27 de novembro de 2013

meu nome é TARSILA

Pacto cruel o de trancafiar o coração no pote de farinha. Tarsila pensou que assim seria mais fácil. Estaria guardado, protegido no fundo do armário. Chegou a esquecer por um tempo que ele estava lá. Deu atenção para o estômago, o fígado, os pés, mas o coração, endureceu no pote de farinha depois da terceira decepção. Ela sabia que não aguentaria uma outra, não criara anticorpos contra a dor. Preferiu ocultar no farelo a sede da alma. Ele não emergiu. Sufocou. Ressecou. Tarsila matou seu coração. Seco e duro, ele não batia. Sem coração, ela não vivia. Foi uma morte atrás da outra. Na intenção de proteger-se, Tarsila deu cabo ao órgão vital. O estômago continuou, fígado continuou, os pés continuaram. Tarsila secou em vida muitos anos de seu tempo. Até o dia em que o armário despencou.

*Dizem que no momento ela ouvia: Quem sabe (Los Hermanos) ou Amor (Secos e Molhados).

24 de novembro de 2013

meu nome é PISCA-PISCA

Então é (quase) Natal. Fonte: Google
Entrei no quarto, vejo uma luz indecisa refletida no armário. Por um momento a ideia de estar presenciando algo fantástico chegou a me ocorrer, um segundo depois destruída pelo reflexo do pisca-pisca de Natal da varanda do quinto andar.
A nostalgia dos pisca-piscas... Esse ano está me afetando bem menos. Não me aborreci tanto com os enfeites da rua, ou com o reflexo no quarto. Os anos anteriores foram maçantes com ornamentos bem mais singelos. Será por quê?
A saudade tem diminuído no peito, apesar da distância ter permanecido. Efeitos da maturidade, quem sabe, essa dona que vivo procurando alguém que me apresente oficialmente. Parece que quando a gente conhece a dita cuja, o mundo torna-se um local enfim para se morar. Não digo viver, resisto em pensar que isso é outra coisa.
A ansiedade também está menor. Para isso tenho explicação. Venho fazendo meditação guiada. Na internet. Não tenho tempo para muita coisa. Simplesmente me acomodo, procuro um assunto no YouTube e viajo. Essa é minha nova maneira de despressurizar.
A piscina tem sido meu refúgio de final de semana. É reconfortante mergulhar naquela água cristalina, ficar sem compromisso, sentindo o mundo líquido me transportando para além das buscas. E há o sol, sua força na pele com pouca roupa. Remonta meu quebra-cabeça interior com franqueza.
As culpas, senhoras de tantas dores de cabeça, estão sob controle. Uso várias ferramentas: conversas francas; diários imensos; alimentação mais cuidadosa; evito excessos; medicação até; orações; colchão novo.
Os desafios do trabalho mantém meu raciocínio vivo. Viciada nisso. Atualmente com mais liberdade, prazer, altruísmo. Segurança e liberdade, o conflito de Bauman não me intimida.
Os fantasmas que piscam no Natal, neste ano, não me assustaram. Esperneei demais sobre o túmulo do que não me agradava perder. Passou. Agora é renovar os votos de companheirismo comigo mesma, acender um pisca-pisca e enfeitar minha árvore da felicidade. Merecemos um tempo de paz.

21 de novembro de 2013

meu nome é TRANSPARÊNCIA

Processual, complexo, longo e inquietante. Fonte: Google

Se a gente quer uma sociedade limpa, justa, é pleonasmo dizer que temos que botar a mão na lama? Pois bem, divido minhas experiências aqui de luta por um mundo melhor. Participei hoje de uma iniciativa muito bacana, gostaria de compartilhar neste bloguinho, chama-se "Jogos Limpos", projeto do Instituto Ethos para ampliar a transparência e o controle social sobre os investimentos públicos na Copa 2014 e Olimpíadas 2016.

Esse projeto é na verdade um grande exercício, uma espécie de teste, tanto para a gestão pública como para nós cidadãos. O exercício do ser transparente, do trabalho acessível, da informação clara, da acessibilidade para todos, do fim da vantagem.

Contudo - e sempre há um porém entre a intenção e o realizado quando se trata do universo sociopolítico - o que vi lá foram representantes públicos reativos, outros insípidos; cidadãos omissos; poucos movimentos sociais representados; alguns intelectuais de peso.

Vi que crescem as tecnologias de controle social no Brasil, maduras, inovadoras e criativas. Permanecem os discursos do governo, culpando o passivo, o governo anterior, a má gestão passada. Enfim, um cenário em desequilíbrio.

Há que ter paciência. Temos que conviver com esse desequilíbrio na balança, é um processo complexo, porém sem volta.

Para quem ficou interessado:

www.artigo19.org
A ARTIGO 19 trabalha para que todos e todas, em qualquer lugar, possam se expressar de forma livre, acessar informação e desfrutar de liberdade de imprensa.

https://www.facebook.com/transparencia.hacker#!/transparencia.hacker?fref=ts
Indivíduos dos mais diferentes perfis propoem e articulam ideias e projetos, utilizando tecnologias da informação para fins de interesse social.

http://www.jogoslimpos.org.br/transparencias/
O nível de transparência  da gestão pública municipal é hoje considerada "muito baixa" e a estadual tem nível "médio", lembrando que esses indicadores medem a realização dos megaeventos esportivos, contudo são indicadores de como há uma clara dificuldade cultural no poder público para lidar com a transparência.

http://www.cms.ba.gov.br/acesso_informacao.aspx
Portal da Câmara Municipal de Salvador na página da Ouvidoria, disponibiliza o SIC (Serviço de Informação ao Cidadão) e mantém comissão interna de implementação da Lei de Acesso à Informação (LAI).

meu nome é BAUTMAN


Bauman esperando meu abraço. Que doce! Meu Batman das palavras!
Sou tiete declarada de muita gente, pago micos incontáveis para estar perto de meus ídolos, alguns micos contados aqui nesse parque de diversão das palavras. Certo mesmo é que daria um tufo de cabelo para dar um abraço em Bauman. Esse sociólogo polonês me emociona a cada escrito, a cada construção de ideia, a cada introdução de livro... Dito isso, e para não perder minha necessidade de fazer desse espaço um confessionário, falo logo que nunca fui além da introdução dos livros dele. São muito densos! Me destroem! Fico dilacerada e impregnada com umas coisas que ele fala que levo horas, dias, meses digerindo o óbvio. A delícia da dor, alguém já experimentou? É cruel, mas necessária para libertação da alma.

Na introdução de “Tempos Líquidos”, ele fala do conflito dos dois únicos valores possíveis na atualidade: a segurança e a liberdade. E esses dois únicos valores existentes são conflitantes entre si. Por exemplo: se você quer morar em uma casa sem muros para ver a paisagem, você perde a segurança; se erguer altos muros perde a liberdade de ver a paisagem. Outro: se você estabelecer um compromisso pode perder a liberdade e ganhar segurança, se não estabelecer pode ser o contrário. O fato é que parece incompatível ter um e outro ao mesmo tempo e é essa a nossa busca, fonte de infinita ansiedade, de valores que andam paralelos porém nunca se cruzarão.

Olho para Bauman, o futuro dono do meu tufinho de cabelo, vejo quanto tempo ele levou para matutar uma ideia dessas, que até parece simples explicada do meu jeito senso comum, mas que fala tanto do que somos; ideia que pode provocar transformações sociais e pode inspirar ideias revolucionárias e alegres, um senhor que já era professor reconhecido no ano em que nasci, que merece tantos abraços.

Olho para ele e penso que sempre serei a revoltada contra as injustiças sociais. Nunca vou compreender, assim como Ariano Suassuna não compreendeu um jornalista que endeusou a Banda Calipso, como podemos endeusar a opinião de articulistas, cronistas, radialistas tão despreparados sem antes buscar raízes mais profundas do conhecimento humano para pautar nossas verdades. É mais fácil, eu sei. A busca é dolorosa, eu sei também – estou há dois meses na página vinte um de “Vidas Desperdiçadas”. Também sei que é preciso e é uma riqueza sem fim.

Acrescento que Bauman é uma opinião, há outras anteriores, contemporâneas, virão outras mais instigantes. Afinal essa é a dinâmica do mundo e assim somos nós, só não quero ficar na introdução.

18 de novembro de 2013

meu nome é TINDER

Testando, un, deux, trois... Foto: Google :}

Sempre flertei com as novas tecnologias. No caso deste texto, considere "novas" sinônimo de "do momento". Nasci no tempo da máquina de datilografia, mas vi nascer o Atari e o VHS, o toca-fitas auto reverse e o Betamax, o Macintosh e o iBook.

Muitas dessas tecnologias passaram apenas por meus olhos curiosos nas vitrines, mas outras foram mesmo testadas, como se fosse uma especialista, com direito a resenha para os amigos com ar de visionária:
- Considero o Beta com melhor qualidade de som e imagem, mas o futuro está no VHS – falou a garota de doze anos e franja cobrindo os óculos.

Assim prossegui com os softwares e recentemente, aderindo à moda dos “i”, estou fominha de “APPs”. Instalo e desinstalo, só de farra. O que estou testando recentemente chama-se Tinder, promessa para os corações solitários. Só um parêntese para explicar o uso, a ferramenta mapeia pretendentes a uma distância que você determina, basicamente pensando no esforço que fará para se deslocar por amor. Clique em um xis ou um coração e abra as portas da esperança.

No dia do teste, empolgação total, todas as mulheres saltitando para ver o que o radar captava e eis que aparece para mim um cara de óculos, cara de intelectual, livro embaixo do braço. Já gostei. Cliquei no coração. Ele me curtiu também. Opa! Abriu o chat. “Oi”. “Olá”. “Tudo bem?”. “Tudo legal”. “Bem, estou aprendendo a usar essa ferramenta, você já está aqui há muito tempo?”. “Eu não falar português. Você falar grego?”. “Ôxe, eu não.” Melhor checar a distância que coloquei.

Tentativa número dois. Vejo um, não agrada, xis nele. Outro, hum, também não gostei muito, xis. Desse gostei. “Meninas, olhem esse aqui, é interessante”. “Credo! Esse é o ex da colega da minha amiga que te contei o caso na semana passada! O que ele está fazendo aí? Descarado!”. “Aff! Esquece, encosto dos brabos."

Tentativa número três. O radar gira, gira, a expectativa aumenta, aparece na tela um homem... com uma galinha preta no colo. Socorro! Fim de linha pra mim.

Desinstalando o Tinder. Quem quiser tentar, boa sorte. Para mim essa ferramenta não tem futuro algum.

3 de novembro de 2013

meu nome é ENTREVISTA



Sim, imagem linda capturada do Google Imagens. Não, não sei quem é o autor.

Sim, sou uma contadora de histórias. Não, não sou uma blogueira. Sim, sou uma apaixonada por gente. Não, não estou apaixonada especialmente, ou talvez esteja mas tenha medo de admitir. Sim, amo o mar. Não, ultimamente não tenho ido a praia. Sim, meu mundo interior é tempestuoso. Não, ainda não sei se é isso que provoca minhas dores de cabeça. Sim, os olhos. Não, as mãos. Sim, estou ansiosa por 2014. Não, ainda não bati todas as metas do caderninho de 2013. Sim, sinto saudades de muita gente. Não, não gosto de telefone. Sim, hoje estou especialmente feliz por meu sobrinho ter andado de bicicleta sem rodinha. Não, ele caiu só uma vez. Sim, adoro acompanhar seus aprendizados. Não, não preciso ter filhos para provar o gosto de ser responsável por alguém. Sim, isso mesmo, cresci achando que sou responsável pelo mundo. Não, nunca consegui me afastar desse pensamento. Sim, meus trabalhos sempre tiveram essa vertente humanista. Não, não gosto de chuchu. Sim, gosto de rasgar papéis e limpar a mente. Não, o lixo não passou hoje. Sim, é azul minha cor preferida. Não, não gosto muito desse tipo de música. Sim, adoro poesia. Não, nem todas. Sim, esse cara me fez muito bem. Não, esse não está na lista de meus preferidos. Sim, a simplicidade é sempre mais amorosa. Não, continuo alérgica aos ácaros. Sim, prefiro os sapatos baixos. Não, nada contra os saltos. Sim, sinto-me bonita quando meu cabelo está "de bem" comigo. Não, ele às vezes não está. Sim, bichos fazem parte de minha vida. Não, estou sem nenhum no momento. Sim, verdade, um morcego tem visitado a cozinha. Não, não tenho mais esse medo. Sim, converso sozinha. Não, não acredito que estou só. Sim, tenho crenças e muita fé. Não, prefiro ler sobre temas introspectivos. Sim, Clarice está entre meus autores preferidos. Não, nada contra Paulo Coelho. Sim, ouço música frequentemente. Não, axé music só atrás do trio elétrico. Sim, nasci em Salvador. Não, não sou negra. Não, não sou parente de ACM. Não, não sei fazer acarajé. Sim, podemos mudar de assunto, por favor. Não, não tenho planos de me mudar para Marte. Sim, tenho um lindo plano ainda embrionário. Não, não posso contar. Sim, todos vão gostar. Não, acho que todos precisamos de nossos segredos para viver. Sim, faz parte da vida o não-contar. Não, não sou anti-facebook. Sim, conto quando for possível. Não, você será o primeiro. Sim, não esqueço dessa promessa, prometo.