24 de fevereiro de 2014

meu nome é MÚSICA

Tirei essa foto num restaurante em Porto de Galinhas - PE. Parece música!
 
Depois de abandoná-lo por alguns dias, volto ao bloguinho com sensações opostas para o desejo da escrita. Posso falar de tristeza e de alegria, de luta e de ócio, afinal minha vida está mais para um quadro de Monet do que para um Da Vinci. Se visto de longe é uma coisa; de perto, distorce totalmente - peculiaridades do detalhe.
Melhor comparar a vida ao sons. Hoje eles exprimem melhor o que quero dizer do que as imagens e até mesmo as palavras. Descrevo como faixas de um cd alguns momentos desses últimos tempos...
A música beneditina dos monges numa catedral e homens em busca de sonhos incompreensíveis para mim, deitados, beijando o chão, batinas estendidas, para assumir um compromisso de extrema dedicação a uma exclusiva causa. Música espiritual e lilás.
A música de um pneu derrapando e um corpo voando da moto. Um corpo caído, um capacete rosa, não vejo o rosto. Ouço a música de uma buzina e sou eu, medo de passarem por cima da mulher caída. O carro que encostou na moto para muito depois, outros param, muitos dão socorro. Música de meus dentes batendo de nervoso. Música de violoncelo, grave, tensa, apertada.
Carnaval dos anos 80 e 90, quando tudo parecia festa, e era, por que não? Início do movimento Axé. Daniela (Mercury) fazendo aula de dança no Espaço Xis ao lado de casa. Ivete (Sangalo) me arremessando longe na porta da sala do 1º F. Conversinha fiada com o pai de Bel na alfaiataria. Tudo era doméstico. O "Alavontê" ressuscita a mortalha e o abraço no artista depois do show, no fundo do palco. Música de aquecer o coração de nostalgia.
A música é pop, anos 1970, em inglês, numa arena, céu com duas estrelas visíveis, 40 mil pessoas reunidas. Uns entendem, outros não entendem nada do que está acontecendo. Um homem de 66 anos toca um piano de caldas com agilidade impressionante, voz perfeita, ícone da música do mundo. Banda de senhores profissionais primorosamente lapidados na vida musical. "It's a little bit funny this feeling inside". Uns estão bebendo de costas para o palco; outros choram. Eu chorei também. Música atemporal.
Um passado distante. Uma banda adolescente. Gravitávamos, ídolos pré-adolescendo. Eram sonhadores. Éramos eu, Lê, Rê, Ró, prontos para a tietagem. E tinha uma praça, um palco, um galpão, camisas grafitadas, um raio na logomarca, uma válvula diskup. Agora somos quase 30 anos depois. E um dos sonhadores se vai. Um de nossos espelhos. E a vida parece mais real do que nunca. A música é e sempre será para esses momentos.
A felicidade pode ser imensa. Missão cumprida. Jovens com olhos brilhantes, cheios de sonhos e dúvidas, mas há o sonho. Será que ouvem suas músicas internas? São tão lindas! Um corajoso jovem Síndrome de Dow, com cara de príncipe, sobe no palco e desabafa sua felicidade. Lindo de ver. Empolgante. Música sem fim para quem tem esperança.

Quero ter esperança para sempre.


2 de fevereiro de 2014

meu nome é IEMANJÁ

Só agradecer. Fonte: Google Imagens
 
O charme de Salvador está nas festas que concentram algumas centanas, por vezes milhares de pessoas por motivos mágicos. Para mim, o mais estético de todos é a festa de Iemanjá, a rainha das águas salgadas. O bairro boêmio do Rio Vermelho, em sua mais bonita curva, a Praia da Paciência, se enche de gente e flor, cheirando alfazema, tudo colorido de azul e branco. É lindo de ver, mesmo pela televisão.
Há muito tempo deixei para trás a necessidade de participar de eventos a qualquer custo. Concentro minha fé dentro de mim; creio que entre eu e as entidades a conversa tem que ser mesmo particular. Imagina se Iemanjá vai me escutar no meio de tanta gente! Pode, de repente, confundir tudo, e alho virar bugalho, aí eu já vou estar sendo paquerada pelo cara de sapato branco, desejo da mulher no final da fila das oferendas.
Brincadeiras a parte, nunca vi burocracia tão bem organizada como a dos seres místicos. Eles sabem exatamente o que a gente pede, como e quando. E respondem. Lembro um pedido de olhos fechados que uma pessoa fez para Iemanjá num dois de fevereiro desses. A bichinha rezava e apertava a flor contra o peito, na maior esperança da realização de sua roga. Jogou a rosa como uma atleta olímpica e a orixá, sem pena, devolveu a flor numa ondinha bem besta, rolando na areia. A gente não sabe do pedido um do outro, só desconfia. Mas, pelo contexto, e a cara tristonha da pedinte, aquilo foi resposta curta e grossa de que seu relacionamento não valia nenhum esforço mais.
Hoje é dia da festa do mar aqui e acompanhei as fotos nas redes sociais. Vi mulher, tirando selfie com Iemanjá ao fundo, e homem de colete salva-vidas, levando oferenda em alto-mar. Coberturas diversas para provar que baiano comparece a festa, é feliz e tem fé. Me divirto com as postagens do povo que parece que quer provar que tem corpo fechado, que pode jogar praga pra quem atravessar seu caminho. O fato é que a dona do mar mora aqui no Rio Vermelho e quem quiser que conte outra.