25 de janeiro de 2015

meu nome é ESPECTADORA

O filme "Mil Vezes Boa Noite" é uma narração interessante sobre a morte. E também sobre a vida. Quem quiser assistir, na minha opinião, vale a pena. Mas não espere um filme com narrativa de rápido consumo; tudo é denso e faz pensar. A história da fotógrafa de guerra, que denuncia os absurdos humanos, é movida pela raiva, como ela mesma diz numa das cenas. E esse é o motivo deste texto: me vi naquelas palavras.
O que me move a viver situações tão distintas da vida pacata? A raiva. Ela pulsa em mim como uma bomba pronta a explodir. Tenho que ser vigilante para não detonar. Consigo noventa e nove por cento das vezes. Mas uma vez, uma vez que seja, em um milésimo de segundo, não basta muito, ela acelera o batimento cardíaco e vira dor de cabeça ou palavras neste espaço.
Eu e Rebecca somos muito diferentes, apesar de movidas pelo mesmo ideal de indignação. Se é esse o espaço que me cabe neste mundo, sou uma inconformada. Preciso também de um canal de desabafo. No caso dela, encontrou a fotografia. No meu caso, encontro toda a minha filosofia de vida. Acredito na raiva como propulsora de mudanças.
Fiquei com muita raiva quando fui conhecer a vida de um pai e um filho que moravam embaixo de uma ponte. Também tive raiva quando vi uma mãe dar para adoção seus três filhos de uma só vez. Morri de raiva quando vi um empresário brindando a sua fartura com bebidas caras enquanto devia salário de meses aos funcionários. Raiva me habita, assim como a tristeza.
Triste saber que o poder faz parte do jogo. E que a vida é esse jogo sem fim. Não há vencedor, não há fim. Mesmo assim se joga sem parar. É um belo filme.

8 de janeiro de 2015

meu nome é ARIANA CHARLIE

Do australiano David Pope por todos que acreditam na vida.

Preciso escrever sobre o evento de ontem em Paris. Não por ser seguidora do Charlie Hebdo, mas por acreditar que a violência “de fato” é um recorte da violência simbólica da intolerância às diferenças. Tolher liberdades é o que mais me dói. Para mim esse é o cenário que mais simboliza o estágio primitivo que o ser social vive ainda hoje, após tantos milhões de anos de vida em grupo. Como li hoje em uma das tantas reportagens sobre o ataque ao semanário francês, “a religião não é uma doença, mas o radicalismo sim”. Concordo. A religião em si, como qualquer ideia que simpatizamos não é uma doença, é um ponto de vista sobre algo que nos identificamos. Contudo o radicalismo, o fanatismo, o achar que a verdade individual tem que prevalecer ou convencer o outro é absurdamente alienada. No rádio ouvi que o fanatismo não é educável. Concordo. A pessoa fanática por qualquer coisa, seja “politicamente” certa ou errada (conceitos extremamente subjetivos) quer impor seu ego, sua maneira de pensar, é incapaz de ver outras possibilidades de pensamento, é o simbólico da inflexibilidade. Esta inflexibilidade que diariamente a gente convive em pequenas coisas, deixando passar para não criar problemas, vai se alimentando de nossa covardia até se transformar em uma afronta social de medição de força. Quem tem mais poder? O que sou capaz de fazer para estabelecer o meu ponto de vista no contexto que estou? Quem está certo e quem está errado? Não sei responder, queria que muito mais gente conseguisse não responder a essas perguntas. A opressão começa com a vaidade de achar que temos respostas. A vida social não me exige aceitação, exige respeito. Pelo respeito, pela liberdade, “Je suis Charlie”.

Mais charges: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/01/07/internacional/1420642892_833570.html