18 de abril de 2014

meu nome é GABO

Temos todo o tempo do mundo, Gabo... Fonte: Google Imagens
Como pode um vazio tão grande desses ser provocado por um estranho? Sim, porque o Sr. Gabriel García Márquez nunca frequentou minha casa, nem meus pais o conheciam, nem foi contemporâneo de meus avós. Nunca fui a Colômbia ou ao México ou a Cuba. Entendo pouco do espanhol, leio menos ainda. Acontece que ele conseguia dizer o que eu não consigo mas sinto. Ele escrevia o que eu quero escrever mas não alcanço. Compartilhamos a alma. Nos reconhecemos na interseção dos sentimentos. Por isso hoje sinto muito por não ter tido a oportunidade insólita de ter ido lá tomar um cafezinho com ele antes de sua partida para outro plano. Em seu tempo de senilidade as encantadas histórias lapidadas por seu talento devem ter se transformado em olhares vagos, conversas desconexas, abraços sem hora. Perdi de ver isso de perto. Podia ter batido em sua porta, como um Florentino perdido, com uma flor e meus livros nas mãos, oferecendo leitura e memória em outra língua, café quente e companhia para a solidão que não alcançam os presentes. Agradeceria a cada parágrafo a vida que brotou em mim por conta de seus escritos fantásticos. Recitaria o nome dos Josés Arcádios, todos eles, para que Cem Anos de Solidão fosse sua casa novamente. E contaria de traz pra frente a história de Florentino Ariza e Fermina Daza, o jeito mais lindo de se contar um amor em "O amor nos tempos do cólera". Essa nossa conversa iria render pelo menos alguns meses, ele sentado em uma poltrona, servido por sua companheira, eu em um banquinho forrado de veludo florido, bem abaixo da linha de seus olhos, aprendiz de sua transcendência, sedenta aluna do inatingível... Foi o Sr. García Márquez que descreveu o que eu entendo por solidão; espera; paixão; amor; velhice; doação; orgulho; paciência; esperança. Li a maior parte de seus livros há muitos anos, vou reler, não agora. Prefiro conservar o gosto do café, o peso do livro nas mãos, o som das histórias encantadas e a imagem de seu olhar alheio e alma inalcansável. Afinal, quem vai matar minha sede por frases assim: "Úrsula teve de fazer um grande esforço para cumprir a promessa de morrer quando estiasse." Ah, Gabo... Importa-se se lhe chamar assim?

Gabo desencarnou ontem, 17/4/2014, na Cidade do México e deixa uma obra literária viva para a humanidade.

8 de abril de 2014

meu nome é MURALHA

Pensei ter mergulhado na alma de uma pessoa no domingo. Um homem. Ele estava sentado numa cadeira de rodas. Tinha os olhos lacrados, a boca contraída, o pescoço tenso. As mãos apertadas, quase se feria, as pernas rígidas. Nada no seu corpo abria a guarda. A linguagem corporal era de afastamento. Comunicava que a gente mantivesse distância dele. Naquele espaço ninguém era bem-vindo. Mas era velho conhecido. Não aceitei a rejeição, mesmo que respeitando seu estado de solidão voluntária. Cheguei perto, falei manso, esquentei sua mão, elogiei seu aspecto, tentei uma aproximação primária. Fui com fé. Não invadi além do que me permitiria numa situação normal entre adultos. Era um homem adulto que me viu criança. Enquanto o frio deixava sua mão, os músculos relaxavam. Vi sua pálpebra mexer. Vi quando a abriu e me olhou. Olhou fundo e sorriu devagar. Fingiu fazer as pazes com o mundo exterior. Acompanhou as lágrimas que chorei. Me jogou um beijo de desculpas. Foi como se tivesse me ouvido perguntar "desistiu por quê?" Inoculou solidão novamente. Os olhos ficaram vazios, voltando-se para o mistério impenetrável dos velhos alheios. Eles constroem muralhas no seu entorno, pensam que a gente não descobre que nos enganam com a desculpa da senilidade. Era ali meu tio, e continuará sendo enquanto eu o reconhecer. Ele pode ter desistido, nós não desistimos dele.