23 de julho de 2014

meu nome é REFLEXO

O cenário é noir. Noite escura, quarto escuro. Um enorme espelho. Uma mulher mirando seu reflexo. Vê-se uma silhueta. Pouca luz, impedindo a visão. Um brilho passa pelo espelho. Devem ser carros, penso. Poderiam ser estrelas cadente, desejo. A mulher permanece em pé. O tempo passa mudo. Ela olha para ela. Eu olho para ela. A tensão invade o espaço entre seu corpo imóvel e a imagem refletida. Uma mão se move. Pisco o olho. Não identifico se é a mão do corpo ou da sombra refletida. Faz um carinho melancólico na face uma da outra. Outra luz passa. Sinto algo. Viro-me assustada. Deve ter sido o vento que sacode a cortina. Continuo observando. São tão parecidas. Conheço alguém muito parecida com ela, mas não me lembro... A imobilidade continua. Quando observo, o tempo para. São dois, dez, mil minutos sem respirar. A mulher permanece na mesma posição. O reflexo também. Percebo uma mudança. É sutil. Não tenho certeza. Deve ser no olhar. Abaixo a cabeça, cansada da posição. De repente um barulho forte. O espelho se parece com papel rasgado. Levanto a cabeça e me vejo. O dia está nascendo.