21 de setembro de 2016

meu nome é CIRCUNSPECTO (parte II)

Heloise Beaumont subiu correndo as escadas do metrô Saint-German de Près. Não estava atrasada, mas sua ansiedade era tanta que não conseguia coordenar a velocidade dos passos com a hora marcada para o compromisso. Iria participar de uma última etapa da seleção para lecionar na Escola de Administração, sua expectativa era grande. Atravessou apressada o cruzamento da Bonaparte com a Rennes, passou em frente ao Cafe de Flore, subiu o Boulevard Saint-German e entrou no prédio imponente da faculdade.

Duas horas se passaram até que Heloise voltasse à rua, mais ansiosa do que antes. Tentava convencer-se de que a entrevista fora bem sucedida, mas a prorrogação da resposta para mais alguns dias deixou-lhe doloridos os músculos do pescoço. Desceu o Boulevard rumo ao metrô, caminhando e pensando quais seriam as outras obrigações da tarde. Passou pelo Cafe de Flore, muito cheio naquele horário, ainda deteve os passos oscilando entre a fome e a tensão. O Cafe era muito tradicional; Heloise sempre passava em frente, mas nunca entrou. Podia aproveitar para enfim conhecer o lugar, pensou, olhou o relógio, almoçaria e depois iria até a biblioteca pegar alguns livros para complementar uma de suas pesquisas. Segundos, hesitou, mas não entrou.

Heloise não sabia que naquele Café, pendurada na parede, estava um pedaço da sua história. Uma fotografia, dentre muitas de antigos frequentadores, sua mãe e seu bisavô dividiam uma das mesas externas. Ela olhos grandes e expressão comportada; ele de chapéu, costume na época, cigarro na mão, reticente. Duas figuras que não faziam parte de sua memória, pois ambos se foram cedo, antes que ela tivesse tempo de tirar suas próprias conclusões.

Cresceu ouvindo o pai contar histórias da família. Eram tristes e melancólicas. Ele as fazia belas, desconfiava. Jean Pierre Beaumont era um bom homem, cuidou de Heloise  após a morte súbita da mulher, vítima de um aneurisma quando a filha tinha um ano incompleto. Lecionava na mesma universidade que um dia lecionou seu pai e seu avô, o senhor da foto do Flore. A vida de Jean Pierre fora marcada por tragédias, seu pai e sua mãe morreram em um acidente de carro, ficando o menino com uma pequena herança disputada pelos avós maternos. Seu avô paterno, Antoine Beaumont, era um professor de matemática muito respeitado na Universidade de Paris. Era viúvo, vivia só, trabalhava muito, não tinha como cuidar do neto, embora fossem muito ligados.

O pequeno Jean foi morar com os avós maternos que logo em seguida o colocaram num colégio interno a despeito da boa educação que lá poderia receber. Seu avô não foi a favor, mas como a saudade da mulher e do filho tirara dele o movimento de um lado da face, tirara também sua coragem de enfrentar as brigas da vida. Contentou-se em visitar o neto uma vez na semana.

Jean contou a Heloise que numa das visitas do avô pediu-lhe um favor de homem. O velho estranhou, tossiu, mas compactuou com o neto que levaria uma jovem para um passeio semanal, depois lhe daria notícias. Francine Marc era o nome da menina por quem Jean estava enamorado. Na época ele tinha 12 anos e ela 11; juraram amor eterno antes de Jean ir para o internato. O avô, comovido, não negou um pedido tão sério. Há que se levar a sério o amor dos jovens, pensava divertido e melancólico. E assim aproximou-se da família Marc, também de acadêmicos como ele, e foi feito o convite, explicados os detalhes. Os pais de Francine acharam interessante e concordaram, mesmo por que a filha poderia fazer bem para o velho professor tão solitário.

Todas as quintas-feiras Antoine Beaumont levava a jovem Francine Marc ao Cafe de Flore, próximo a universidade, sentavam sempre a mesma mesa, ele pedia um refrigerante para a menina e uma taça de vinho para ele. Ficavam ali a olhar o movimento, sem assunto, mas cheios de compreensão. Vez ou outra ele passava um bilhete do neto para a jovem e via seus olhos enxerem-se de amor. Vez ou outra os acompanhavam a secretária do departamento de matemática, uma senhora muito simpática que tinha mania de registrar os momentos em fotografias.


Os pais de Heloise firmaram laços de amor por meio da diligência do velho professor. Pouco antes de casarem-se, após Jean começar a lecionar na universidade, Antoine adoeceu dos pulmões e morreu rapidamente. Francine e Jean cuidaram dele no período em que estivera no hospital. Heloise, portanto não o conheceu também, respeitava seu papel na construção de sua pequena família. A fotografia pendurada numa parede do Café de Fiore era a única prova daquela história, onde aparecia um velho triste, uma menina de olhos grandes, mas Heloise (com seus próprios olhos grandes) não sabia, passou apressada, acendeu um cigarro, seguiu firme para o metrô, daria tempo fazer um lanche no caminho.

* Eis o fim continuado do exercício de Escrita Criativa. Tenho futuro?..rs..

20 de setembro de 2016

meu nome é CIRCUNSPECTO

Todos os dias aquele senhor atravessava o bairro Saint-Germain-des-Prés, sozinho, tristonho. Não mexia muitos músculos no rosto, tinha um tipo de paralisia na face. Mexia bem as mãos, especialmente para levar o cigarro até a boca e tragar sôfrego. Vagava o olhar ensimesmado. Sempre muito alinhado, como se a qualquer momento precisasse estar pronto. Talvez para a morte que era mais vizinha do que visita. Um dia na semana havia a menina que o acompanhava e enfim os dois sentavam-se a mesa do Cafe de Flore. Olhos grandes, cabelo liso caindo sob o casaco. Pedia uma taça de vinho para ele, um gaseificado para ela e ali ficavam os dois, sem tempo para sair, embora sempre por pouco mais de um quarto de hora. Era uma visão semanal, às quintas-feiras, o velho e a criança eram vistos atravessando a rua, sentando-se em uma mesa externa do Cafe na esquina do Boulevard Saint-German com a Rue Saint-Benoît, pedindo os mesmos pedidos, ele alheio, ela concentrada. Não se falavam apenas se acompanhavam.

No de Flore corriam boatos. O jovem barman soube que ao velho só restava esse parente, uma sobrinha-neta. Vivia ela num abrigo e toda a quinta ele a pegava para o passeio. Já a moça do caixa, uma senhora de cabelo pintado de vermelho tomate, falava que aquele homem era muito rico e vivia sozinho depois que ficou viúvo. A esposa morreu há anos e os filhos não gostavam dele. A menina devia ser filha dele com alguma mulher de esquina. Levava ela ali por ser um lugar discreto. Queriam roubar-lhe a herança. A cozinheira achava todos loucos. Não viam que aquela menina era a artista que fazia o personagem jovem de Marlene Dietrich naquele novo filme? As quintas devia ser seu dia de folga. O velho era seu o avô, com certeza. Mas fumava muito, como fumava aquele homem. Vai morrer disso, sentenciava. A moça da limpeza apenas limpava. Não estava ali pra pensar na vida dos outros. A sua estava por um fio.

O garçom era o que mais chegava perto. Sentia a energia estática dos dois que não se olhavam, apenas se observavam em alguns momentos fortuitos. Achava curioso aquele velho com aquela menina todas as quintas, com o mesmo comportamento sorumbático. A menina era linda, parecia uma escultura. O velho era estranho, respirava entrecortado. Não aparentavam nada de ruim, mas também não era bom. Aquele encontro era mais compromisso do que prazer. Tinha pena dos dois, pareciam tão sozinhos. Um dia serviu o refrigerante na taça, conseguiu um olhar inquisitivo do velho e um curioso da menina. Sorriu discretamente para os dois e fez um aceno de cumplicidade. Era um mimo, um jeito de se aproximar. Olhares, só o que recebeu, mas já era bom. Passou a servi-los sempre em taças, com reverência.

Um dia uma mulher os acompanhou. Eram três na mesa. O barman esticava o olho para ver alguma pista. A senhora do caixa esticava o ouvido para ouvir alguma conversa. A cozinheira esticava o pescoço para acompanhar os movimentos. Da ansiedade de descobrir só não sofria a moça da limpeza, que continuava alheia nos seus esfregões, sem esticar nada.

Já o garçom, privilegiado que era, serviu uma taça de vinho a mais e ouviu um simpático merci. Finalmente alguém naquela mesa tinha boas maneiras. Que senhora agradável, pensou. Enquanto limpava a mesa ao lado, viu quando a mulher levantou e tirou da bolsa um objeto conhecido no Cafe, frequentado por artistas nas madrugadas parisienses. Ela tentou com o gesto e com palavras amorosas relaxar os dois frequentadores, sem sucesso. Pegou a taça, bebeu em um gole o conteúdo, olhando com sorriso para seus companheiros de mesa, continuando em pé com o objeto na mão direita. Colocou a taça na mesa vizinha e virou-se para surpreender seus alvos. Um clique, sem olhos para a lente, eternizou a foto que hoje está na parede do Cafe de Flore.
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*Exercício de escrita de contos da oficina de Escrita Criativa que participo e adoro. Escrevendo, vivendo e aprendendo. O título é "Histórias do Cafe de Flore".