28 de dezembro de 2016

meu nome é CONTAGEM REGRESSIVA

Dá um tempo, 2016! Foto: Google Imagens

Três, dois, um dia, falta pouco para o fim do ano. A sensação de alívio não veio junto com essa contagem regressiva. Os fatos continuam a entortar nossa percepção de ordem. Aliás, nada está em ordem mesmo. Agora choquem-se: nunca estivemos no controle. A falsa sensação de ordem e controle é um mecanismo psicológico que usamos para não pirar. Sempre existiu crueldade, intolerância, crimes bárbaros, misoginia, fofoca. O que nunca existiu sempre (ops) foi a internet e sua capacidade de alcance. A informação hoje viaja na velocidade da luz (a maior que conheço) e nos faz míopes da verdade. Essa tal verdade, coitada, desconfio que morreu neste ano esquisito.

Há os sonhadores que, como eu, ainda querem ver a harmonia no mundo. Pensando bem, não sou tão sem noção assim. O que tenho visto é a desarmonia como característica intrínseca do ser humano. Se não tem fumaça, a gente faz fogo. O certo é: Deus me livre de retrospectiva 2016! Quero liberdade pra dentro da cabeça. Só de saber que vou ter que lembrar que Umberto Eco morreu me dá um nó na garganta.

Tá acabando, nem sei se deixará rastro na memória do povo, o certo é que nunca pisamos tanto na realidade e, no entanto, nunca estivemos tanto no mundo das ideias, achismos e opiniões. Foi um bom exercício, contudo se a prova fosse hoje tiraríamos zero nos quesitos relacionados a coerência. Não cola ver uma pessoa ser espancada em sua frente, não fazer nada e depois sair gritando por justiça aos homicidas. Justiça, Democracia e Respeito são os temas que precisaremos voltar para os livros e estudar com afinco. Livros não Facebook, ok?

11 de dezembro de 2016

meu nome é TENDÊNCIA

Alhos e bugalhos. Fonte: Google Imagens


Alegria do pecado às vezes toma conta de mim
E é tão bom não ser divina
Me cobrir de humanidade me fascina
E me aproxima do céu
E eu gosto de estar na terra cada vez mais
Minha boca se abre e espera
O direito ainda que profano
Do mundo ser sempre mais humano
Perfeição demais me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontrou um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso, pra não ser

A composição da Zélia Duncan e do Moska grudou feito chiclete no final desse domingo. Mas como não? Por vários motivos isso é facinho. Uma música deliciosa de ouvir e de cantar, com letra poética e violões divinos. Outras razões, se precisar de outras, é que "é tão bom não ser divina" e "me cobrir de humanidade"!
É fato que "perfeição demais me agita os instintos". Pense na moda das cirurgias plásticas que transformaram alguns peitos em balões; no botox que tira o riso do olhar; na moda que padroniza o jeito de vestir, a música que ouvir, a comida que consumir. E tem a maquiagem que não permite sentir a chuva na cara; o cabelo que não desmancha o cacho. E o gel? Quem inventou a brilhantina de ontem e a cera de hoje? Credo! Muita perfeição para cabelos que são livres por natureza, mesmo para cair e deixar aparecer a orgulhosa cabeça condenada a ser coberta até a rebeldia aparecer.
E tem a coisa dos dentes, sempre certos, alinhados, às vezes um exagero - nem um dentinho torto para fazer um charminho é permitido. Tem a turma da unha feita e pintada, que começa cada dia mais cedo - tem menina com conta no salão para manter unhas impecáveis, tão grandes quanto as do Zé do Caixão e pintadas de vermelho, com florzinha.
E a paleta de cores? Neste verão use etc etc etc - sempre imperativo, nunca sugestão. Mudaram o nome das cores para nome de vegetal, de fruta, de conceitos e do diabo a quatro. Tem cor chamada off  - sim, isso é uma cor, pelo menos segundo as revistas de moda. Muita piada foi gerada daí, nem quero competir pois vou perder feio. O nome do vilão é "Tendência", que goela abaixo a gente tem mesmo que engolir, não adianta se revoltar. Conselho: se vire e goste de usar off e tente descobrir na prateleira, sem consultar o Google, o que isso significa.
Mas é fato que me incomoda ver uma produção em série de pessoas comandada pela tal tendência. Parece que estou vivendo no "Admirável mundo novo" do Huxley. As tribos estão cada vez mais delimitadas dentro de seus discursos, seja da normalidade, seja da loucura, e assim, acredito, nada se rompe realmente. A normatização versus a (suposta) liberdade, uma briga sem vencedor.
Este mundo anda tão severo que este texto parece ridículo, só serve mesmo para tomar um fôlego, para distrair, como se não existisse tanto o que nos distrair e pouco para nos fazer pensar. O que vou fazer com toda essa digressão suscitada pela música de Duncan e Moska? Nada. Por que, afinal "o resto é silêncio" e quem disse isso foi Shakespeare e, creia, ler Hamlet está na moda.

6 de dezembro de 2016

meu nome é FILOSOFIA

Penso, logo existo, então lavo minha louça. Fonte: Google Imagens

Em tempos de crise, eis que a Filosofia ressurge como interesse e fôlego. Enquanto a novela rola na TV desligada, lavo os pratos e assisto os vídeos dos pensadores, o que é prazeroso por demais,  inclusive por que me faz esquecer que os pratos estão mesmo sujos e minhas unhas já cansadas de descascar o esmalte.
Qual a relação entre filosofia e pia? Nenhuma, acho. Mas prefiro, enquanto faço uma tarefa rotineira, mecânica e entediante, ouvir pensamentos que também me fazem pensar. Mais bacana do que ouvir o mocinho falar para a mocinha que o do mal fez mal ao do bem. Convenhamos, pouca gente "assiste" novela atualmente; a maior parte vê uma cena ou outra, deixa o barulho avançar pela casa, enquanto vê um vídeo novo postado num grupo do WhatsApp. Nem a novelística aclamada da Globo segura mais essa onda.
Minha sugestão: opte pela filosofia. Escolha dentre os seus preferidos pop-pensadores e se jogue. Todos os vídeos que assisti até hoje me fizeram aprender algo, ou seja, toda noite aprendo algo enquanto lavo os tais pratos sujos e limpo tudo, inclusive as ideias encardidas.
Tem pra todo gosto. Tem vídeo de uma hora, que assisto quando vou dar uma geral nos armários e aqueles de vinte minutos para os momentos de lavar a louça do jantar. Os que têm mais de uma hora abordam temas diversos e as digressões maiores e bem interessantes; já os curtinhos são condensados, tipo Twitter, mas nunca citam uma frase sem referenciar os autores certos (coisa complicada no universo virtual).
Tenho sempre por perto um bloquinho e uma caneta. São frases interessantes, ou dicas de livro ou de filme. Molho o papel todo na empolgação; sem problema, depois passo a limpo. Os temas? Dos mais variados, fáceis ou herméticos. Alguns me alcançam, outros voo longe. Faz parte de minha idade de consciência - para alguns assuntos sou infantil, para outros uma anciã.
Os livros sempre foram meu recurso preferido, e ainda são. Mas ler, tentando lavar prato, ainda não aprendi. Daí a opção de usar outro sentido, o da audição, enquanto a visão e o tato estão ocupados.
Dá certo, tenta! Melhor do que chorar as pitangas do mundo que nunca será feito de purpurina, é pensar que podemos dar um passo além de uma das camadas da névoa que separa o ser humano do ser humano. E ainda deixa a cozinha um brinco, sem reclamar.

19 de outubro de 2016

meu nome é FESTEJANDO

Um abraço para fortalecer a vida. Fonte: Google Imagens

Comecei a escrever este bloguinho como uma grande brincadeira. Foi a forma que encontrei para canalizar minhas observações sobre o mundo e sobre a humanidade, aproveitando para divertir com os amigos. Como diz o povo, peguei gosto de construir textos e, com o passar do tempo, fui elaborando mais, trazendo outros assuntos que não fossem apenas os diferentes nomes das pessoas. Do lugar onde falo, meu ponto de vista, batizar pessoas, coisas, sentimentos, merece cuidado e apreço pela palavra: são construções determinantes para o sucesso ou fracasso da história. Digressões a parte, vim mesmo fazer meu checklist de aniversário e informar que sobrevivi, pelo menos até a publicação deste.
Mais um ano astral virando amanhã e pego meu caderninho de desejos 2016. Dentre os desejos desejados por todo mundo - investir na saúde, incentivar a paz interior, começar a malhar - há sempre no caderninho um desejo aberto à milhões de oportunidades: aprender algo novo. Todo ano escrevo esse desejo com letras maiúsculas. Tenho a impressão de que fortalecerá minha vontade e me moverá enfim para algo, além de novo, maravilhoso. E eis que este ano, mesmo com a crise, o golpe, o impeachment, o Cunha, a bela-recatada-e-do-lar, a PEC 241, com a exploração dos recursos naturais, a ameaça de extinção de tantos animais, a tragédia do Haiti, o caminhão desgovernado em Nice, a guerra na Síria, a seca no nordeste, o Trump, a Olimpíada, o resultado das Eleições, a microcefalia e os desafios que caminham juntos, os sismos, a Câmara de Deputados, o sofrimento dos refugiados, o iPhone 7, a morte do Umberto Eco e de todos os que deixarão saudades, aproveitei muito bem meu tempo na vida!
Nada de sofrer além do sofrimento todo do mundo, nada de perder tempo com toda a perda de tempo da humanidade, consegui dar "ok" em todos os meus desejos e ainda marcar com um sorriso emoji aquele desejo escrito com maiúsculas. Fico feliz por isso. Apesar de tudo, e desse "apesar" não quero esquecer, minha vida segue em paz - firme em minhas crenças, em meus valores e em meus desejos. Pés no chão, cabeça nas alturas, desejo que todos tenham bons dias de avaliação de objetivos e refazimento, porque a poesia não pode estar distante da vida real. Sugiro seguirem abraçadas.
Paz e luz para nós todos!

12 de outubro de 2016

meu nome é CRIANÇA(S)

A roda do Ivan Cruz tão lúdica quanto linda! Fonte: Google Imagens

Havia uma menina dos cabelos enrolados que pensava na vida do patinho como uma grande questão filosófica a ser respondida. Há uma mulher que acomoda a menina com grande carinho na memória do tempo. Não há saudade, nem mesmo falta, há uma imprevista certeza de que aquele caminho iniciado nos anos de 1970 faz sentido.
Recordar aquela menina sempre me faz bem. Às vezes a ponho no colo, a abraço e converso sobre as conquistas, os enfrentamentos, a vida sempre em movimento. Ela me olha com espaçosos olhos verdes e presta atenção ao que digo como se ali estivesse seu futuro. Enfim, a menina é o que melhor habita em mim. Com ela aprendi a brincar e isso segura a sanidade de qualquer adulto.
A brincadeira da criança é a fantasia do adulto, segundo Freud. Minha fantasia já virou desenho, já virou leitura, já virou casamento e agora é texto. É esse exercício que pratico publicamente no bloguinho por que acho mais prazeroso dividir do que esconder.
E hoje, no dia das crianças, tive tantas crianças por perto em minha memória e nas fotos! As crianças que foram meus pais; as crianças que fomos eu e minha irmã; as crianças que foram meus tios e primos e filhos dos primos; as crianças que foram meus amigos; a criança que cresce e me chama de dinda; os meus bichos para sempre crianças. Esse foi o momento do devaneio com riso de canto.
Só que tiveram outros devaneios, aqueles que fazem uma ruga no meio da testa. A criança que tentamos resgatar da vida sem sucesso; a criança que morava naquela casa improvisada de papelão embaixo da ponte na estrada; a criança que precisou amputar a perna por causa de um câncer; a criança que foi violentada por um pescador; a criança doada pela mãe sem condição de cria-la; a criança, que a mãe carregava no colo suplicando ajuda, com os pés feridos de mordida de rato. Sim, conheci todas, não é brincadeira, nem fantasia.
Sempre olho para as crianças com esperança, confio que o tempo fará um bom serviço. Minha desconfiança não é com aquele que está começando ou aquele que está no fim, o meio é o que me preocupa. O adulto que transformou a brincadeira numa fantasia reprimida e esconde dele mesmo todo o afeto, não se comove com a dor alheia e não conversa com sua própria criança. Hoje pode ser um dia para alguém lembrar disso. Minha menina, a de joelho ralado e unha roída, está comigo, para sempre. Espero que a sua esteja também.

7 de outubro de 2016

meu nome é FURACÃO

O texto abaixo é de uma reportagem da BBC e achei muito interessante para postar no bloguinho por conta do tema, reforçando que "Je suis Haiti" e penso que a atenção do mundo deve estar voltada também para esse lugar:


Matthew ameaça a Flórida: como são escolhidos os nomes dos furacões

Os americanos estão em alerta com a aproximação do furacão Matthew, que deve atingir a Flórida nesta sexta-feira. Alguns moradores do sudeste dos Estados Unidos foram orientados a deixar suas casas.
O furacão já provocou ao menos 25 mortes, desde que se formou perto da fronteira entre a Colômbia e o México, no fim de setembro. A sua passagem foi destruidora no Haiti, onde ao menos 21 pessoas morreram e mais de 350 mil estão desalojadas, segundo a ONU. Outras quatro mortes foram registradas na República Dominicana.
Com o rastro de destruição, o Matthew poderá estar no nível de outras tempestades famosas pelos efeitos desastrosos como Andrew, de 1992 e Katrina, de 2005.
Mas qual seria a explicação para os nomes dos furacões e outros ciclones tropicais?
Usar nomes humanos - em vez de números ou termos técnicos - nas tempestades tem o objetivo de evitar confusão e facilitar a divulgação de alertas.
Ao contrário do que dizem alguns boatos populares, a escolha dos nomes não tem nada a ver com políticos e não se trata de homenagens a pessoas que morreram no desastre do navio Titanic.
A lista de nomes para os ciclones tropicais do Atlântico foi criada em 1953 pelo Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC, na sigla em inglês) e seu padrão foi usado para as listas de outras regiões do mundo.
Atualmente, as listas são mantidas e atualizadas pela Organização Meteorológica Mundial, agência da ONU baseada em Genebra, na Suíça.
As listas dos furacões de cada ano são organizadas em ordem alfabética, alternando nomes masculinos e femininos. E os nomes de tempestades são diferentes para cada região.
Neste ano já passamos por Alex, Bonnie, Colin, Danielle, Earl, Fiona, Gaston, Hermine, Ian, Julia, Karl e Lisa até chegarmos ao Matthew.
As listas são recicladas a cada seis anos, o que significa que alguns nomes podem voltar a aparecer.
Os comitês regionais da OMM se reúnem anualmente para decidir que nomes de tempestades do ano anterior devem ser "congelados" por terem sido particularmente devastadoras.
O furacão Katrina, por exemplo, que deixou mais de dois mil mortos em Nova Orleans, nos Estados Unidos, em 2005, não teve seu nome reutilizado. Em 2011, quem apareceu em seu lugar, com menos alarde, foi a tempestade Katia.
Koji Kuroiwa, chefe do programa de ciclones tropicais na OMM, explicou que o Exército americano foi o primeiro a usar nomes de pessoas em tempestades durante a Segunda Guerra Mundial
"Eles preferiam escolher nomes de suas namoradas, esposas ou mães. Naquela época, a maioria era nome de mulher."
O hábito tornou-se regra em 1953, mas nomes masculinos foram adicionados à lista nos anos 1970, para evitar o desequilíbrio de gênero.
Em 2014, um estudo de pesquisadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, afirmou que furacões com nomes de mulheres matam mais pessoas que aqueles com nomes masculinos, porque costumam ser levados menos "a sério" e, consequentemente, há menos preparação para enfrentá-los.
Os cientistas analisaram dados de furacões que atingiram o país entre 1950 e 2012, com exceção do Katrina em 2005 - porque o grande número de mortos poderia distorcer os resultados.
O estudo, que foi divulgado na publicação científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), afirmou que cada furacão com nome masculino causa, em média, 15 mortes. Já os que têm nomes femininos provocam mais de quarenta.
Kuroiwa diz que o uso de nomes próprios pretende fazer com que as pessoas entendam previsões e alertas mais facilmente. Costuma ser frequente encontrar pessoas com vontade de participar.
"Temos muitos pedidos todos os anos: 'por favor, use meu nome ou o nome da minha esposa ou da minha filha'".
Durante a era vitoriana na Grã-Bretanha, as tempestades eram nomeadas aleatoriamente. Uma tormenta no oceano Atlântico que destruiu o mastro de um barco chamado Antje, em 1842, foi chamada de Furacão de Antje.
Outros furacões foram identificados por suas localizações, mas coordenadas de latitude e longitude não eram tão fáceis de identificar e comunicar a outras pessoas.
Um meteorologista australiano do século 19, Clement Wragge, se divertia usando nomes de políticos dos quais não gostava. Na região do Caribe, os furacões já foram nomeados em homenagem aos santos católicos dos dias em que eles atingiam cidades.
Atualmente, os nomes mudam de acordo com a região dos ciclones.
"No Atlântico e no leste do Pacífico, usam-se nomes reais de pessoas, mas há convenções diferentes em outras partes do mundo", diz Julian Heming, cientista de previsões tropicais no Met Office, escritório de meteorologia britânico.
Heming diz que no oeste do Pacífico, por exemplo, também se utilizam nomes de flores, animais, personagens históricos e mitológicos, e alimentos, como Kulap (rosa em tailandês) e Kujira (baleia, em japonês).
"O importante é ser um nome do qual as pessoas possam se lembrar e identificar. Antes, esta região usava nomes em inglês e, há 10 anos, decidiu-se que eles deveriam ser mais apropriados para a região."
Hoje em dia, Sandy poderia chegar aos Estados Unidos, mas Anika se aproximaria da Austrália, Bakung chegaria à Indonésia e Bulbul poderia atingir a Índia.
As letras Q,U,X,Y e Z não são usadas na lista das tempestades no Oceano Atlântico por causa da escassez de nomes próprios com elas. Neste caso, há no máximo 21 tempestades nomeadas em um ano até acabar a lista.
Mas o que acontece depois que a lista termina? "Se o resto da temporada tiver muita atividade, temos que usar letras do alfabeto grego", diz Heming.
* Reportagem originalmente publicada em outubro de 2015 e atualizada

Texto original

21 de setembro de 2016

meu nome é CIRCUNSPECTO (parte II)

Heloise Beaumont subiu correndo as escadas do metrô Saint-German de Près. Não estava atrasada, mas sua ansiedade era tanta que não conseguia coordenar a velocidade dos passos com a hora marcada para o compromisso. Iria participar de uma última etapa da seleção para lecionar na Escola de Administração, sua expectativa era grande. Atravessou apressada o cruzamento da Bonaparte com a Rennes, passou em frente ao Cafe de Flore, subiu o Boulevard Saint-German e entrou no prédio imponente da faculdade.

Duas horas se passaram até que Heloise voltasse à rua, mais ansiosa do que antes. Tentava convencer-se de que a entrevista fora bem sucedida, mas a prorrogação da resposta para mais alguns dias deixou-lhe doloridos os músculos do pescoço. Desceu o Boulevard rumo ao metrô, caminhando e pensando quais seriam as outras obrigações da tarde. Passou pelo Cafe de Flore, muito cheio naquele horário, ainda deteve os passos oscilando entre a fome e a tensão. O Cafe era muito tradicional; Heloise sempre passava em frente, mas nunca entrou. Podia aproveitar para enfim conhecer o lugar, pensou, olhou o relógio, almoçaria e depois iria até a biblioteca pegar alguns livros para complementar uma de suas pesquisas. Segundos, hesitou, mas não entrou.

Heloise não sabia que naquele Café, pendurada na parede, estava um pedaço da sua história. Uma fotografia, dentre muitas de antigos frequentadores, sua mãe e seu bisavô dividiam uma das mesas externas. Ela olhos grandes e expressão comportada; ele de chapéu, costume na época, cigarro na mão, reticente. Duas figuras que não faziam parte de sua memória, pois ambos se foram cedo, antes que ela tivesse tempo de tirar suas próprias conclusões.

Cresceu ouvindo o pai contar histórias da família. Eram tristes e melancólicas. Ele as fazia belas, desconfiava. Jean Pierre Beaumont era um bom homem, cuidou de Heloise  após a morte súbita da mulher, vítima de um aneurisma quando a filha tinha um ano incompleto. Lecionava na mesma universidade que um dia lecionou seu pai e seu avô, o senhor da foto do Flore. A vida de Jean Pierre fora marcada por tragédias, seu pai e sua mãe morreram em um acidente de carro, ficando o menino com uma pequena herança disputada pelos avós maternos. Seu avô paterno, Antoine Beaumont, era um professor de matemática muito respeitado na Universidade de Paris. Era viúvo, vivia só, trabalhava muito, não tinha como cuidar do neto, embora fossem muito ligados.

O pequeno Jean foi morar com os avós maternos que logo em seguida o colocaram num colégio interno a despeito da boa educação que lá poderia receber. Seu avô não foi a favor, mas como a saudade da mulher e do filho tirara dele o movimento de um lado da face, tirara também sua coragem de enfrentar as brigas da vida. Contentou-se em visitar o neto uma vez na semana.

Jean contou a Heloise que numa das visitas do avô pediu-lhe um favor de homem. O velho estranhou, tossiu, mas compactuou com o neto que levaria uma jovem para um passeio semanal, depois lhe daria notícias. Francine Marc era o nome da menina por quem Jean estava enamorado. Na época ele tinha 12 anos e ela 11; juraram amor eterno antes de Jean ir para o internato. O avô, comovido, não negou um pedido tão sério. Há que se levar a sério o amor dos jovens, pensava divertido e melancólico. E assim aproximou-se da família Marc, também de acadêmicos como ele, e foi feito o convite, explicados os detalhes. Os pais de Francine acharam interessante e concordaram, mesmo por que a filha poderia fazer bem para o velho professor tão solitário.

Todas as quintas-feiras Antoine Beaumont levava a jovem Francine Marc ao Cafe de Flore, próximo a universidade, sentavam sempre a mesma mesa, ele pedia um refrigerante para a menina e uma taça de vinho para ele. Ficavam ali a olhar o movimento, sem assunto, mas cheios de compreensão. Vez ou outra ele passava um bilhete do neto para a jovem e via seus olhos enxerem-se de amor. Vez ou outra os acompanhavam a secretária do departamento de matemática, uma senhora muito simpática que tinha mania de registrar os momentos em fotografias.


Os pais de Heloise firmaram laços de amor por meio da diligência do velho professor. Pouco antes de casarem-se, após Jean começar a lecionar na universidade, Antoine adoeceu dos pulmões e morreu rapidamente. Francine e Jean cuidaram dele no período em que estivera no hospital. Heloise, portanto não o conheceu também, respeitava seu papel na construção de sua pequena família. A fotografia pendurada numa parede do Café de Fiore era a única prova daquela história, onde aparecia um velho triste, uma menina de olhos grandes, mas Heloise (com seus próprios olhos grandes) não sabia, passou apressada, acendeu um cigarro, seguiu firme para o metrô, daria tempo fazer um lanche no caminho.

* Eis o fim continuado do exercício de Escrita Criativa. Tenho futuro?..rs..

20 de setembro de 2016

meu nome é CIRCUNSPECTO

Todos os dias aquele senhor atravessava o bairro Saint-Germain-des-Prés, sozinho, tristonho. Não mexia muitos músculos no rosto, tinha um tipo de paralisia na face. Mexia bem as mãos, especialmente para levar o cigarro até a boca e tragar sôfrego. Vagava o olhar ensimesmado. Sempre muito alinhado, como se a qualquer momento precisasse estar pronto. Talvez para a morte que era mais vizinha do que visita. Um dia na semana havia a menina que o acompanhava e enfim os dois sentavam-se a mesa do Cafe de Flore. Olhos grandes, cabelo liso caindo sob o casaco. Pedia uma taça de vinho para ele, um gaseificado para ela e ali ficavam os dois, sem tempo para sair, embora sempre por pouco mais de um quarto de hora. Era uma visão semanal, às quintas-feiras, o velho e a criança eram vistos atravessando a rua, sentando-se em uma mesa externa do Cafe na esquina do Boulevard Saint-German com a Rue Saint-Benoît, pedindo os mesmos pedidos, ele alheio, ela concentrada. Não se falavam apenas se acompanhavam.

No de Flore corriam boatos. O jovem barman soube que ao velho só restava esse parente, uma sobrinha-neta. Vivia ela num abrigo e toda a quinta ele a pegava para o passeio. Já a moça do caixa, uma senhora de cabelo pintado de vermelho tomate, falava que aquele homem era muito rico e vivia sozinho depois que ficou viúvo. A esposa morreu há anos e os filhos não gostavam dele. A menina devia ser filha dele com alguma mulher de esquina. Levava ela ali por ser um lugar discreto. Queriam roubar-lhe a herança. A cozinheira achava todos loucos. Não viam que aquela menina era a artista que fazia o personagem jovem de Marlene Dietrich naquele novo filme? As quintas devia ser seu dia de folga. O velho era seu o avô, com certeza. Mas fumava muito, como fumava aquele homem. Vai morrer disso, sentenciava. A moça da limpeza apenas limpava. Não estava ali pra pensar na vida dos outros. A sua estava por um fio.

O garçom era o que mais chegava perto. Sentia a energia estática dos dois que não se olhavam, apenas se observavam em alguns momentos fortuitos. Achava curioso aquele velho com aquela menina todas as quintas, com o mesmo comportamento sorumbático. A menina era linda, parecia uma escultura. O velho era estranho, respirava entrecortado. Não aparentavam nada de ruim, mas também não era bom. Aquele encontro era mais compromisso do que prazer. Tinha pena dos dois, pareciam tão sozinhos. Um dia serviu o refrigerante na taça, conseguiu um olhar inquisitivo do velho e um curioso da menina. Sorriu discretamente para os dois e fez um aceno de cumplicidade. Era um mimo, um jeito de se aproximar. Olhares, só o que recebeu, mas já era bom. Passou a servi-los sempre em taças, com reverência.

Um dia uma mulher os acompanhou. Eram três na mesa. O barman esticava o olho para ver alguma pista. A senhora do caixa esticava o ouvido para ouvir alguma conversa. A cozinheira esticava o pescoço para acompanhar os movimentos. Da ansiedade de descobrir só não sofria a moça da limpeza, que continuava alheia nos seus esfregões, sem esticar nada.

Já o garçom, privilegiado que era, serviu uma taça de vinho a mais e ouviu um simpático merci. Finalmente alguém naquela mesa tinha boas maneiras. Que senhora agradável, pensou. Enquanto limpava a mesa ao lado, viu quando a mulher levantou e tirou da bolsa um objeto conhecido no Cafe, frequentado por artistas nas madrugadas parisienses. Ela tentou com o gesto e com palavras amorosas relaxar os dois frequentadores, sem sucesso. Pegou a taça, bebeu em um gole o conteúdo, olhando com sorriso para seus companheiros de mesa, continuando em pé com o objeto na mão direita. Colocou a taça na mesa vizinha e virou-se para surpreender seus alvos. Um clique, sem olhos para a lente, eternizou a foto que hoje está na parede do Cafe de Flore.
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*Exercício de escrita de contos da oficina de Escrita Criativa que participo e adoro. Escrevendo, vivendo e aprendendo. O título é "Histórias do Cafe de Flore".

20 de julho de 2016

meu nome é DECLARAÇÃO DE AMOR

Para meus amig@s com cara de amendoim coberto!
Nos tempos atuais, fazer declaração de amor parece tão inadequado... Terror social, perdas e danos em todo o mundo; a economia desestabilizada e desestabilizando a ordem; a saúde corrompida por vírus diversos, criados ou não. E eu aqui pensando em declarar amor eterno aos meus companheiro de jornada. E vou fazer sim! Isso por que, assim como eu, eles também estão angustiados com esse cenário de caos que estamos (sobre)vivendo, e precisam de amor!
Meus amigos, os que assim chamo, são ricos em experiências. Alguns viajantes do mundo, alguns viajantes interiores, com nomes incríveis lindos ou loucos, todos queridos e merecedores de mil abraços para comemorar o Dia do Amigo, mesmo em tempos tristes. Considerando o poder restaurador do abraço, o custo-benefício é uma perfeita receita da felicidade suprema nível 5. Acontece que moro longe (!) e não tenho todos perto o suficiente para acarinhá-los neste dia de declarações (snif).
Muitos dos habitantes desse mundo promovem destruição; meus amigos construíram em mim uma cidade com muitas áreas, coloridos jardins, verdes campos, prédios de andares diversos de experiências e amorosidade. Só guardo na memória o que foi bom, esse é um exercício para deixar a vida mais leve. As vivências desagradáveis ensinam e seguimos em frente. Planto as coisas tristes e ruins, nasce fortaleza e coragem.
Meus amigos têm cores diversas, na pele, nos cabelos, nos olhos, na alma. Revelam-se para mim como pessoas em construção, como eu, alguns doidos para caminhar, outros doidos para desistir, mas todos resistentes e rebeldes. Alminhas que amo! Batalhadores, trabalhadores, lapidando-se para virarem estrelinhas brilhantes um dia. Assim é o caminho dos seres humanos que convivo ou que convivi, os que chamo de amigos. Assim os vejo todos, por que em mim não quero que caiba nada além de amor. Eles são meus exercícios e meus professores.
Uma maçã caramelizada para cada um hoje!

19 de julho de 2016

meu nome é CATACRESE

Alguém precisa cortar minhas asinhas também, antes que voe alto demais. Fonte: Google Imagens
Adoro essa senhora chamada Língua Portuguesa! Sempre tão inesperada, quanto exótica. Estudando Estilística deparo-me com o nomezinho fofo que dá título ao nosso texto: Catacrese. Não lembrava mais dessa regrinha safada. A melhor de todas as descrições encontradas por mim é que esse nome super "é uma metáfora desgastada, tão usual que já não percebemos". Exemplos de fixação: dente de alho; pé de mesa; cabelo de milho; pisar em ovos; falando pelos cotovelos. Associações que, quando imaginados ao pé da letra (opa, outra catacrese!), faz-me rir!
Ando sugerindo que se coloque o nome dos filhos de concurseiros algo parecido com as regras do português para, repetidamente, chamando os bebês, os pais nunca mais esqueçam do que trata a regrinha:
- Catacrese, meu filho, para já de riscar o braço do sofá!
Adoro!

26 de junho de 2016

meu nome é POESIANDO

Fazer poesia é fácil
É só rimar tudo o que tem alma
Como beijo com calma

Lágrima rima com jaula
Força com aula
Justiça com mula
Coragem acumula

Inventa palavra pra ficar mais bonito
Mistura tudo num só caldeirão
Demoreza
Solitude
Tempestão
Cataventisse
Luazada
Friocão

Tudo junto bem que rima
Frase se apruma na corda-bamba
Pense em circo
Pense em árvore
Pense em gente e tempestade

Esquece a mão no papel
Deixa o coração escrever
Faz aparecer imagem em vez de letra
Risca tudo, lápis de astrever

Ressuscita palavra de dicionário morto
Português guarda alfabeto rico
Rima roto, orto, porto
Polemiza aborto, desporto, pé-torto

Agora tenta rimar coisa que dói
Essa é minha dificuldade
Pai rimar com saudade
Casa rimar com vontade
Povo rimar com calamidade

E não é que veio a rima?
Devia de estar guardada no fundo da cabeça
Naquele lugar que por mais que eu aqueça
Não emerge com facilidade
Só na música, na palavra poesia, na ânsia de brevidade

Morro eu na palavra da rima
Chega de tentar poesia por hoje
Machuca a mão e a testa
Ver como a vida resta
Sem coragem, sem piedade, sem contemplação

É fácil fazer poesia
Contanto que queira Castro Alves berrando no peito
Fernando Pessoa saindo do leito
Manoel de Barros na garganta sem jeito

Todo esse povo que morre fazendo poesia
E eu?

21 de maio de 2016

meu nome é ARTÍSTICO

Três opções já prontinhas: Fê; Lipe: Felipe (fofinho lindo!). Fonte: Google Imagens
Voltando às raízes, o site da Exame publicou alguns dos "surpreendentes" nomes de pessoas famosas. Adoro! A primeira coisa que faço é imaginar se essas pessoas não tivessem mudados seus nomes se teriam essas mesmas atuações no mundo artístico. Salve o livre arbítrio! Nossos pais nem sempre têm as melhores ideias na hora de nos registrar, convenhamos. Colocar o nome de Eliemary em um bebê é no mínimo exótico e dá margem para apelidos mais palatáveis (exemplo da pública Mara Marvilha).
Não quero reprimir os pais, especialmente os brasileiros - povo de criatividade pulsante. Nem gosto do regulador de cartório que abrasileira os nomes e provoca mais confusão que acerto. Minha intenção sempre foi a ressurreição de personalidades "abafadas" por seus nomes de batismo. A sombra de um nome não desejado provoca uma sombra na vida de muita gente - hipótese sugerida para um doutorado em linguística.
Quando que Elton John usaria aqueles óculos estasiantes sendo chamado de Reginald? E a clássica Xuxa seria ela e seus pompons chamando-se Maria das Graças? Não só os nomes, digamos, diferentes oprimem uma personalidade. Os nomes comuns, normais no IBGE, também reduzem um ser. Trágica, cômica, dramática constatação de um delírio meu, partindo de meu próprio nome.
Às vezes fico me imaginando lançando um livro, que não chega nunca a ser um projeto, mais seria um devaneio. E que nome adotaria se não o meu mesmo. Talvez um dos meus vários apelidos fizesse mais sucesso. E teria a consulta à numerologia que não poderia faltar. Somados tantos "as" em um nome só será que daria sorte? Decisões cruciais.
Os nomes da reportagem são mostrados como um souvenir para o leitor. Para mim dizem mais do que apenas uma diversão, falam de nosso ser público, nosso personagem social. O discurso presente em um nome é uma coisa linda de se observar! Desde a escolha para registro à aceitação dos registrados tem tanto desejo no meio, tanta informação afirmadora de tempo/história, espaço territorial, condição social, cultura... Encanta-me cada apresentação.
Aos Dinhos citados na Exame - Dinho do Mamonas Assassinas chamava-se Alecsander, e Dinho Ouro Preto do Capital é Fernando - até os Dinhos que conheço de perto - tipo o Serisvaldo que gerente de produção aqui da fábrica, toda a liberdade de escolha de nomes que se sintam reconhecidos e felizes!

16 de maio de 2016

meu nome é LEITORA

Está mais fácil viver no meu mundo interior. Fonte: Google Imagens
Realmente amo ler bons livros. É no universo da literatura que me desligo desse mundo louco e reconecto com mais força para sobreviver a ele. Gosto de ler livro impresso. Livro que tem cheiro. Ainda não me adaptei a longas leituras por meio das telas. Leio uma notícia, um artigo. Mas para histórias sou analógica. Sim, prefiro livros ao cinema. Adoro bons filmes; um audiovisual bem feito, com narrativa interessante encanta-me tanto quanto um bom livro. Contudo há uma diferença. O tempo. Um filme é consumido em duas horas ou um pouco mais. Um livro pode durar uma vida toda de leitura.
Não tenho livros de cabeceira. Tenho muitos livros na cabeceira. Ontem contei uns cinco. Um me pegou de jeito neste domingo. Por sua maravilhosa forma de escrever, Mia Couto é hoje uma das minhas preferidas leituras. Ele escreve magicamente e me lembra meu povo de Salvador, místicos clãs de sereia, como diz o Djavan na música.
Lembrei do bloguinho e de seu ímpeto inicial de narrar sobre histórias das pessoas e de seus nomes, especialmente em uma parte do livro, quando um dos personagens diz mudar de nome a cada aniversário para enganar a morte. Uma linda e melancólica imagem da incapacidade humana de fugir do fim. Só que chega um momento onde a memória falha e ele repete um nome antes usado. Mau agouro. A memória quando falha pode matar a gente.
Quanto mais leio mais sinto vontade de escrever. Ando lendo muita reportagem, por isso estou pouco criativa para escrever além da crise política e social que estamos vivendo neste nosso país. Os problemas são tão grandes e estão comprometendo tanto nossas vidas presentes e futuras que não dá pra ficar alheia. A opinião indiscriminadamente atola as telas, mas não minha prateleira. Meus livros são meu refúgio à opiniões. São meu alimento substantivo.
Nesse mundo tão exterior, tão "fora" de nós, encontro nos meus livros a delicadeza para me reconstruir. E isso e tão bom! Por um tempo de mais leituras, mais silêncio, mais reflexão e mais consistência.

20 de abril de 2016

meu nome é NÃO É

Meu lugar! Fonte: Google imagens

Muitas vezes, com absoluto senso de auto-preservação, congelo-me. Vou explicar como faço: primeiro o silenciamento - não falar é necessário nesse momento. Depois a procrastinação - localizando-me no tempo do depois. Depois o casulo - ninguém vai sentir falta mesmo diante de tantos estímulos externos. Domingo saí do estado sólido para o líquido e para o gasoso em nove horas com a TV ligada na votação do processo de impeachment.
Foi um estado de mudança muito rápido e doloroso. De repente não consegui mais ficar quieta, parada, omissa. Falei algumas coisas, não tudo o que queria. Não sou muito de briga, fico desgastada, minha energia baixa logo. Contudo implodo se ficar ouvindo coisas que discordo sem me posicionar.
Hoje, cansada com a luta diplomática interna, pesando prós e contras de minha fala, estou dolorida e aliviada. Disse o que penso e isso é muito bom.
Daí vem as consequências: muitas pessoas que gosto e admiro têm visão diferente do mesmo problema. Estão feridas e apaixonadas. Sofreram por mais tempo que eu, já que estava congelada. Já estão roucas por clamar seus discursos por justiça. Oh, justiça! Santa que oramos por solucionar as incongruências sociais. Sim, a justiça no Brasil é um caminho de fé - acredito nisso e sigo. Deixou de ser estuda, racionalizada há muito tempo. Ou melhor, este é um tempo de interpretações. Sabe a pegadinha da vírgula? A depender de onde coloco a vírgula o sentido da frase muda completamente. Assim está o Brasil.
Inquieta, muito inquieta com esse rumo. Não surpresa. O acesso à informações diversas provoca isso. Emissores e receptores de informação, todos temos opiniões e filtros distintos para analisar a mensagem. Velhos tempos de faculdade. Começo a entender porque não me desfiz de meus livros de faculdade, anteriores à reforma ortográfica. Preciso continuar lendo sobre sublimiraridade, manipulação, opinião pública, agenda setting, alienação. poder, mídia.
Pesquisando mais, chego a um conceito chamado "espiral do silêncio" (criado pela pesquisadora alemã Elisabeth Noelle-Neumann). Estava nessa neura! É mais ou menos assim: melhor calar, já que a maioria está numa linha que não concordo; já que a mídia fala com outra ênfase, priorizando as opiniões do status quo; já que os posts de pessoas que gosto estão colorindo minha timeline com palavras de ordem do discurso dominante.
Ainda bem que sempre tive um sentimento de liberdade dentro de mim, e de justiça social também. Chutei a espiral do silêncio para bem longe. Até tive vontade de escrever! Às vezes somos oprimidos por convicções alheias que não são nossas em absoluto, mas brigar é ruim. Deve ser ruim também nascer. E viva Herman Hesse! "Quem quiser nascer tem que destruir um mundo".

9 de março de 2016

meu nome é ACOMBUSTÍVEL

Vamos ressuscitar a escrita deste blog que anda tão tímida, ou preguiçosa, ultimamente. É mesmo difícil para mim escrever enquanto tantas coisas juntas provocam uma briga interna de prioridades. Escrever como ato de doação, de catarse, é a forma que mais gosto. Uma espécie de autoajuda publicizada, com intensão de revelar para fazer pensar. Meu pensamento é: quanto mais me exponho posso inspirar outros a investir mais no ato de pensar.
Sim, sempre fui uma pensadora. Desde de criança, penso. Em vários assuntos sem importância concreta, com importância efetiva. Guardando para mim meus mil pensamentos, vou virar uma "bomba caveira" como diz meu sobrinho. Melhor dividi-los aqui nesse espaço virtual louco, onde todo mundo fala o que quer, sem muita noção de como será interpretado, compreendendo ser esse um espaço de liberdade de expressão. Mas não é.
O espaço virtual é censurado pela visão dos leitores, censuradores por natureza. Aliás a natureza humana é censuradora por natureza, e a redundância é proposital. Nada é dito, escrito, fotografado sem intensão e é recebido também com uma intensão. Coisa mais bacana é pensar no mundo simbólico que nos rodeia. O meu preferido exercício de pensamento. O simbolismo de nossos atos, de nossa fala, de nossa liberdade, e o simbolismo de quem está "do outro lado", quem lê, quem vê, quem escuta. Mundo lindo e cruel.
Ontem recebi uma centena de imagens, mensagens, textos sobre o Dia Internacional da Mulher. Todas lindas, todas encaminhadas por pessoas queridas. Minha curiosidade estava nos grandes sites, nos jornais virtuais, o que revelavam sobre seu "pensar". Aquilo que chamam ideologia por trás das manchetes estava mais evidente do que nunca. Cada um falava da "Mulher" que enxergava. A mulher moda; a mulher casa; a mulher política; a mulher melancia. A escolha era minha afinal sobre a leitura que mais me identificava, me fazia sentir a mulher descrita ali.
Não tenho muito tempo mais para leituras do que não me faz pensar. O tempo que perco com revistas de caras e bocas é enquanto aguardo consulta médica. Sendo o ato de ir ao médico uma espécie de filme de suspense para mim, nada mais relaxante do que folhear as revistas com fotos coloridas e textos com ênfase na idade e cremes usados para conservar não sei o quê. Fico me perguntando por que esse povo acha que precisa conservar o corpo físico ad eternum e gastam toda a energia nisso, depois envelhecem, pois a velhice chega, e ficam estranhos velhos novinhos.
Vai entender o mundo simbólico... Por isso gosto de pensar e encontrar nomes diferentes e conhecer histórias de vidas diferentes, como a do colega que sofria no colégio com a galera chamando-o de Aóleo já que seu irmão chama-se Adísel. Criatividade na veia!

17 de janeiro de 2016

meu nome é MASSA

No entanto, nunca são iguais, mas é preciso quebrar pra ver dentro.

Todo mundo tem um poço fundo, aquele que nunca está cheio, satisfeito. O meu parece que além de ser fundo está furado, nada enche. Busco muitas respostas nos livros, meus companheiros super fiéis, sempre a mão. Minha casa é bem esquisita por isso, tenho livros em todos os cantos da casa. Todos mesmo. Quer dizer, não na área de serviço, ainda...
Hoje o eleito foi um antiguinho, do tempo da faculdade, sobre as teorias das comunicações de massa. Numa das citação diz Ortega y Gasset que a massa "é tudo o que não avalia a si mesmo - nem no bem, nem no mal - mediante razões especiais, mas que se sente 'como todo mundo' e, no entanto, não se aflige por isso, ou melhor, sente-se à vontade ao se reconhecer idêntica aos outros". Isso foi escrito em 1930, mas vi sua representação ontem mesmo.
Fui numa feira de rua, daquelas que está na moda nas cidades a fim de resgatar o prazer das ruas, o empoderamento do território, o exercício da economia criativa, e observei a quantidade de pessoas que, dentro de sua necessidade de "serem autênticas", únicas, estavam absolutamente iguais. Uma época chamei essa tribo de "labo B", mas já enjoei da reprodutibilidade ideológica que vem como ondas nos contextos sociais.
A morte anunciada da originalidade, teorizada lá nos anos 1930. A moda vista por retrovisores não tem nada de rebeldia, de ruptura, só um modelo repetido do jeito de falar, do jeito de agir, do jeito de pensar. Um tédio. Ainda há a necessidade de pertencimento de grupos, a intensa necessidade de não ser só, quando isso é tudo o que resta a qualquer um.
Disse que meu poço era furado, a mangueira do compartimento de água do meu carro também está furada. Coloco a água e ela escoa na maior facilidade, apesar de lentamente. Coloquei o carro no estacionamento do supermercado e quando retornei tinha um filete de água, parecendo com um riacho, descendo no piso irregular, começando de minha vaga. Poderiam ter peixinhos, pensei comigo, mas era só um buraco, provocado por outros buracos com certeza, vertendo água, num estacionamento de piso de concreto.
"A massa é o juízo dos incompetentes". Somos mesmo incompetentes em produzir pensamentos originais, não pautados pelo JN. Bowie agora é mito, Frida é unanimidade, Amy a sensação das perucas. Queria ver além desses, os que nunca são vistos. Os que não foram subvertidos em massa. Difícil encontrar um espírito livre. E eu não sou original a esse ponto, também reproduzo e curto o movimento de massa, faço parte dele, só que, às vezes, vejo peixinhos nadando em filetes de água saídos de uma mangueira furada de um carro, sinto-me assim respirando melhor.

10 de janeiro de 2016

meu nome é DOIS-MIL-E-DEZESSEIS

Obra de Vik Muniz feita de lixo. O que vejo de longe não vejo de perto. Fonte: Google Imagens 

É, estou viva, e continuo por aqui, pensando no mundo, mergulhando em mim, pronta para o balanço de 2015. O ano da loucura dos gráficos imaginários que medem meu lugar no mundo. Tudo pra cima, tudo pra baixo, cada hora uma coisa, uma batalha a começar, outra a vencer, outra perdida, um sufoco de ano. Só hoje tive coragem de pensar um pouco sobre ele na ótica do velho ano, do que passou e do que sobrevivemos.
No ano que parece não ter acabado, fico me perguntando por que não me contento em delimitar minha análise ao meu mundinho particular. Não, insisto em aumentar a régua para além de meu domínio (não controlável) para enfatizar que 2015 foi um ano de crise política-econômica, mundo sofrendo com tanta desventura, vidas humanas mexidas em todos os cantos do planeta, natureza sofrendo desprezo, "a morte tecendo seu fio" e o homem enredado na contradança da informação.
Observadora do mundo virtual que sou, li uma centena de vezes nas mensagens de fim de ano a palavra "gratidão". O povo agradece, só não entendi bem o quê. Os agradecimentos às conquistas pessoais, beleza, mas agradecer publicamente num momento que temos conhecimento que não está fácil em nenhum contexto parece tão egocêntrico... O ser público que nos tornamos com o advento da internet precisa de um pouquinho mais coerência.
Agradecer é bom, esclareço, principalmente nas minhas orações, entre eu e Deus, só não me sinto confortável com a palavra "gratidão" em várias legendas após ler a notícia de uma criança que foi degolada nos últimos dias do ano. Um indiozinho, numa rodoviária em Santa Catarina. Depois vejo uma reportagem de vários revoltados com a situação dos índios no estado. Confusa, não sei mais se chorava pela tristeza do fato em si ou pela reação incoerente daquelas pessoas que pareciam dar apoio, aparentavam perdidas nas diversas pautas levantadas e sem saber qual o possível caminho para uma ação efetiva. Sim, choro com os noticiários.
Os fatos reais me entristecem, mas não me enfraquecem. Meu desejo particular para cada um que se aventurar a ler esse texto é coragem. Como diz a música: "eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente". E para 2016, mais gratidão particular, mais ação pública!