30 de março de 2014

meu nome é CLARICE

Encontro-me nela em palavras e imagens. Fonte: Google Imagens

Gosto de escrever aos domingos. Acho que é o silêncio. O silêncio exterior entra em contato com um silêncio interior que pouco convivo - falo muito por dentro. Daí nasce a vontade da escrita. Fico ouvindo o silêncio e os sussurros. Eles me lembram as reticências...
"Os fatos são sonoros, mas entre os fatos há um sussurro. É o sussuro que me impressiona." Essa frase é da inclassificável Clarice Lispector. O ouvido dela era muito mais sensível. Devia ouvir sussuros mesmo entre sirenes.
Mas Clarice não se discute, era uma maestrina. Leio às vezes frases postadas como se fossem dela e logo sei: impossível. Se não entorta nossa cabeça, não é Clarice. Esqueça a poesia "batatinha quando nasce, esparrama pelo chão", isso não é Clarice.
"Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo." Isso é Clarice.
"Um mundo fantástico me rodeia e me é." Isso é Clarice.
"Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?!" Isso é Clarice.
"Ah viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não pára, viver parece ter sono e não poder dormir - viver é incômodo. Não se pode andar nu nem de corpo nem de espírito." Isso é Clarice, mas também me é...
E os sussurros continuam, aos poucos baixando o volume. "O que importa afinal: viver ou saber que se está vivendo?" O domingo vai subindo o sol. A cidade acordando, o silêncio acabando, a realidade impondo-se. "O que deve fazer alguém que não sabe o que fazer de si?" Clarice agora é livro fechado. Realidade é de competência dos sentidos outros. Dentro do equilíbrio da vida há tempo para a fruição? - pergunta minha Clarice interior, minha inconsciência. Não - responde minha razão. Corre que a vida é breve, há contas a pagar; daqui a pouco é outubro e você será engolida pela velocidade do futuro.
Passaram dois carros. Preciso acordar. "Tudo o que possuo está muito fundo dentro de mim."
Bom dia, Clarice. Desperte-me.

23 de março de 2014

meu nome é DESPERTAR

A joaninha domingando... Fonte: Google Imagens

Despertei hoje muito cedo para um domingo. Aproveitei para observar o movimento da rua quando não há carros circulando. Foi uma boa e revigorante surpresa. A natureza acorda cedo também. Os pássaros voavam sem destino. Alguns pareciam dançar, outros brincar de "correr" com o companheiro. Os micos conversavam em assobios pulando entre fios. As árvores balançavam preguiçosamente graças a brisa leve. Achei que ouvia até o passar das nuvens. A água da piscina foi visitada por pássaros com sede. O chão refletia o sol que ainda abria os olhos. Percebi um daqueles sorrisos de canto de boca quando a gente tem um insight. A vida independe do homem.

13 de março de 2014

meu nome é ENCANTO

"Quando se materializa no instante que se encanta"

Existem experiências muito particulares que a gente passa. As que motivam, apaixonam; as que reforçam nossas crenças, as que inspiram verdade. Dessa verdade que divido aqui com vocês, pois não sei falar hoje de outro assunto.
Tive o prazer de participar do projeto "Encontros Socioambientais com Lenine" hoje. Sabe fã? Sou eu. Perdi o show dele no Marco Zero no Recife Antigo agora no Carnaval, dias depois estou frente a frente com o cara. Ele é tudo o que canta! Uma pessoa de verdade, de pura verdade.
Quando Anna me apresentou a ele e recebi seu abraço, vi que ali estava alguém para se curtir, sem medo de errar. Alma massa! Descobrir seu envolvimento com projetos socioambientais foi uma surpresa boa, mais ainda ver sonho naqueles olhos, vivência do assunto longe dos holofotes. Reafirmava meu encanto a cada frase que ele falava.
Não conseguia chamá-lo de outra coisa senão de "poeta". Um poeta da vida real. Um cronista da vida humana. Gente que gosta de gente. Sensível ao caos do mundo, mas com esperança. Operário da música e da palavra. Atirador de sonhos à distância.
Pequena demais para escrever sobre tudo o que ouvi, sobre tantas experiências bacanas de outros sonhadores que colocam mesmo a mão na massa. Amei! Ouvindo Lenine... Acho que produzo ainda mil textos sobre hoje! Mas não hoje.

6 de março de 2014

meu nome é SUSPENSION OF DISBELIEF

Olinda! Quero cantar a ti esta canção
Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar
Faz vibrar meu coração, de amor a sonhar
Em Olinda sem igual Salve o teu Carnaval!

A inspiração para o texto é torta. Veio de longe, de meu culto e querido Tuga que me ensina tantas coisas maravilhosas sobre o mundo. Enquanto falava de todo o meu encanto por ter conhecido o Carnaval de Olinda e diferenças com o de Salvador, ele fala da ideia do "suspension of disbelief" ou "suspensão da descrença" provocada pela euforia do carnaval.

A ideia foi cunhada em 1817 por Samuel Taylor Coleridge (pesquisei). Em sua opinião, havia na literatura (aqui proponho o carnaval como objeto) uma "aceitação temporário como crível de eventos ou caracteres que normalmente seriam vistas como incrível". Isso permitia que os envolvidos apreciassem obras literárias ou peças teatrais como se vivenciassem o fato em si. É o que chamou de "fé poética". Samuel defendia uma ideia atual, por isso vou mudar o tempo verbal: o que acontece é que há uma suspensão voluntária da descrença em um dado momento da contemplação artística, permitindo uma interação real com personagens sobrenaturais.

Complicado? Não! Perfeito! No carnaval é exatamente isso que ocorre. Um cenário absurdo domina cidades inteiras e nos entregamos à folia, ao prazer, ao som, às fantasias, às máscaras, aos sabores, aos odores, tudo por fé poética, nada mais. A "suspension of disbelief" é imprescindível para a fruição, ou a realidade nos condena ao mal humor com a quebra da rotina.

Quem vive o carnaval, entende o que quero falar. Ainda que a intenção fosse escrever sobre como gostei desse carnaval e de tudo o que aconteceu, acabei produzindo um texto em linguagem pseudoacadêmica. Desculpem. Quero mesmo falar que apesar de "Lepo Lepo" ter tocado em todos os lugares que passei, minha fé poética não foi abalada: existe Olinda, suas ladeiras, os tambores do Maracatu, a turma divertida do "Enquanto isso na Sala da Justiça", o contraste do mar com o mar de gente.

Não desmerecendo Salvador, que precisa resgatar sua poesia, nem tampouco o Rio e seu glamour, foi em Olinda que vivi o melhor dos carnavais dos últimos anos. Por uma razão simples: suspensão da descrença de que todos podem se divertir juntos, sem cordas, sem arquibancadas. Foi uma experiência política e marcante. Povo que conserva sua raiz cultural, governantes que valorizam essa riqueza. Um dia vejo essa força na Bahia.

Cansada do cartel da swingueira, queria mais tambores no chão, mais afro e seus torços, menos palco, menos celebridades querendo aparecer, mais samba de Santo Amaro, trios mais baixos, confete, menos violência, mais alfazema.

Ainda em estado de suspensão da descrença, doando um pouco do que acredito para o leitor, tenho fé poética que podemos fazer carnavais cantando poesia como foi no Chão da Praça - "olhos negros cruéis, tentadores das multidões sem cantor".