11 de dezembro de 2016

meu nome é TENDÊNCIA

Alhos e bugalhos. Fonte: Google Imagens


Alegria do pecado às vezes toma conta de mim
E é tão bom não ser divina
Me cobrir de humanidade me fascina
E me aproxima do céu
E eu gosto de estar na terra cada vez mais
Minha boca se abre e espera
O direito ainda que profano
Do mundo ser sempre mais humano
Perfeição demais me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontrou um jeito insosso
Pra não ser de carne e osso, pra não ser

A composição da Zélia Duncan e do Moska grudou feito chiclete no final desse domingo. Mas como não? Por vários motivos isso é facinho. Uma música deliciosa de ouvir e de cantar, com letra poética e violões divinos. Outras razões, se precisar de outras, é que "é tão bom não ser divina" e "me cobrir de humanidade"!
É fato que "perfeição demais me agita os instintos". Pense na moda das cirurgias plásticas que transformaram alguns peitos em balões; no botox que tira o riso do olhar; na moda que padroniza o jeito de vestir, a música que ouvir, a comida que consumir. E tem a maquiagem que não permite sentir a chuva na cara; o cabelo que não desmancha o cacho. E o gel? Quem inventou a brilhantina de ontem e a cera de hoje? Credo! Muita perfeição para cabelos que são livres por natureza, mesmo para cair e deixar aparecer a orgulhosa cabeça condenada a ser coberta até a rebeldia aparecer.
E tem a coisa dos dentes, sempre certos, alinhados, às vezes um exagero - nem um dentinho torto para fazer um charminho é permitido. Tem a turma da unha feita e pintada, que começa cada dia mais cedo - tem menina com conta no salão para manter unhas impecáveis, tão grandes quanto as do Zé do Caixão e pintadas de vermelho, com florzinha.
E a paleta de cores? Neste verão use etc etc etc - sempre imperativo, nunca sugestão. Mudaram o nome das cores para nome de vegetal, de fruta, de conceitos e do diabo a quatro. Tem cor chamada off  - sim, isso é uma cor, pelo menos segundo as revistas de moda. Muita piada foi gerada daí, nem quero competir pois vou perder feio. O nome do vilão é "Tendência", que goela abaixo a gente tem mesmo que engolir, não adianta se revoltar. Conselho: se vire e goste de usar off e tente descobrir na prateleira, sem consultar o Google, o que isso significa.
Mas é fato que me incomoda ver uma produção em série de pessoas comandada pela tal tendência. Parece que estou vivendo no "Admirável mundo novo" do Huxley. As tribos estão cada vez mais delimitadas dentro de seus discursos, seja da normalidade, seja da loucura, e assim, acredito, nada se rompe realmente. A normatização versus a (suposta) liberdade, uma briga sem vencedor.
Este mundo anda tão severo que este texto parece ridículo, só serve mesmo para tomar um fôlego, para distrair, como se não existisse tanto o que nos distrair e pouco para nos fazer pensar. O que vou fazer com toda essa digressão suscitada pela música de Duncan e Moska? Nada. Por que, afinal "o resto é silêncio" e quem disse isso foi Shakespeare e, creia, ler Hamlet está na moda.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Comentário: 0.01

    Boa Tarde!
    Falar com você dá um "puta" medo. Primeiro saiba disso.
    Rs.

    Sua escrita é tão perfeita que assusta os "comedores de arroz com feijão" como eu, que estão começando.

    Faço isso, estou aqui, porque sou atrevido. Sou mesmo.
    Se eu conhecesse se blog antes, já teria vindo. Agora que descobri o caminho, terá de me aturar por aqui de vez em quando.

    Brincadeiras à parte, qual nada, isso aqui é bom à beça. Rs.

    Li o texto. E é verdade. Não sei se consegui captar exatamente o que disse, mas me sinto assim ás vezes ó:
    Não tem mais lugar nenhum para ninguém, e ao mesmo tempo, tem lugares demais, escolhas demais. Rs.

    Como na música por exemplo.
    Fui adolescente nos anos 80. Imagine. Vi, e ouvi, a maioria das bandas de rock brasileiras surgir: "Legião Urbana", "Engenheiros do Havaí", "Nenhum de Nós", só para citar algumas.
    A lista é tão grande (Graças a Deus, cresci nessa época), que não cabe aqui.

    Hoje, sou "OBRIGADO" a ouvir. Porque ouvir, não é democrático. Ouvimos porque os ouvidos funcionam, ainda bem. Mas do jeito que as coisas andam, logo, logo, será comum nas ruas, pessoas com "Tapa Ouvidos", gigantescos.

    Para se fazer valer do direito ao silêncio. Silêncio, não, coitado do silêncio. Silêncio é bom, faz bem para a mente e para a alma.

    O foda e andar pelas ruas, quando passa um carro ao seu lado a toda, e te obrigando a ouvir mais alto que seus ouvidos aguentam:

    "SENTA", "SENTA", "SENTA", "KIKA", "KIKA", "KIKA"...

    PELO AMOR DE DEUS...

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