27 de dezembro de 2013

meu nome é KARINA (ALADA) BUHR

Depois que desliguei, só queria andar, andar por aí, sem rumo, sem destino. Só queria ir embora daquele vazio imenso. Da solidão que era não ter mais a esperança de tê-lo um dia pra mim. Andando, por motivo de força maior. Eu queria muito ir embora dali. A calçada era crespa, ríspida, crassa. Acelerei o passo para ver se esquecia mais rápido. Corri para ser mais rápido ainda. Tropecei. Caí. Me ralei toda. Me perdi toda na bolsa derramada. Será que bati a cabeça? Acho que perdi a memória. Já tinha me cortado e estava na calçada sem fazer ideia. Levantei por que não tinha jeito. Meio tonta, meio zonza. Sacudi a poeira da roupa. Não me lembrava direito por que corria tanto. Louca, pensei, um dia me machuco de verdade. Andei manca umas duas quadras, ainda inquieta com a memória gaga. Em flashes veio uma história colorida em sépia: ele, eu, nós, ele só, eu só, ele indo, eu ficando, nós nunca mais. Uma música insistente. Deu vontade de dançar. Uma pessoa passou apressada. Outra passou mais apressada. Percebi agora o grande movimento na calçada. Vou dançar assim mesmo, resolvi. Enquanto eu dançava, tinha um desenho do chão que corria. Bati forte a cabeça mesmo, mas não lembro do momento, pensei. E continuei dançando a música dentro de mim. Tudo de acontecer acontecia. As pessoas passavam e não me olhavam. Dançava por dentro. Dancei toda a música, sozinha, acompanhada. Com ele, dancei no bailinho dos 15, atrás do trio, no maracatu, na banda de ipanema, na praça de cuba, no caminito, no meio do coliseu, na rua da mangueira, no café cancun, na praia do espelho. Cansei. Sentei. E na calçada eu sentada vivia. E revivia. Sem fazer ideia. Como fui parar ali? Memória oca. Onde me cortei assim? Porque esse cansaço todo? Melhor voltar pra casa, começou a chover. Como vou fazer para não me molhar? Ai! Coceirinha nas costas. Preciso de uma quina. Toda vez que fazia essas observações bobas lembrava dele falando: E a falta de imaginação me fez lembrar de você. Ele. Foi por ele que caí. Por ele me cortei. Por ele dancei. Por ele. Lembrei. Está anoitecendo. De tarde, se anoitecer, tudo se acaba. Vou levantar daqui logo. Ai! A coceirinha continua... O que é isso? Asas? Ótimo! Agora é que vou me molhar pra valer! E aí crio asas. E aí elas querem voar. Já imagino pra onde vão querer me levar, essas asas enormes e lindas! Aqui é assim. Nesse papel virtual. O que a gente inventa a gente tem. E aí crio asas e aí elas querem voar.

25 de dezembro de 2013

meu nome é BOAS FESTAS

Minha árvore de Natal
É um galho seco no quintal
Fincado no meio do matagal
Da saudade que não tem final

Tem amigo pendurado
Cachorro, coelho e gato
Tem coração pra todo lado
Pisca-pisca de riscado

Vou começar pendurando os parentes
Depois os amigos carentes
Em seguida com os colegas aderentes
Findo com os conhecidos decorrentes

Vai ser lindo de ver o povo lá do Sudoeste e do Extremo Sul da Bahia
Do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste
Do Sul e do Sudeste e de Salvador
O meu graveto explodindo em magia

Do Peru (Martin), da Colômbia (Ana Maria)
Do Canadá (Lucas), da Espanha (Cleide e Tetê)
Dos Estados Unidos (Nêska, Chris e Tia Dulce)
Da Tailândia ou Portugal (onde o tuga estiver)

O mundo não segura a saudade
Desconfio que ele não tem braço por isso

http://youtu.be/AbwDjnWEDM4

meu nome é CLARICE FALCÃO

Para os leitores do bloguito que gostam de música como eu, ofereço, imersa de Clarice Falcão no dia de Natal, como um presente, a meiguice da voz dessa cantora dos olhos grandes e letras irreverentes, apresentada por minha mãe para mim. Essa é a trilha sonora que rola por aqui no meu canto de mundo:


 
Viva a música brasileiramente linda!
 

4 de dezembro de 2013

meu nome é SANTA BÁRBARA

A menina dos cabelos anelados olhava para a TV, hipnotizada com as comemorações do Dia de Santa Bárbara. A mãe passava por perto na hora, tentando escutar algo, mas só havia o barulho da TV. Qualquer coisa poderia sair daquela cabecinha. A menina de olhos grandes sempre tinha algo inesperado a dizer. Essa foi a confissão da mãe há alguns dias, não sabia mesmo como se comportar com aquela criança e suas colocações. Era uma mãe nova e a menina dos cabelos anelados não dava trégua na curiosidade e nas filosofias. Naquele quatro de dezembro, os olhos melancólicos dela continuaram na TV, enquanto a procissão passava. As bonecas espalhadas pelo chão perderam a graça, enquanto a imagem da Santa desfilava entre os fiés. A mãe não se lembra da narração do repórter, mas se lembra da frase que saiu da boquinha de três anos da filha: "Santa Bába, azudai pala o mundo ser feliz." E assim voltou a brincar, por que parecia que no fundo sabia que o mundo que a esperava adulta precisaria de muita ajuda e trabalho árduo. Aquele era o momento de ser criança e pedir ajuda aos mais velhos. Iansã entendeu o recado.

3 de dezembro de 2013

meu nome é CORINA

Certa vez tive a confirmação de que anjo existe. Havia uma senhora que sempre perambulava perto do meu colégio, ninguém chegava perto com medo dela fazer alguma coisa - a gente não sabia bem o quê, mas dava medo. Medo por que era velha. Seus cabelos brancos viviam despenteados. As roupas eram descombinadas, surradas pelo tempo. Vivia puxando conversa com quem encontrava, matando a solidão antes que ela a matasse. A gente não achava isso. Observava de longe e rotulava: sandices de gente que não tem o que fazer. Eu tinha 17, ela devia ter mais de 80. Mesmo assim conseguiu sentar no meio-fio, ao meu lado, e desfiar uma longa e lúcida história sobre sua vida, seus sonhos, amigos, amores, distraindo minhas tristezas adolescentes. Foi o mais marcante dos intervalos do colégio. Ganhou até do dia do beijo roubado. É que sempre fui romântica, mas a paixão pela humanidade sempre se impõe no final das contas.