosas ferramentas de trabalho para a administração de resultados, gente não é número, é gente. Gente não é senha, é gente. Gente não é crachá, é gente. Gente não é refugo, é gente.

Meus pêsames aos que se escondem por trás de processos burocráticos para desculpar sua miopia social, sua fraqueza e egoísmo. Um olhar além da zona de conforto é imprescindível. Você nasceu gente que pensa prá quê? Dançar quadradinho de oito?

Boa leitura abaixo, pois essa sim foi uma mulher que usou o cérebro para produzir textos primorosos, com sensibilidade e profundo senso crítico:

Amor não Tem Número

Se você não tomar cuidado vira número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista, tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento — tudo é número.
Se é dos que abrem crediário, para eles você é um número. Se tem propriedade, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem o número da cadeira.
É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas de Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.
Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.
Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. E claro que você é um número no recenseamento. Se é católico recebe número de batismo. No registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando a gente morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também.
Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número.
Uma amiga minha contou que no Alto Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pôde ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.
Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.
Nós vamos lutar contra isso. Cada um é um, sem número. O si-mesmo é apenas o si-mesmo.
E Deus não é número.
Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco exposto ao sol. Meu número íntimo é 9. Só. 8. Só. 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em novecentos e oitenta e sete. Estou me classificando com um número? Não, a intimidade não deixa. Vejam, tentei várias vezes na vida não ter número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que amor não tem número. Ou tem?

Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1971)'


10 de outubro de 2013

meu nome é RECORD

Cai não! Fonte: Google Imagens fantásticas

Três livros lidos em cinco dias é meu record. Cinco crises de enxaqueca em dois meses também é meu record. Duas horas parada no trânsito a menos de um quilômetro do meu destino, puro record. Estou numa fase competitiva.

1 de outubro de 2013

meu nome é COTIDIANO

Acordei pensando que esse homem acha que todo dia eu faço tudo sempre igual. Não tenho direito de ficar nem mais um minuto na cama, tenho que me levantar às 6 horas da manhã por que senão ele não levanta. Dissimulei um sorriso. Organizei-me no banheiro e voltei para beijá-lo, quem sabe ganho um carinho? Nada. Ele reclamou do gosto da pasta de hortelã e acordou mal humorado como sempre.

Às vezes me sinto mãe do homem com o qual me casei. Corri para preparar o café; ele tomou sem nem me olhar. Ignorou meus cuidados e reclamou novamente do meu beijo. Agora tem gosto de café.

Não sei o que se passa no dia dele de trabalho. Talvez seja um bom funcionário, talvez seja mais um na multidão, talvez trabalhe esperando a hora do almoço, talvez reclame de meu feijão. Meu sonho de marido era diferente. Minhas amigas dizem para me contentar por que arrumar marido está difícil. Pensei nisso toda a tarde, voltei no tempo, agora estou arrependida de não ter arriscado e ido atrás do grande amor.

A fim de me penitenciar, corri para esperá-lo no portão. Apertei o pescoço dele num abraço, com medo dos meus medos. E o beijei com paixão, lembrando do passado que perdi. Na cama, implorei para ele não se afastar. Constatei que é só isso que tenho. Até jurei amor eterno, apertada nele, e ele acreditou. Quase sufocada, entre a culpa e a insatisfação, mordi forte. Dói nele, mas dói mais em mim.

Chico, é em você que penso.