29 de outubro de 2014

meu nome é ANTIBIÓTICO

O ano novo acontece em mim duas vezes no ano: uma na virada do ano, outra na virada dos anos. Para os dois momentos preparo-me como uma noiva. Por fora tudo lindo, por dentro tudo em turbilhão. Neste ano adoeci no ano novo dos anos. Imagina uma noiva doente? Caos. Não consegui me "preparar" como faço todos os anos. Estava fraca, sem interesse. Deixei o noivo no altar.
A ausência desse tempo de reflexão está me fazendo falta. Reequilibro minhas forças nesses momentos onde paro, escrevo, mentalizo, recebo. Parece que o tal "inferno astral" esqueceu que tem uma data para terminar e resolveu invadir meus dias além do esperado. Mostrou algo que agora, escrevendo sobre ele, percebo com muita clareza: meu corpo físico precisa de mim.
O coitado pediu arrego depois que resolvi esticar toda a corda. E não foi a primeira vez, nem mesmo a segunda. Só que desta vez foi bem espertinho: sacudiu suas asinhas bem no primeiro dia de férias, às vésperas de meu ano novo. Sabidinho, conseguiu o que queria. Agora é visitar médicos, fazer exames, comer melhor, fazer atividades físicas, ganhar consciência de que sou corpo além de alma.
O que leva a gente a se perder assim? No meu caso não foi exatamente isso; sempre fui inclinada a considerar meus pensamentos e raciocínios muito maiores que meu corpo. Olhava meio com desdem para o pobre corpinho. Para que tanto cuidado? Viva os analgésicos! Ops, ingenuidade de uma mente egocêntrica. Corpo doente, cabeça destruída no mesmo instante.
A situação foi mesmo desagradável. Não consegui nem falar com a médica que me atendeu no hospital, chegando ao ponto dela perguntar para minha irmã se eu era muda. Nem consegui levantar a sobrancelha esquerda, com minha cara de "que-pergunta-sem-cabimento". Minha irmã explicava como tudo começou - também sem entender a pergunta descabida - enquanto a doutora-politicamente-esquisita me examinava. Fiquei com pena da pobre. Quando viu meu o grau de desidratação, saiu chamando todos os enfermeiros de plantão, quase pedindo uma maca para me transportar por poucos metros do consultório até a sala do soro.
Resultado: soro, glicose, remédios e muito sono depois, retorno para casa, cabelo daquele jeito sem comentários. Qual a cabeça que pensa certo com um choque de realidade da fragilidade do seu próprio corpo? Só pensava em chegar numa cama, deitar e dormir. Nos dias seguintes, um torpor nas pernas que me fazia andar feito astronauta. Sim, isso durou alguns dias até que peguei uma gripe que acabou de me derrubar. Do cabelo eu desisti tamanho o estrago; suponho que perdi a coordenação também para minimizar o aspecto de meus rebeldes fios eternamente sem destino.
Onze dias depois, escrevo esse texto sem saber o que quero dizer. Estou restabelecendo a amizade com meu intelecto através dos livros leves, música tranquila, sem muita atividade raciocinada. Deixei a cabeça de férias a pulso. Preciso mesmo relaxar o cérebro que me tornei desde que me entendo por gente. O Tempo, usando de jogo sujo de vírus e bactérias, gritou isso em meu ouvido. Por sinal, não estou muda, mas acho que um pouco surda sim. Será da gripe ou da teimosia em exigir mais do corpo do que ele está podendo dar? Hmm, disse o quê?