17 de janeiro de 2016

meu nome é MASSA

No entanto, nunca são iguais, mas é preciso quebrar pra ver dentro.

Todo mundo tem um poço fundo, aquele que nunca está cheio, satisfeito. O meu parece que além de ser fundo está furado, nada enche. Busco muitas respostas nos livros, meus companheiros super fiéis, sempre a mão. Minha casa é bem esquisita por isso, tenho livros em todos os cantos da casa. Todos mesmo. Quer dizer, não na área de serviço, ainda...
Hoje o eleito foi um antiguinho, do tempo da faculdade, sobre as teorias das comunicações de massa. Numa das citação diz Ortega y Gasset que a massa "é tudo o que não avalia a si mesmo - nem no bem, nem no mal - mediante razões especiais, mas que se sente 'como todo mundo' e, no entanto, não se aflige por isso, ou melhor, sente-se à vontade ao se reconhecer idêntica aos outros". Isso foi escrito em 1930, mas vi sua representação ontem mesmo.
Fui numa feira de rua, daquelas que está na moda nas cidades a fim de resgatar o prazer das ruas, o empoderamento do território, o exercício da economia criativa, e observei a quantidade de pessoas que, dentro de sua necessidade de "serem autênticas", únicas, estavam absolutamente iguais. Uma época chamei essa tribo de "labo B", mas já enjoei da reprodutibilidade ideológica que vem como ondas nos contextos sociais.
A morte anunciada da originalidade, teorizada lá nos anos 1930. A moda vista por retrovisores não tem nada de rebeldia, de ruptura, só um modelo repetido do jeito de falar, do jeito de agir, do jeito de pensar. Um tédio. Ainda há a necessidade de pertencimento de grupos, a intensa necessidade de não ser só, quando isso é tudo o que resta a qualquer um.
Disse que meu poço era furado, a mangueira do compartimento de água do meu carro também está furada. Coloco a água e ela escoa na maior facilidade, apesar de lentamente. Coloquei o carro no estacionamento do supermercado e quando retornei tinha um filete de água, parecendo com um riacho, descendo no piso irregular, começando de minha vaga. Poderiam ter peixinhos, pensei comigo, mas era só um buraco, provocado por outros buracos com certeza, vertendo água, num estacionamento de piso de concreto.
"A massa é o juízo dos incompetentes". Somos mesmo incompetentes em produzir pensamentos originais, não pautados pelo JN. Bowie agora é mito, Frida é unanimidade, Amy a sensação das perucas. Queria ver além desses, os que nunca são vistos. Os que não foram subvertidos em massa. Difícil encontrar um espírito livre. E eu não sou original a esse ponto, também reproduzo e curto o movimento de massa, faço parte dele, só que, às vezes, vejo peixinhos nadando em filetes de água saídos de uma mangueira furada de um carro, sinto-me assim respirando melhor.

10 de janeiro de 2016

meu nome é DOIS-MIL-E-DEZESSEIS

Obra de Vik Muniz feita de lixo. O que vejo de longe não vejo de perto. Fonte: Google Imagens 

É, estou viva, e continuo por aqui, pensando no mundo, mergulhando em mim, pronta para o balanço de 2015. O ano da loucura dos gráficos imaginários que medem meu lugar no mundo. Tudo pra cima, tudo pra baixo, cada hora uma coisa, uma batalha a começar, outra a vencer, outra perdida, um sufoco de ano. Só hoje tive coragem de pensar um pouco sobre ele na ótica do velho ano, do que passou e do que sobrevivemos.
No ano que parece não ter acabado, fico me perguntando por que não me contento em delimitar minha análise ao meu mundinho particular. Não, insisto em aumentar a régua para além de meu domínio (não controlável) para enfatizar que 2015 foi um ano de crise política-econômica, mundo sofrendo com tanta desventura, vidas humanas mexidas em todos os cantos do planeta, natureza sofrendo desprezo, "a morte tecendo seu fio" e o homem enredado na contradança da informação.
Observadora do mundo virtual que sou, li uma centena de vezes nas mensagens de fim de ano a palavra "gratidão". O povo agradece, só não entendi bem o quê. Os agradecimentos às conquistas pessoais, beleza, mas agradecer publicamente num momento que temos conhecimento que não está fácil em nenhum contexto parece tão egocêntrico... O ser público que nos tornamos com o advento da internet precisa de um pouquinho mais coerência.
Agradecer é bom, esclareço, principalmente nas minhas orações, entre eu e Deus, só não me sinto confortável com a palavra "gratidão" em várias legendas após ler a notícia de uma criança que foi degolada nos últimos dias do ano. Um indiozinho, numa rodoviária em Santa Catarina. Depois vejo uma reportagem de vários revoltados com a situação dos índios no estado. Confusa, não sei mais se chorava pela tristeza do fato em si ou pela reação incoerente daquelas pessoas que pareciam dar apoio, aparentavam perdidas nas diversas pautas levantadas e sem saber qual o possível caminho para uma ação efetiva. Sim, choro com os noticiários.
Os fatos reais me entristecem, mas não me enfraquecem. Meu desejo particular para cada um que se aventurar a ler esse texto é coragem. Como diz a música: "eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente". E para 2016, mais gratidão particular, mais ação pública!