14 de dezembro de 2014

meu nome é METÁFORA

É, não dá para acumular histórias e querer despejar todas as aprendizagens em um único texto... Muitos dias em silêncio dá nisso. Ansiosa para escrever, mas o quê? Como escrita subjetiva que prefiro, estimulo você que lê a escolher o fim dessa história que narro abaixo.



Em um pote com muitas sementes vivia uma sementinha diferente. Sim, ela era muito diferente de todas as outras, mas não sabia disso: guardava o sonho de alcançar as nuvens. Aparentava ser igual, pois cada uma tinha um formato, uma cor, e ela era apenas mais uma, com seu formato e sua cor. Contudo era diferente. Daquela semente brotaria uma planta, muito parecida com todas as plantas que brotam, primeiro tímidas ao sol, depois vão tomando corpo, virando planta de verdade, crescendo com a chuva, explodindo em cores na primavera e em sabores no outono. A diferença da semente que viraria planta não era o futuro que a esperava, era a consciência do presente que a oprimia. Tantas sementes naquele pote, ela ali no meio de tantas, como pular para fora, fincar na terra e ter a chance de dar conta desse futuro todo? Teve uma ideia. Fez força, muita força e mais um pouquinho de força conseguiu produzir sua primeira espital verdinha. Esperou o momento do humano que semeava chegar perto do pote para balançar a espiral miudinha. O esforço foi grande, o resultado não. O humano saiu sem dar bola. Ela não desistiu. Mais concentração e tempos depois uma folhinha miúda surge na ponta da espiral. Quando o humano volta para o pote, algo lhe chama atenção. No meio das sementes uma brotava. Com esforço ele conseguiu separá-la das outras e, com cuidado, plantou-a no jardim. Vai dar certo, pensou a semente, agora consigo conquistar as nuvens. Fácil não seria. A terra machuca, o vento parece que quer acabar com tudo, chuva demais, sol demais. Ela firme, aprofundava as raízes conquistadas, engrossava o frágil caule. Perdeu umas folhas para o vento e o sol castigou sua persistência. Está lá no jardim, não virou árvore, mas guarda sua esperança.

Que final você daria para essa história?

16 de novembro de 2014

meu nome é SUBVERSÃO

Fui dia desses no supermercado e não levei uma lista. Peguei o carrinho, sabia que tinha apenas três quartos de hora para me virar nos corredores, confiando na minha memória fotográfica sobre o que faltava na despensa e geladeira.
Comecei ordenando meu pensamento por seções: alimentos, limpeza, bebidas, frios. Fui distraída, passeando apoiada no carrinho, concentrada em ser objetiva. Uma compra sem lista pode ser traiçoeira. Para mim especialmente no departamento de artigos de limpeza. Abro os tubos, cheiro todos. Adoro desengordurantes, desinfetantes, detergentes, paninhos coloridos, sabão líquido, amaciantes, cloro com ação mega power. Só nessa seção passo metade do tempo, além de correr o risco de gastar mais dinheiro com coisas que realmente não preciso. Nesse ponto preciso de lista.
O supermercado e lista combinam. Eu e lista não. Em defesa dela e minha, digo que as listas estabelecem ordem; reduzem a ansiedade; dão folga para a memória; apoiam estratégias; definem o olhar. Contudo, limitam. Não descobriria metade das novidades no mundo se seguisse listas de afazeres o tempo todo. Me livro delas especialmente nos domingos.
Pensei no texto exclusivamente pela falta de ordem que estabeleci hoje, um domingo despretensioso de novembro, com céu nublado e baixa disposição para dirigir até qualquer lugar. Fiz uma lista e não fiz nada que estava escrito nela. Ao contrário, subverti meu domingo num dia de aprendizagem. Assisti cerca de dez vídeos com palestras e documentários sobre coisas que atualmente me interessam. Li textos imensos, de piadas a poesia, conceitos científicos e orações. Jiboiei vendo filmes que sempre prorroguei assistir. A única rotina foi a faxininha da casa, todavia feita de traz pra frente, alterando um regulamento particular, confundindo meu senso de ordenamento.
Acabo o dia com uma sensação de frescor na cabeça. Ainda tenho planos para hoje, estendendo a intenção de viver um dia sem agenda. O que se aprende com isso? Não sei mesmo, talvez o prazer de sentir-se livre das amarras das programações. Mesmo assim vou acabar esse texto com uma lista, das coisas que me dão prazer, sem escala de preferência:
- observar o mundo
- perambular por ruas de lugares que pouco conheço ou não conheço nada
- sorrir de coisas sem importância aparente
- sentir bons cheiros que não agridem as narinas
- ler qualquer coisa, a qualquer momento, preferencialmente o que me faz virar a cabeça para o lado
- ouvir o som que combina com o momento
- despertar meu ser sinestésico
- a comunhão do pensamento
Era isso, sobre listas e pequenas revoluções que me resgatam a vontade o assunto de hoje. Estado de espírito dividido, penso agora em fazer a agenda de amanhã. Tanto me aguarda na semana... Ainda tenho poucas horas... Suspiro redentor.

29 de outubro de 2014

meu nome é ANTIBIÓTICO

O ano novo acontece em mim duas vezes no ano: uma na virada do ano, outra na virada dos anos. Para os dois momentos preparo-me como uma noiva. Por fora tudo lindo, por dentro tudo em turbilhão. Neste ano adoeci no ano novo dos anos. Imagina uma noiva doente? Caos. Não consegui me "preparar" como faço todos os anos. Estava fraca, sem interesse. Deixei o noivo no altar.
A ausência desse tempo de reflexão está me fazendo falta. Reequilibro minhas forças nesses momentos onde paro, escrevo, mentalizo, recebo. Parece que o tal "inferno astral" esqueceu que tem uma data para terminar e resolveu invadir meus dias além do esperado. Mostrou algo que agora, escrevendo sobre ele, percebo com muita clareza: meu corpo físico precisa de mim.
O coitado pediu arrego depois que resolvi esticar toda a corda. E não foi a primeira vez, nem mesmo a segunda. Só que desta vez foi bem espertinho: sacudiu suas asinhas bem no primeiro dia de férias, às vésperas de meu ano novo. Sabidinho, conseguiu o que queria. Agora é visitar médicos, fazer exames, comer melhor, fazer atividades físicas, ganhar consciência de que sou corpo além de alma.
O que leva a gente a se perder assim? No meu caso não foi exatamente isso; sempre fui inclinada a considerar meus pensamentos e raciocínios muito maiores que meu corpo. Olhava meio com desdem para o pobre corpinho. Para que tanto cuidado? Viva os analgésicos! Ops, ingenuidade de uma mente egocêntrica. Corpo doente, cabeça destruída no mesmo instante.
A situação foi mesmo desagradável. Não consegui nem falar com a médica que me atendeu no hospital, chegando ao ponto dela perguntar para minha irmã se eu era muda. Nem consegui levantar a sobrancelha esquerda, com minha cara de "que-pergunta-sem-cabimento". Minha irmã explicava como tudo começou - também sem entender a pergunta descabida - enquanto a doutora-politicamente-esquisita me examinava. Fiquei com pena da pobre. Quando viu meu o grau de desidratação, saiu chamando todos os enfermeiros de plantão, quase pedindo uma maca para me transportar por poucos metros do consultório até a sala do soro.
Resultado: soro, glicose, remédios e muito sono depois, retorno para casa, cabelo daquele jeito sem comentários. Qual a cabeça que pensa certo com um choque de realidade da fragilidade do seu próprio corpo? Só pensava em chegar numa cama, deitar e dormir. Nos dias seguintes, um torpor nas pernas que me fazia andar feito astronauta. Sim, isso durou alguns dias até que peguei uma gripe que acabou de me derrubar. Do cabelo eu desisti tamanho o estrago; suponho que perdi a coordenação também para minimizar o aspecto de meus rebeldes fios eternamente sem destino.
Onze dias depois, escrevo esse texto sem saber o que quero dizer. Estou restabelecendo a amizade com meu intelecto através dos livros leves, música tranquila, sem muita atividade raciocinada. Deixei a cabeça de férias a pulso. Preciso mesmo relaxar o cérebro que me tornei desde que me entendo por gente. O Tempo, usando de jogo sujo de vírus e bactérias, gritou isso em meu ouvido. Por sinal, não estou muda, mas acho que um pouco surda sim. Será da gripe ou da teimosia em exigir mais do corpo do que ele está podendo dar? Hmm, disse o quê?

28 de setembro de 2014

meu nome é MOCHILEIRA


Setembro indo embora, inferno astral chegando, e eu com a bagagem cheia de uma das coisas mais preciosa que a vida me deu: meus amigos. Espalhados pelo mundo, tenho muitos, queridos, guardados preciosamente no lugar mais especial das lembranças. São eles que guardam minhas memórias, minhas experiências que me fizeram ser o que sou. Companheiros de tantos momentos, sem laços de sangue, encontrados na vida, sem que a gente lembre ao certo em que momento foi, mas é certo que foi no momento certo.
Neste setembro tive encontros muito especiais. De pessoas que guardam pontas de minha história que necessito lembrar às vezes para segurar a onda da realidade. Essa gente que é o conteúdo daquela mochila apoiada nas costas, que levo para onde for, mesmo atravessando abismos. Meu alimento, meu pé no chão e cabeça nas estrelas.
Tem gente que conheci no meio do carnaval, pois existe sim chance de almas afins se aproximarem em meio a dois milhões de foliões numa avenida de Salvador. Tem gente que se aproximou numa sala de aula lotada de interesses e diversidade. Tem gente que chegou por meio do trabalho, numa empresa de muitos empregados. Tem gente que chegou manso. Tem gente impositiva. Todos queridos.
Hoje, especialmente, revi grandes amigas. Elas fecham setembro dos reencontros. Nos conhecemos quando eu tinha 17 anos. Uma outra vida, praticamente. Guardamos características daquele tempo, mas não somos iguais. O melhor de tudo é perceber que o que foi construído naquele tempo não acaba. Essas são minhas raízes, nada mais. Não é um lugar, não é uma idade, é um estado de espírito. A base de tudo é intangível e chama pelo nome de amizade.

23 de setembro de 2014

meu nome é ELEIÇÕES 2014

 
Cansativo esse período eleitoral. A propaganda política parece conversa de comadre. Fofoca, denúncias, falácia. Queria assistir campanhas em outros países para ver se é diferente ou se é uma doença generalizada. A seriedade já foi pelo ralo. Na TV é uma lástima, no meio das avenidas, aqueles infames cartazes que o vento leva para o meio da rua e atrapalha o trânsito (mais ainda).
Vamos pesquisar para entender essa salada de fruta azeda. Fiz meu filtro e já sei quem será meu Federal; só. Os outros candidatos parecem ser uma releitura torta um do outro. Céus! Difícil, mas não vou me render ao nulo. Apesar de estar namorando com ele esses dias. Seria lícito dentro do jogo democrático um voto nulo, mas não seria prudente. Não é tempo de ser neutro no mundo.
Como diz meu sobrinho, estou muito "despositiva" hoje - contrário de positiva. Textos são assim mesmo, dizem tudo que a gente quer, dizem nada sobre a gente. Fato que, quem não quer passar por esse mundo como poluição de ônibus, pesquisa antes de votar. Só deixo meu protesto contra os oportunistas dos nomes bizarros: política não é palhaçada. Acorda aê!

17 de setembro de 2014

meu nome é CRÊR

Preciso refrescar a cabeça! Fonte: Google Imagens

"Já vi tudo, só falta acreditar"

Um texto com epígrafe entre aspas para ilustrar um estado de espírito que pode ter sido inspirado desde o período eleitoral, até violência urbana, ou amores tortos. Tudo isso ronda minha cabeça (com dor) hoje. Seria muito mais fácil se meus escritos falassem de momentos de beleza e flores, mas não é bem assim que a banda toca quando estou "a toa na vida".
Escuto uma música e outra pra espantar os pensamentos, tomo um analgésico, danço pela casa, bebo suco de limão, contudo o pensamento (com dor) está impregnado em mim. Essa dor - se é que posso descrever uma dor física de forma mais realista que descrevo as dores da alma - essa começa um pouco acima dos olhos. Dor conquistada depois de um dia cansativo, de baixa energia.
Escrevo para lembrar que já vi muito, preciso agora acreditar. Acreditar que muitas pessoas podem ter deuses dentro delas, criando mais tormentas do que jardins. Alguns dos cenários que frequentei durante minha ínfima estadia no planeta, fazem com que acredite que vejo, mas não me permitem aceitar.
Meus olhos que vêem, não acreditam na distorção social que estamos metidos. O que fez o homem da humanidade? É realmente assustador ver coisas; não olhar, digo ver. Não posso acreditar no prazer da violência, da ausência de harmonia, na preguiça, no radicalismo, no vazio. Desejo, imploro não acreditar no que vejo. Só que aí aparece a velha conhecida dor. Acima dos olhos, mais do lado esquerdo.
Aumento o som. Ouvir Otto nesses momentos é espetacular. Todas as peles são cruas, amigo, e alguns corpos parecem desabitados de alma. Não o meu - eu a vejo, só não acredito. Acredito que posso caminhar mais um pouco, mesmo com os pés e a cabeça doendo muito.

23 de julho de 2014

meu nome é REFLEXO

O cenário é noir. Noite escura, quarto escuro. Um enorme espelho. Uma mulher mirando seu reflexo. Vê-se uma silhueta. Pouca luz, impedindo a visão. Um brilho passa pelo espelho. Devem ser carros, penso. Poderiam ser estrelas cadente, desejo. A mulher permanece em pé. O tempo passa mudo. Ela olha para ela. Eu olho para ela. A tensão invade o espaço entre seu corpo imóvel e a imagem refletida. Uma mão se move. Pisco o olho. Não identifico se é a mão do corpo ou da sombra refletida. Faz um carinho melancólico na face uma da outra. Outra luz passa. Sinto algo. Viro-me assustada. Deve ter sido o vento que sacode a cortina. Continuo observando. São tão parecidas. Conheço alguém muito parecida com ela, mas não me lembro... A imobilidade continua. Quando observo, o tempo para. São dois, dez, mil minutos sem respirar. A mulher permanece na mesma posição. O reflexo também. Percebo uma mudança. É sutil. Não tenho certeza. Deve ser no olhar. Abaixo a cabeça, cansada da posição. De repente um barulho forte. O espelho se parece com papel rasgado. Levanto a cabeça e me vejo. O dia está nascendo.

17 de junho de 2014

meu nome é ARIANO

Obra de Mestre Vitalino e eu... Caruaru-PE

Esse período de São João acende uma fogueira em meu coração, plagiando a simpática música junina. Coisa linda é ver bandeirolas e balões enfeitando os lugares! Fico toda nostálgica... As comidas são as preferidas e lambanceiras como no tempo de infância. E o amor, ah ele, fica um encanto. Correio elegante, casamento na roça, forró dançado a dois, tudo deliciosamente remete a um tempo... que existiu mesmo?
Nunca existiu esse tempo para mim. Nunca conheci alguém que abalasse meu coração nas festas juninas. Nunca dancei com um belo dançarino que me cortejasse ao som da sanfona. Lástima! De que então sinto saudade quando começa o cheiro de quentão com milho assado?
  • Hipótese 1: em algum momento enraizei o estereótipo do romance no arrasta pé, antecedendo ano após ano a sensação de que vai florecer alguma coisa boa na safra, decepcionando com o solo seco das relações amorosas...
  • Hipótese 2: espero pelo secreto admirador que enviou um correio elegante para mim, escutado no alto-falante do parque enquanto comia maçã do amor, que nunca se apresentou...
  • Hipótese 3: acredito nas letras melancólicas de "Seu" Luiz, Dominguinhos e Flávio José; ouço Santana como se ele estivesse falando de minha história; e juro ouvir uma banda de pífano tocando (baixinho) ao fundo de cada um dos momentos lindos de minha vida...
  • Hipótese 4: tem feitiço nas comidas a base de milho...
  • Hipótese 5: sou uma romântica, mesmo que jure de pé junto que não...
O fato é que, particularmente (como diz Juba), sou apaixonada pela cultura junina e o que ela me inspira. Tempo honesto. Tudo parece que segue num ritmo adequado, em escala humana. Sem pressa, sem preguiça, sem máquinas a não ser do algodão doce.
Isso tudo deve ser por causa de meu nome, quase inspirado em Ariano Suassuna...

Cordelista eu queria ser
Escrevendo de frente pra trás só pra ver
A expressão do povo todinho ao ler
Enquanto entorna a cabeça até doer

Sendo que pra mim morrer
É deixar na vida de poesia ter
Só que isso não vai ocorrer
Pois sempre tem um Ariano presente nesse meu viver
Um passarinho preso no corpo de um querer
Um abraço gostoso pra o coração aquecer

E chega dessa conversa mole de sofrer
É hora de embaralhar as palavras e texto bonito escrever
Pois já é noite junina, daquelas igual a olho ao adormecer
Vai pesando, vai fechando, até o sonho acontecer

7 de junho de 2014

meu nome é LITTLE JOY

Garimpados hoje, Little Joy, com Rodrigo Amarante :)

25 de maio de 2014

meu nome é EDADUAS

Dele assim deu saudade... Fonte: Google salvador da pátria

Senti a maior saudade de mim esses dias. Primeiro no show retrô do Léo Jaime que cantou minha adolescência. Vesti preto e coloquei um moleton do Brasil, estilo rebelde aos 15 anos. Era mais ou menos isso o que era, uma rebelde totalmente sem causa. Lá em casa os pais falaram um dia que confiavam em mim. Incorporei e danou-se. Não consegui quebrar o casulo todo. Acho que fiquei cotó de uma asa. Era uma adolescente que queria ser rebelde, mas não era. Só meu cabelo se encarregou desse papel; alías, até hoje.
O outro estopim da saudade foi um grupo criado com a turma da faculdade. Tive crises de riso de doer a barriga das lembranças e atualizações da turma. Este ano faremos 20 anos de formados. Foi um tempo daqueles. Muito sacrificante também. Comecei logo a estagiar. Dinheiro curto. Tudo parecia bem pesado para conciliar. Estágio, engolir algo, faculdade, casa, estudar, tudo de novo. E o cabelo, aff!
E a saudade de mim... Sinto falta de, de... Hum, deixe-me ver... Hum... Não estou certa, talvez, hum... Pensando bem, estou melhor hoje do que ontem. Estarei melhor amanhã do que hoje. Saudade é palavra de responsabilidade, significa falta, vontade de resgatar. Isso eu não sinto por mim. Já fui. Agora sou. Melhor ficar atenta ao espelho...

20 de maio de 2014

meu nome é G.H.

Cortina voando esconde o quê? Por trás dá pra ver a luz da rua. O vento sopra fino. Nada está como antes. Música em Mi sai da caixa de canto. Perto tem uma estante. Sabedoria de livro é cheirar a poeira. Espirro, fecho. Esse não dá. A planta precisa de água e poda. Sofá macio, melhor nem olhar. O chão merece mais cuidados da vassoura. Ouvi dizer que muito aparelho junto na mesma tomada não é bom. A TV que aguente. Qual é mesmo aquele canal que gosto? Cortina voa mais alto. Fecho a comunicação com o lado de fora. Banco no meio da sala não devia. Hum, qual é mesmo o livro? Talvez seja o que emprestei. Aquele sobre Paris. Sinal da cruz pela visão da Aparecida. Música agora é outra, som de fonética. Poeira não é coisa de Deus. Pode ser esse. Clarice sempre para espantar pensamento pequeno. Almofadas, mais uma sustentando meu pescoço. Meu dedo opositor direito dói. Sono rima com ansiedade. Mais um espirro. Preciso ver essa rinite. Página 87 e leio o que preciso escrever aqui:
Estava sentada, quieta, suando, exatamente como agora - e vejo que há alguma coisa mais séria e mais fatal e mais núcleo do que tudo o que eu costumava chamar por nomes. Eu, que chamava de amor a minha esperança de amor.

11 de maio de 2014

meu nome é MAINHA

Nossa mainha e eu, apertando o olho para agradar.
Era uma vez uma linda princesa que morava num lindo castelo, sonhando com o príncipe encantado que apareceria para levá-la num cavalo branco para morar em terras além mar; assim seriam felizes para sempre, com seus lindos filhinhos.
Na vida real aconteceu assim: minha mãe conheceu meu pai e seis meses depois estavam casados. Ele a levou do interior da Bahia num jipe desconfortável para morar em Salvador; ela logo engravidou de mim. Seis anos depois teve minha irmã.
Isso não é lá um conto de fadas, mas não foi assim também que ela nos contou essa história.
Minha mãe sempre preencheu nossa vida com fantasia, contando histórias com detalhes e efeitos sonoros que fazia com que a gente achasse que tinha vivido aquele momento também. Por exemplo, até hoje eu imagino meu pai chegando na cidade, todo bonitão só que de gesso no pé, vendo minha mãe na festa da cidade e apaixonando-se imediatamente. Como chamar a guria para dançar com pé imobilizado? Esse era o modo de paquerar da época. Decidido foi para casa, quebrou o gesso, calçou o sapato lustroso, conquistou a bela moça de longos cabelos e mini-saia, e sofreu no dia seguinte com o pé pra cima super inchado.
Vou pular a história do jipe para contar que quando eu nasci de parto normal, o trauma maior de sua vida e talvez da minha também, o médico me levantou e me mostrou para ela. A descrição de minha mãe sobre sua primeira impressão foi: que menina feia do olhão! Imagina como é ter mãe sincera. Nunca sofri bullying por que já nasci ouvindo isso. Depois ela disse que de roupa fiquei bonitinha.
Essa é minha mãe, um pedacinho mínimo da história que nos une, minha grande companheira de jornada. Minha irmã e eu tivemos a honra de tê-la como presente nesta vida. João Victor tem a felicidade de tê-la como vovó. Esse é o núcleo que agrega quem conhecemos ao longo da vida, a família de laços fraternos, os tantos que se aproximam percebendo o quanto o amor está presente entre nós.
Por isso, quem sabe, talvez, seja até verdade... Era uma vez uma linda princesa...


10 de maio de 2014

meu nome é DO CONTRA

Antes que a foice de Dona Morte venha atacar novamente quero manifestar aqui minha concordância com Veríssimo a opinião sobre ela: "sou contra". Essa semana foi Jair Rodrigues, mês passado Gabriel García Marquez e José Wilker.Não aguento mais ver velório. É muito triste! Lembro do de meu pai. Saí enquanto os que nem conheciam ele direito ficaram chorando em cima do corpo. Uma espécie de etiqueta da velação do corpo presente. Fiquei olhando para o céu, para as árvores próximas, para a terra seca. Em que matéria meu pai poderia estar se transmutando? O que ele queria que eu estivesse fazendo por ele já que igreja e oração nunca foi seu forte? Talvez continuar respirando fosse uma boa; era o mais difícil naquele momento.
Os velórios são muito difíceis. Minha tia um dia escolheu o vestido (aparentemente) mais discreto para ir para um. Cinza, meio da perna. Só não reparou na enorme caveira nas costas. Contei isso aqui? Depois disso eu dou risada em todo velório. Lembro dela e de nossa vontade de adequação a um lugar onde não tem jeito de estar adequado, pelo simples fato de estarmos vivos e ali estar um humano, sua individualidade, sua história, sua autoconsciência, inertes na morte da matéria.
Sim, acredito na morte da matéria. Não acredito na morte do espírito. Por mais que estude, que vivencie, admito que há algo além. O problema é que a comunicação é rudimentar ainda. Isso me incomoda. Sou contra a morte como Veríssimo por que ela ainda leva para sempre quem nos pertenceu por toda uma vida! Imagine nunca mais ouvir a risada de Jair Rodrigues? Cruel. No caso de Gabo sempre há a psicografia, mas sempre tem um ar evangelizador que faz a gente desconfiar que morreu e virou anjo.
No caso de meu pai nunca busquei encontrá-lo nos médiuns. Acharia estranhíssimo ver meu pai com aquela voz grossa incorporado numa médium frágil, tentando falar comigo com voz de alma. Em mensagem psicografada, nem pensar. Já era difícil entender sua letra vivo, imagine desencarnado.
Se Deus me permite um manifesto, sou a favor da inovação nos meios de comunicação entre vivos e mortos antes que a saudade leve a gente para a desesperança. Sua requisição para ampliar a orda de boas almas está grande este ano, deixando a gente com um vazio grande. Tá indo gente querida e admirada de todo lado. Deixa uns mais um pouquinho, por favor. O trabalho aqui está muito duro, tem gente matando gente por fofoca, pai matando filho. E o significado de amor nem se descute mais, é só um hashtag nas redes sociais.
A morte de quem tem o que levar de bom para o mundo? Sou contra.

5 de maio de 2014

meu nome é AMIZADE

Separados somos fracos, juntos somos Um! Fonte: Google - Mandala da Tarde
E com a companhia de meus amigos mucurienses, o tempo se estende. São horas de agradável encontro com a essência da amizade, do respeito, da confiança, do aconchego. É tão simples estar com eles que é difícil de explicar.
Li um dia que “definir é limitar”. Então resisto a definir amizade, mas gostaria de traçar um perfil do que entendo por isso, ou melhor, uma rota dos caminhos que esse sentimento percorre para chegar a um lugar especial na gente e permanecer ali, independente do tempo e espaço.
O ponto de partida sou eu. Tudo depende de como olho para o outro. Observo muito, por isso raramente me decepciono. Reconhecendo minhas imperfeições, a aproximação passa por muitos filtros, especialmente com relação aos valores. Vou mansinha. Primeiro uso meu instinto, depois escuto minha intuição. O resto é adequação de quanto quero avançar naquele caminho.
Parece uma rotina, mas não tem nada disso. O tempo que percorro esse caminho é livre como o vento. Pode ser uma amizade instantânea, uma suave. Aquela que começa na guerra e institui com laços fortes. A que começa torta e lhe salva a vida um dia.
Reúno todas elas em mim. As de Mucuri são especiais, essencialmente por que aconteceram numa intensidade que desconhecia. Em uma imagem, penso numa mandala. Visto por parte, somos pedaços pintados na tela do mundo, cada um com sua individualidade, seus pequenos e grandes problemas, manias diversas, sotaques variados - o mapa do Brasil é todo marcado pelos cantos que cada um anda. Só que juntos seja presente ou à distância, nos transformamos num círculo harmônico. Cores certas nos lugares certos. Viramos um lindo jardim.
O jardim está em festa! Conseguimos integrar presencialmente parte desse grupo num feriado. As lembranças transitam juntamente com o presente e os desejos de futuro. Nunca houve separação, agrega-se com facilidade quem quiser dividir a celebração. É uma experiência de respeito acima de tudo. Ter esses amigos: um privilégio que agradeço a Deus todos os dias.

18 de abril de 2014

meu nome é GABO

Temos todo o tempo do mundo, Gabo... Fonte: Google Imagens
Como pode um vazio tão grande desses ser provocado por um estranho? Sim, porque o Sr. Gabriel García Márquez nunca frequentou minha casa, nem meus pais o conheciam, nem foi contemporâneo de meus avós. Nunca fui a Colômbia ou ao México ou a Cuba. Entendo pouco do espanhol, leio menos ainda. Acontece que ele conseguia dizer o que eu não consigo mas sinto. Ele escrevia o que eu quero escrever mas não alcanço. Compartilhamos a alma. Nos reconhecemos na interseção dos sentimentos. Por isso hoje sinto muito por não ter tido a oportunidade insólita de ter ido lá tomar um cafezinho com ele antes de sua partida para outro plano. Em seu tempo de senilidade as encantadas histórias lapidadas por seu talento devem ter se transformado em olhares vagos, conversas desconexas, abraços sem hora. Perdi de ver isso de perto. Podia ter batido em sua porta, como um Florentino perdido, com uma flor e meus livros nas mãos, oferecendo leitura e memória em outra língua, café quente e companhia para a solidão que não alcançam os presentes. Agradeceria a cada parágrafo a vida que brotou em mim por conta de seus escritos fantásticos. Recitaria o nome dos Josés Arcádios, todos eles, para que Cem Anos de Solidão fosse sua casa novamente. E contaria de traz pra frente a história de Florentino Ariza e Fermina Daza, o jeito mais lindo de se contar um amor em "O amor nos tempos do cólera". Essa nossa conversa iria render pelo menos alguns meses, ele sentado em uma poltrona, servido por sua companheira, eu em um banquinho forrado de veludo florido, bem abaixo da linha de seus olhos, aprendiz de sua transcendência, sedenta aluna do inatingível... Foi o Sr. García Márquez que descreveu o que eu entendo por solidão; espera; paixão; amor; velhice; doação; orgulho; paciência; esperança. Li a maior parte de seus livros há muitos anos, vou reler, não agora. Prefiro conservar o gosto do café, o peso do livro nas mãos, o som das histórias encantadas e a imagem de seu olhar alheio e alma inalcansável. Afinal, quem vai matar minha sede por frases assim: "Úrsula teve de fazer um grande esforço para cumprir a promessa de morrer quando estiasse." Ah, Gabo... Importa-se se lhe chamar assim?

Gabo desencarnou ontem, 17/4/2014, na Cidade do México e deixa uma obra literária viva para a humanidade.

8 de abril de 2014

meu nome é MURALHA

Pensei ter mergulhado na alma de uma pessoa no domingo. Um homem. Ele estava sentado numa cadeira de rodas. Tinha os olhos lacrados, a boca contraída, o pescoço tenso. As mãos apertadas, quase se feria, as pernas rígidas. Nada no seu corpo abria a guarda. A linguagem corporal era de afastamento. Comunicava que a gente mantivesse distância dele. Naquele espaço ninguém era bem-vindo. Mas era velho conhecido. Não aceitei a rejeição, mesmo que respeitando seu estado de solidão voluntária. Cheguei perto, falei manso, esquentei sua mão, elogiei seu aspecto, tentei uma aproximação primária. Fui com fé. Não invadi além do que me permitiria numa situação normal entre adultos. Era um homem adulto que me viu criança. Enquanto o frio deixava sua mão, os músculos relaxavam. Vi sua pálpebra mexer. Vi quando a abriu e me olhou. Olhou fundo e sorriu devagar. Fingiu fazer as pazes com o mundo exterior. Acompanhou as lágrimas que chorei. Me jogou um beijo de desculpas. Foi como se tivesse me ouvido perguntar "desistiu por quê?" Inoculou solidão novamente. Os olhos ficaram vazios, voltando-se para o mistério impenetrável dos velhos alheios. Eles constroem muralhas no seu entorno, pensam que a gente não descobre que nos enganam com a desculpa da senilidade. Era ali meu tio, e continuará sendo enquanto eu o reconhecer. Ele pode ter desistido, nós não desistimos dele.

30 de março de 2014

meu nome é CLARICE

Encontro-me nela em palavras e imagens. Fonte: Google Imagens

Gosto de escrever aos domingos. Acho que é o silêncio. O silêncio exterior entra em contato com um silêncio interior que pouco convivo - falo muito por dentro. Daí nasce a vontade da escrita. Fico ouvindo o silêncio e os sussurros. Eles me lembram as reticências...
"Os fatos são sonoros, mas entre os fatos há um sussurro. É o sussuro que me impressiona." Essa frase é da inclassificável Clarice Lispector. O ouvido dela era muito mais sensível. Devia ouvir sussuros mesmo entre sirenes.
Mas Clarice não se discute, era uma maestrina. Leio às vezes frases postadas como se fossem dela e logo sei: impossível. Se não entorta nossa cabeça, não é Clarice. Esqueça a poesia "batatinha quando nasce, esparrama pelo chão", isso não é Clarice.
"Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo." Isso é Clarice.
"Um mundo fantástico me rodeia e me é." Isso é Clarice.
"Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?!" Isso é Clarice.
"Ah viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não pára, viver parece ter sono e não poder dormir - viver é incômodo. Não se pode andar nu nem de corpo nem de espírito." Isso é Clarice, mas também me é...
E os sussurros continuam, aos poucos baixando o volume. "O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?" O domingo vai subindo o sol. A cidade acordando, o silêncio acabando, a realidade impondo-se. "O que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de si?" Clarice agora é livro fechado. Realidade é de competência dos sentidos outros. Dentro do equilíbrio da vida há tempo para a fruição? - pergunta minha Clarice interior, minha inconsciência. Não - responde minha razão. Corre que a vida é breve, há contas a pagar; daqui a pouco é outubro e você será engolida pela velocidade do futuro.
Passaram dois carros. Preciso acordar. "Tudo o que possuo está muito fundo dentro de mim."
Bom dia, Clarice. Desperte-me.

23 de março de 2014

meu nome é DESPERTAR

A joaninha domingando... Fonte: Google Imagens

Despertei hoje muito cedo para um domingo. Aproveitei para observar o movimento da rua quando não há carros circulando. Foi uma boa e revigorante surpresa. A natureza acorda cedo também. Os pássaros voavam sem destino. Alguns pareciam dançar, outros brincar de "correr" com o companheiro. Os micos conversavam em assobios pulando entre fios. As árvores balançavam preguiçosamente graças a brisa leve. Achei que ouvia até o passar das nuvens. A água da piscina foi visitada por pássaros com sede. O chão refletia o sol que ainda abria os olhos. Percebi um daqueles sorrisos de canto de boca quando a gente tem um insight. A vida independe do homem.

13 de março de 2014

meu nome é ENCANTO

"Quando se materializa no instante que se encanta"

Existem experiências muito particulares que a gente passa. As que motivam, apaixonam; as que reforçam nossas crenças, as que inspiram verdade. Dessa verdade que divido aqui com vocês, pois não sei falar hoje de outro assunto.
Tive o prazer de participar do projeto "Encontros Socioambientais com Lenine" hoje. Sabe fã? Sou eu. Perdi o show dele no Marco Zero no Recife Antigo agora no Carnaval, dias depois estou frente a frente com o cara. Ele é tudo o que canta! Uma pessoa de verdade, de pura verdade.
Quando Anna me apresentou a ele e recebi seu abraço, vi que ali estava alguém para se curtir, sem medo de errar. Alma massa! Descobrir seu envolvimento com projetos socioambientais foi uma surpresa boa, mais ainda ver sonho naqueles olhos, vivência do assunto longe dos holofotes. Reafirmava meu encanto a cada frase que ele falava.
Não conseguia chamá-lo de outra coisa senão de "poeta". Um poeta da vida real. Um cronista da vida humana. Gente que gosta de gente. Sensível ao caos do mundo, mas com esperança. Operário da música e da palavra. Atirador de sonhos à distância.
Pequena demais para escrever sobre tudo o que ouvi, sobre tantas experiências bacanas de outros sonhadores que colocam mesmo a mão na massa. Amei! Ouvindo Lenine... Acho que produzo ainda mil textos sobre hoje! Mas não hoje.

6 de março de 2014

meu nome é SUSPENSION OF DISBELIEF

Olinda! Quero cantar a ti esta canção
Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar
Faz vibrar meu coração, de amor a sonhar
Em Olinda sem igual Salve o teu Carnaval!

A inspiração para o texto é torta. Veio de longe, de meu culto e querido Tuga que me ensina tantas coisas maravilhosas sobre o mundo. Enquanto falava de todo o meu encanto por ter conhecido o Carnaval de Olinda e diferenças com o de Salvador, ele fala da ideia do "suspension of disbelief" ou "suspensão da descrença" provocada pela euforia do carnaval.

A ideia foi cunhada em 1817 por Samuel Taylor Coleridge (pesquisei). Em sua opinião, havia na literatura (aqui proponho o carnaval como objeto) uma "aceitação temporário como crível de eventos ou caracteres que normalmente seriam vistas como incrível". Isso permitia que os envolvidos apreciassem obras literárias ou peças teatrais como se vivenciassem o fato em si. É o que chamou de "fé poética". Samuel defendia uma ideia atual, por isso vou mudar o tempo verbal: o que acontece é que há uma suspensão voluntária da descrença em um dado momento da contemplação artística, permitindo uma interação real com personagens sobrenaturais.

Complicado? Não! Perfeito! No carnaval é exatamente isso que ocorre. Um cenário absurdo domina cidades inteiras e nos entregamos à folia, ao prazer, ao som, às fantasias, às máscaras, aos sabores, aos odores, tudo por fé poética, nada mais. A "suspension of disbelief" é imprescindível para a fruição, ou a realidade nos condena ao mal humor com a quebra da rotina.

Quem vive o carnaval, entende o que quero falar. Ainda que a intenção fosse escrever sobre como gostei desse carnaval e de tudo o que aconteceu, acabei produzindo um texto em linguagem pseudoacadêmica. Desculpem. Quero mesmo falar que apesar de "Lepo Lepo" ter tocado em todos os lugares que passei, minha fé poética não foi abalada: existe Olinda, suas ladeiras, os tambores do Maracatu, a turma divertida do "Enquanto isso na Sala da Justiça", o contraste do mar com o mar de gente.

Não desmerecendo Salvador, que precisa resgatar sua poesia, nem tampouco o Rio e seu glamour, foi em Olinda que vivi o melhor dos carnavais dos últimos anos. Por uma razão simples: suspensão da descrença de que todos podem se divertir juntos, sem cordas, sem arquibancadas. Foi uma experiência política e marcante. Povo que conserva sua raiz cultural, governantes que valorizam essa riqueza. Um dia vejo essa força na Bahia.

Cansada do cartel da swingueira, queria mais tambores no chão, mais afro e seus torços, menos palco, menos celebridades querendo aparecer, mais samba de Santo Amaro, trios mais baixos, confete, menos violência, mais alfazema.

Ainda em estado de suspensão da descrença, doando um pouco do que acredito para o leitor, tenho fé poética que podemos fazer carnavais cantando poesia como foi no Chão da Praça - "olhos negros cruéis, tentadores das multidões sem cantor".

24 de fevereiro de 2014

meu nome é MÚSICA

Tirei essa foto num restaurante em Porto de Galinhas - PE. Parece música!
 
Depois de abandoná-lo por alguns dias, volto ao bloguinho com sensações opostas para o desejo da escrita. Posso falar de tristeza e de alegria, de luta e de ócio, afinal minha vida está mais para um quadro de Monet do que para um Da Vinci. Se visto de longe é uma coisa; de perto, distorce totalmente - peculiaridades do detalhe.
Melhor comparar a vida ao sons. Hoje eles exprimem melhor o que quero dizer do que as imagens e até mesmo as palavras. Descrevo como faixas de um cd alguns momentos desses últimos tempos...
A música beneditina dos monges numa catedral e homens em busca de sonhos incompreensíveis para mim, deitados, beijando o chão, batinas estendidas, para assumir um compromisso de extrema dedicação a uma exclusiva causa. Música espiritual e lilás.
A música de um pneu derrapando e um corpo voando da moto. Um corpo caído, um capacete rosa, não vejo o rosto. Ouço a música de uma buzina e sou eu, medo de passarem por cima da mulher caída. O carro que encostou na moto para muito depois, outros param, muitos dão socorro. Música de meus dentes batendo de nervoso. Música de violoncelo, grave, tensa, apertada.
Carnaval dos anos 80 e 90, quando tudo parecia festa, e era, por que não? Início do movimento Axé. Daniela (Mercury) fazendo aula de dança no Espaço Xis ao lado de casa. Ivete (Sangalo) me arremessando longe na porta da sala do 1º F. Conversinha fiada com o pai de Bel na alfaiataria. Tudo era doméstico. O "Alavontê" ressuscita a mortalha e o abraço no artista depois do show, no fundo do palco. Música de aquecer o coração de nostalgia.
A música é pop, anos 1970, em inglês, numa arena, céu com duas estrelas visíveis, 40 mil pessoas reunidas. Uns entendem, outros não entendem nada do que está acontecendo. Um homem de 66 anos toca um piano de caldas com agilidade impressionante, voz perfeita, ícone da música do mundo. Banda de senhores profissionais primorosamente lapidados na vida musical. "It's a little bit funny this feeling inside". Uns estão bebendo de costas para o palco; outros choram. Eu chorei também. Música atemporal.
Um passado distante. Uma banda adolescente. Gravitávamos, ídolos pré-adolescendo. Eram sonhadores. Éramos eu, Lê, Rê, Ró, prontos para a tietagem. E tinha uma praça, um palco, um galpão, camisas grafitadas, um raio na logomarca, uma válvula diskup. Agora somos quase 30 anos depois. E um dos sonhadores se vai. Um de nossos espelhos. E a vida parece mais real do que nunca. A música é e sempre será para esses momentos.
A felicidade pode ser imensa. Missão cumprida. Jovens com olhos brilhantes, cheios de sonhos e dúvidas, mas há o sonho. Será que ouvem suas músicas internas? São tão lindas! Um corajoso jovem Síndrome de Dow, com cara de príncipe, sobe no palco e desabafa sua felicidade. Lindo de ver. Empolgante. Música sem fim para quem tem esperança.

Quero ter esperança para sempre.


2 de fevereiro de 2014

meu nome é IEMANJÁ

Só agradecer. Fonte: Google Imagens
 
O charme de Salvador está nas festas que concentram algumas centanas, por vezes milhares de pessoas por motivos mágicos. Para mim, o mais estético de todos é a festa de Iemanjá, a rainha das águas salgadas. O bairro boêmio do Rio Vermelho, em sua mais bonita curva, a Praia da Paciência, se enche de gente e flor, cheirando alfazema, tudo colorido de azul e branco. É lindo de ver, mesmo pela televisão.
Há muito tempo deixei para trás a necessidade de participar de eventos a qualquer custo. Concentro minha fé dentro de mim; creio que entre eu e as entidades a conversa tem que ser mesmo particular. Imagina se Iemanjá vai me escutar no meio de tanta gente! Pode, de repente, confundir tudo, e alho virar bugalho, aí eu já vou estar sendo paquerada pelo cara de sapato branco, desejo da mulher no final da fila das oferendas.
Brincadeiras a parte, nunca vi burocracia tão bem organizada como a dos seres místicos. Eles sabem exatamente o que a gente pede, como e quando. E respondem. Lembro um pedido de olhos fechados que uma pessoa fez para Iemanjá num dois de fevereiro desses. A bichinha rezava e apertava a flor contra o peito, na maior esperança da realização de sua roga. Jogou a rosa como uma atleta olímpica e a orixá, sem pena, devolveu a flor numa ondinha bem besta, rolando na areia. A gente não sabe do pedido um do outro, só desconfia. Mas, pelo contexto, e a cara tristonha da pedinte, aquilo foi resposta curta e grossa de que seu relacionamento não valia nenhum esforço mais.
Hoje é dia da festa do mar aqui e acompanhei as fotos nas redes sociais. Vi mulher, tirando selfie com Iemanjá ao fundo, e homem de colete salva-vidas, levando oferenda em alto-mar. Coberturas diversas para provar que baiano comparece a festa, é feliz e tem fé. Me divirto com as postagens do povo que parece que quer provar que tem corpo fechado, que pode jogar praga pra quem atravessar seu caminho. O fato é que a dona do mar mora aqui no Rio Vermelho e quem quiser que conte outra.


29 de janeiro de 2014

meu nome é ENTRE


"Não te dizer o que eu penso, já é pensar em dizer..." Fonte: Google salva-vidas

Entre domingo e hoje meu nome foi...

DINDA
FILHA
MANZI
GAROTA DOURADA
JANDIRA
LICA
PRIMA
AMIGA
ARIANA

FELICIDADE
RISO SOLTO
GARGALHADA

ANGÚSTIA
TRISTEZA
CANSAÇO

VALENTIA
IRRITAÇÃO
FÚRIA

FRIO
CALOR CALOR CALOR

SAUDADE 

São tantas pessoas em mim que ando com dor nas costas...

25 de janeiro de 2014

meu nome é ILUSÃO

Foi entre os seis e sete anos. No play do prédio tinham umas festinhas com globo de luz, som alto e muito guaraná. Descíamos umas cinco horas da tarde - creio que, naquela época, era esse o horário das crianças - e ficávamos até umas oito. Meu coraçãozinho disparava quando ele aparecia. O menino com cabelo igual ao do Príncipe das Águas Claras.
Naquela noite, eu bebi o refrigerante de um gole para refrescar a garganta seca de nervoso provocado pelo surto do amor; procurei a amiguinha cúmplice e fomos para o canto observar o movimento da turma dos meninos. Ele se destacava com sua camisa com a estampa do Batman. Era perfeito como corria atrás dos amigos, provando sua habilidade nos dribles. Eles se batiam, riam alto, se enforcavam. Achava aquilo um belo símbolo de força para um menino de sete anos. Além de lindo era forte! O jeito era beber mais guaraná. Quando ele ia me notar, afinal? O que eu precisava fazer? A vida é mesmo dura para as mulheres, pensava.
Na terceira ida para a cantina da festinha, senti um vulto passar com a velocidade da luz e parar com o som do trovão na minha frente. Era ele! Minhas pernas bambolearam. Oi, ele disse. O-oi, disse eu. Vamos dançar, ele me puxou. Foi minha primeira experiência, nunca esqueci como se dança depois daquele entardecer com o Príncipe das Águas Claras. Homem de atitude.
Foram os minutos mais maravilhosos dos meus sete anos. Não lembro de outros, a não ser o passeio no Jardim Zoológico. A gente ficou calado; não havia palavra que desse conta de minha emoção, mesmo que todas estivessem explodindo em minha cabeça. Cadê minha amiguinha? Olhei aflita para minha cúmplice. Sua boca estava tão aberta que achei que babava. Também tive medo de babar de nervoso. Mas deu tudo certo. Não me lembro da música, nem como terminou a noite. Acho às vezes que dali eu pulei para o Zoológico numa máquina do tempo.
O que me fez lembrar de tudo isso? Essa doce música de Marisa Monte e o que ela me provocou. Será que espero até hoje o menino com cabelo do Príncipe das Águas Claras ou sua atitude? Por que eu o deixei? Ilusão, por que a deixei?


Uma vez eu tive uma ilusão
E não soube o que fazer
Não soube o que fazer
Com ela
Não soube o que fazer
E ela se foi
Porque eu a deixei
Por que eu a deixei?
Não sei
Eu só sei que ela se foi
Mi corazón desde entonces
La llora diario
No portão
Por ella
No supe que hacer
Y se me fue
Porque la dejé
¿Por que la dejé?
No sé
Sólo sé que se me fue
Sei que tudo o que eu queria
Deixei tudo o que eu queria
Porque não me deixei tentar
Vivê-la feliz
É a ilusão de que volte
O que me faça feliz
Faça viver
Por ella no supe que hacer
Y se me fue
Porque la dejé
¿Por que la dejé?
No sé
Sólo sé que se me fue
Sei que tudo o que eu queria
Deixei tudo o que eu queria
Porque não me deixei tentar
Vivê-la feliz
Sei que tudo o que eu queria
Deixei tudo o que eu queria
Porque no me dejo
Tratar de hacerla feliz
Porque la dejé
¿Por que la dejé?
No sé
Sólo sé que se me fue

23 de janeiro de 2014

meu nome é LIVRO

Um dia eu chego. Fonte: Google Imagens

Estou tentando escrever um livro. Esta deve ser a aventura mais difícil que me meti nos últimos tempos. Tudo acontece de modo estranho. Para terem uma ideia, não escrevi uma lauda sequer. Ele está se passando em minha cabeça durante os longos percursos no trânsito. Outro ponto que não sei bem se está certo é que insisto em incluir nele explicações do processo criativo e isso parece que não vai ser bom para quem lê.
Por exemplo, no meio de uma frase passa uma ambulância do meu lado, fazendo aquele barulho estridente que quero descrever como parte da trilha sonora. Ou se encontro com pessoas conhecidas na faixa ao lado da minha em meio a um trânsito infernal, quero incluí-lo com entusiasmo no meio do livro imaginário.
As estranhesas vêm de diversos pontos. Sabem que toda boa biografia sempre começará pelo motivo de escolha do nome do personagem. Todos os livros têm explicação sobre o nome de algum personagem, a não ser que os personagens não tenham nome. Meus personagens não têm nome, isso me parece um absurdo completo. Tenho um blog que fala sobre a importância do nome, que defende a hipótese de que um nome encerra em si uma ideia, um sentido para o ser - um ser sem nome é um ser sem sentido. Mesmo assim não consegui parir essa ideia. Todos os personagens chamam-se "...". Desconfio que há algo errado nesse ponto.
Esse processo de construção pelo menos tem cheiro. Cheiro do ar condicionado do meu carro. Lembro que quando li "O Perfume" fiquei impressionada com a carência do personagem para ter um lugar no mundo e isso dependia dele ter um "cheiro". Sua obssessão foi crescendo pela necessidade de ser percebido, sentido, amado, motivando a busca pelo cheiro. O cheiro que ele não tinha: era um homem sem cheiro, portanto, sem lugar no mundo; consequentemente, sem amor. O que ele queria era ser amado e buscou sem limites o cheiro do amor. Alivia pensar que não estou criando um livro psicopata.
Mas não me livro das doenças mentais. Penso que todo o processo criativo é  bipolar no início. Sinto ele órfão, carente, patinho feio às vezes. Outras vezes toma a dimensão de um clássico e imortal Machado de Assis. O fato é que vai ter que virar palavra escrita, sair de minha cabeça, ser entregue às feras críticas. Em ânsias, continuo no ritmo. Já estou no capítulo 3.

2 de janeiro de 2014

meu nome é DOIS-MIL-E-CATORZE

 
A lista de meus desejos fica num lugar estratégico. Fonte: Google
 

Desejo neste novo ano bolas de sabão voando pelo céu azul
EU QUERO voar, sentindo o ar alto no rosto desprotegido

Desejo água clara lavando os pés
EU QUERO nadar para respirar melhor, para me erguer melhor

Desejo fogo nos olhos quando vir o desejo de perto
EU QUERO chegar mais perto do fogo e aquecer o coração

Desejo pegar na terra molhada
EU QUERO plantar sementes e ver brotar uma árvore que um dia será imensa

Desejo sentir o cheiro do mato verde, do cabelo lavado, do acarajé fritando, da brisa do mar
EU QUERO inspirar e expirar